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Crianças e jovens órfãos renascem no internato São Martinho de Lima

De iniciativa privada, o centro é acompanhado por padres e madres católicos que acolhem cerca de 100 crianças e jovens de ambos os sexos, que neste lugar encontraram a oportunidade para começarem uma nova vida em que a oração, o trabalho e o estudo são os pilares da formação proporcionada pelo internato.

Francisco de Carvalho, 24 anos de idade, com 8 anos saiu de Benguela e rumou para Luanda em busca de melhores condições de vida. Com ele, seguiram viagem mais dois irmãos e a sua mãe. Chegados a Luanda, Francisco de Carvalho foi matriculado numa escola pública do ensino geral, com o sonho de estudar comunicação social. Segundo Carvalho relatou, terminado o 12º ano, não conseguiu ingressar no ensino superior por causa da morte do seu pai que lhe cobria algumas despesas. “Sem emprego e apoios, fiquei impossibilitado de continuar os estudos. Segundo Carvalho, “os familiares não estavam em condições de ajudar”.

Entretanto, com o surgimento há três anos, do projecto de acolhimento de crianças desfavorecidas do internato São Martinho de Lima, arredores de Luanda, renasceu a esperança de Francisco de Carvalho formar-se, desta vez em gestão de empresas e marketing. “Pediram-me para mudar de curso porque o projecto potencializa jovens para garantir a continuidade dos futuros estudantes” explicou. Tal como Carvalho, outras 100 crianças e jovens maioritarimente do sexo masculino foram igualmente acolhidas pelo mesmo internato com o sonho de se formarem. Hoje, com 24 anos de idade, o jovem frequenta o 3º ano do curso de Gestão de Empresas e Marketing numa das instituições de ensino superior de Luanda.

A sua rápida adaptação, a determinação e o sentido de responsabilidade cativaram logo os responsáveis do internato, o que lhe valeu a nomeação de decano da ala masculina. Quem parece também já estar adaptado à nova realidade é o pequeno Leo Lemos André, de 11 anos, o mais novo da instituição, que quer tornar-se num bom polícia ou militar das Forças Armadas Angolanas. Nascido no Zango zero, em Luanda, foi parar ao internato após a morte da mãe, levado por um tio que aos responsáveis do São Martinho alegou que o pai do pequeno Leo não possuía condições para sustentar o filho, nem garantir-lhe formação. Apesar de tímido e de poucas palavras, Leo é tido como um petiz exemplar e aplicado nas aulas. No presente ano frequenta a 3ª classe no colégio da instituição.

Funcionamento do Internato

Embora a iniciativa seja considerada positiva pelos beneficiários, ainda existem muitas dificuldades que afectam o funcionamento normal da instituição. Na ala feminina, por exemplo, quase tudo escasseia, desde alimentos a utensílios diversos, incluindo mesas, pratos e talheres para todas comerem ao mesmo tempo. Maria e a Júlia, com 14 e 20 anos, referem que há apenas nove pratos, sete garfos e seis colheres, insuficientes para 18 meninas. “Enquanto umas comem, outras procuram distrair-se, esperando pela sua vez”, desabafaram as interlocutoras. Apesar destes constrangimentos, a responsável da secção feminina, madre Rosa Correia, garante que “o internato está a mudar a vida de muitas crianças e jovens que encontram aqui a oportunidade de começarem uma nova fase, que irá proporcionar-lhes um futuro melhor”. Aquela responsável explicou, também, que para além das disciplinas curriculares, os beneficiários são contemplados com formação complementar, designadamente nas áreas de pastelaria, decoração, costura, sexualidade, música e desporto. Neste centro há várias histórias e sonhos, mas o que a todos une é o da formação, de onde poderão emergir médicos, juristas, empreendedores, jornalistas, padres, madres e pastores, comentou Júlia, proveniente da província da Huíla. Os alunos internos têm garantidas a educação, a saúde e a alimentação. O internato conta com o financiamento privado da empresa MNR, Investimento.

“É o meu contributo para a sociedade”

O patrono da instituição, Martinho Adriano Ngangula, declarou que construir uma infra-estrutura composta por um colégio, igreja, casa para padres e madres e os internatos, é sinal de gratidão a Deus, pois a sua formação também foi feita em instituições com este fim. O ex-seminarista referiu que a melhor contribuição que tinha para a sociedade angolana consistia em formar crianças e jovens, principalmente os mais carenciados, para que um dia dessem sequência a este projecto. “Quando pensei em construir isso, a minha principal preocupação foi a formação do homem. Se educarmos o bom pai, a boa mãe e o bom homem de amanhã, teremos um futuro melhor”, frisou o responsável. Segundo Martinho Ngangula, na sua infância foi muito apoiado pelos padres saletinos e capuchinhos e, hoje, sente-se na obrigação de retribuir.

Oração, trabalho e estudo

Martinho Ngangula entende que uma boa formação deve fazer- se acompanhar por princípios cristãos, por isso, as crianças e jovens de São Martinho de Lima aprendem não apenas o ABC, mas também a valorizar o trabalho e a acreditarem em Deus, para ganharem a dimensão espiritual da vida. “O homem é naturalmente religioso e o alicerce da sua vida é a oração. Deve estudar, mas não pode deixar de parte o trabalho, senão corremos o risco de estragar um homem, tornando-o preguiço. Estes são os três pilares da nossa instituição: Oração, trabalho e estudo. Aqui, a vida religiosa guia-nos a todos”. A par dos seus três filhos biológicos, Martinho Ngangula disse que em todas as crianças e jovens sob sua responsabilidade vê verdadeiros filhos. Acrescenta que faz isso de coração e não para ter reconhecimento do Estado ou da sociedade. “Estou a fazer a minha parte”, sublinhou. O centro recebe quase diariamente solicitações para o ingresso de novos alunos, porém, as dificuldades impedem que isso seja possível. Ainda assim, para o próximo ano, Martinho Ngangula promete melhorias no internato.

Fundação Sol estende a mão

Nos últimos meses a área social do Banco Sol “Fundação Sol” tem ajudado a instituição com bens alimentares que têm ajudado os responsáveis a minimizar as carências no centro. No mesmo dia em que OPAÍS efectuava esta reportagem, os petizes foram contemplados com alimentos diversos, como arroz, feijão, leite, frango, peixe e outros bens. A responsável pela área de marketing da Fundação Sol, Arlete Demba, disse que a instituição vai continuar a estender a sua mão ao internato e espera que outras instituições lhe sigam o exemplo.

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