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Documentário:Al Jazeera corta papel dos muçulmanos na escravatura e culpa portugueses

Canal do Qatar elimina primeiro episódio da série documental co-produzida pela RTP e LX Filmes, onde se aborda o papel dos muçulmanos no tráfico de escravos. E diz que foram os portugueses a “estabelecê-lo” este comércio“Para expandirem a sua riqueza, estabeleceram o comércio de escravos, em que África era o centro”.

POR: Diário de Notícias

É desta forma que o canal de notícias Al Jazeera, do Qatar, anuncia na sua página de Internet o “primeiro episódio” das Rotas da Escravatura, uma série europeia, apoiada por fundos comunitários, de cuja lista de produtores, encabeçada pelo canal francês Arte, fazem parte a RTP e a LX Filmes. O problema, como confirmou Luís Correia, director da LX Filmes, depois de ter sido confrontado pelo Diário de Notícias com esta versão, é que o alinhamento apresentado pelo canal “está alterado, não corresponde ao original”. Desde logo por apresentar como primeiro episódio aquele que, na realidade, “é o episódio dois”, de uma série de quatro, em que se “conta toda a história da escravatura, desde a antiguidade, passando pelos séculos XIV e XV, em que Portugal esteve mais envolvido”, até à abolição. “O que fizeram foi não exibir o episódio um e começar pelo episódio dois como se fosse o primeiro”, disse. De facto, confirmou também Luís Correia, a Al Jazeera não só suprimiu o primeiro episódio como alterou “o lettering do segundo, que também não é o original”, para que o episódio exibido passasse a ser identificado como o primeiro.

E sobre o que versava o episódio desaparecido na versão exibida pela televisão do Qatar? De acordo com a apresentação original do documentário, enviada ao Diário de Notícias pelo director da LX Filmes, o referido capítulo inaugural, intitulado: “641-1375 – Para Além do Deserto”, examina “o processo que levou o Império Muçulmano a tecer de forma duradoura uma imensa rede de tráfico de escravos pela África, Médio Oriente e Ásia”. “É esse alinhamento de quatro episódios, que foi já exibido em França e que a RTP tem previsto agendar em breve para emissão, que corresponde ao documentário”, acrescenta ao DN Luís Correia, lamentando a opção do canal árabe: “É muito desagradável e triste. Põe problemas para quem vê isto fora de contexto. No documentário, é explícito que há uma lógica de rigor histórico, de compreender a escravatura como um todo”, diz. O DN tentou, sem sucesso, contactar a assessoria de imprensa da a RTP.

Infante D. Henrique, o “salteador” No episódio transmitido no passado dia 16 pela Al Jazeera – canal seguido por largos milhões de espectadores em todo o mundo, sobretudo nos países islâmicos -, a escravatura em África é assim apresentada como uma prática fundada pelos portugueses: “O pequeno Reino foi o primeiro a assaltar a costa de África”, é assegurado na narração, acompanhada de imagens de Lisboa, da Costa de Lagos e Sagres e de São Tomé – todas captadas pelas produtoras nacionais que produziram o documentário. Entre os historiadores ouvidos neste capítulo consta António de Almeida Mendes, da Universidade de Nantes, que descreve Henrique, O Navegador, como tendo sido inicialmente “o líder de um bando de salteadores, de piratas que fazem cativos”.

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