Falta de transporte público encarece a vida em Quicabo

Embora se localize a 35 quilómetros da sede da província do Bengo e possuir uma estrada asfaltada teoricamente viável, no perímetro Quicabo-Caxito não circula um autocarro do Estado sequer.

Habitantes da comuna de Quicabo, município do Dande, em Caxito –Bengo clamam por transportes públicos, a fim de verem minimizados os problemas da região, sobretudo os relacionados com a alimentação, comércio, vestuário, saúde e educação, conforme os próprios referiram. Segundo eles, a ligação dessa sede comunal com Caxito é feita por uma estrada asfaltada que se encontra em melhores condições do que muitas nacionais, por esse facto não compreendem como é que, até agora, os governantes não disponibilizam uma rede de transporte mínima para acudir os cidadãos. “Se nós tivermos que atender todas as necessidades diárias que nos obrigam a ir a Caxito, estaremos a gastar muito dinheiro, porque daqui para lá, os taxistas de carro cobram 700 Kwanzas e os motociclistas, mil”, declarou Isabel Francisco Bemba, tendo calculado que o imperativo de voltar à casa aumentava as contas para mil e 400 ou dois mil a cada viagem.

A natural de Quicabo revelou que a maior parte dos moradores se dedica à agricultura e à caça, ao ponto de produzirem muito, principalmente no tempo das chuvas, mas não conseguem vender, porque não há fluxo de pessoas de outras áreas, para comprarem os seus produtos”. O PAÍS apurou de muitos camponeses que as suas culturas mais frequentes são tubérculos e raízes, cereais e as frutas, além de alguns legumes e hortaliças, com destaque para a mandioca, o milho, o mamão, a múcua, o tomate e feijão. Vezes há em que a seca atinge proporções alarmantes, que prejudica sobretudo as culturas de tubérculos. “Quando a pessoa vai à lavra, encontra as mandioqueiras todas secas como a terra”, ilustrou. Isabel Francisco esperava que, com o mercado instalado na sede comunal, o quadro viesse a mudar favoravelmente para a população local, entretanto a situação mantém- se, de tal forma que os únicos produtos básicos que, por via de alguns comerciantes persistentes, chegam à vila, ficam muito caros.

É o caso do arroz que a entrevistada revelou ter comprado algumas vezes a 400 Kwanzas e noutras, acima deste preço, em detrimento dos menos de 300 por quilogramas, comercializado nos mercados informais de Luanda. Curiosamente, durante a entrevista, Tia Bela, como é carinhosamente tratada entre os familiares e amigos, mostrou-nos a refeição que servia de almoço para si e os seus rebentos, Pascoal e Minga. “É arroz simples cozido com pouco óleo. É assim para quase todas as famílias, porque você tem de decidir se compra também o peixe. O dinheiro dificilmente chega para duas coisas”, desabafou Isabel Francisco. Outros produtos como o óleo vegetal e sabão, até mesmo o sal e o peixe, que provêm da sede municipal (Dande), também impõe custos elevados às famílias de Quicabo, soube este jornal da sua interlocutora, para quem a localidade podia ter empresários a investirem em pequenas lojas de venda de produtos alimentares, vestuário e material didáctico.

Água turva, outro problema

Pedro Pascoal disse ter nascido no bairro Kinjinga, um dos 29 que compõem a comuna de Quicabo. Preocupa-lhe o facto de a população ainda estar a consumir água turva captada directamente de algumas cacimbas escavadas pela população, ou em nascentes e riachos. “A água que consumimos é muito turva, e na vila não há outra alternativa, só os que têm mesmo muito dinheiro é que às vezes compram água boa em Caxito”, apontou Pedro Pascoal, referido-se aos poucos indivíduos da sede comunal que estão empregados na educação, saúde, polícia e administração locais. O líquido captado dessas fontes apresenta-se acastanhada e, quando agitada, facilmente se vislumbram nela resíduos parecidos com lama e pequenas fibras, que com o tempo adquirem a mesma cor. Na vila de Quicabo há uma Empresa de Tratamento de Água (ETA) que, segundo a população, deixou de funcionar por falta de manutenção regular, sendo que primeiro avariou o gerador que bombeava água do rio Lifune para o centro de tratamento. “A administração prometeu fazer um esforço para a empresa voltar a funcionar, mas não conseguiu, por causa da crise”, declarou o morador, destacado como segurança do único centro médico da comuna.

Rio, alternativa viável

Os cidadãos cujas residências estão instaladas nas proximidades do rio Lifune, no bairro com o mesmo nome, dão-se por felizes, pelo facto de em relação aos das povoações mais afastadas da corrente fluvial, poderem retirar a água de pequenas quedas naturais e artificiais. “Não é a água que queremos, mas é melhor do que a dos outros lá nos bairros distantes, porque aqui podemos descer ao rio e tirar no meio ou debaixo das pedras, isso faz a água ficar mais limpa”, salientou Kangongo, tendo realçado que os moradores de bairros mais distantes, quase todas as manhãs, deslocavam-se às margens do rio Lifune para daí captar o líquido vital. A moradora referiu que, quando a empresa de tratamento trabalhava, abastecia os moradores da sede, uma situação que os colocava em situação de desvantagem em relação aos conterrâneos e vizinhos da sede comunal, ao ponto de os obrigar a buscar aí água para beber e cozinhar. Aos residentes de Lifune, o rio também proporciona mais condições naturais para produzir, pois a facilidade de irrigação dos campos e o humedecimento da terra garantem a fertilidade dos solos explorados pelos agricultores nessas paragens de Quicabo.

Administrador mira soluções

Ao abordar sobre os problemas revelados pela população local, o administrador da comuna de Quicabo, Domingos Neto, começou por admiti-los, tendo adiantado que a sua equipa faz esforços para solucioná-los, embora estejam muito dependentes do apoio dos seus superiores hierárquicos. “Apesar de estar a 35 quilómetros de Caxito, pela Estrada Nacional Número 100, é preciso referir que a sede comunal de Quicabo está a outros 38 Km do bairro Onzo, o mais distante entre os 29 que compõem a comuna”, detalhou o administrador, demonstrando claramente que o problema da circulação e transporte de pessoas e bens se agrava mais, à medida que a direcção apontar para o referido subúrbio, sem estradas viáveis. Assegurou que o troço que liga Quicabo a Caxito é viável, mas nela não tem pelo menos um autocarro do Estado em circulação” para atenuar a penúria da população nos capítulos do comércio, da educação e da saúde.

Relativamente à água, à equipa desta reportagem dá a ver a exposição do tipo de águas (conservada em frascos plásticos de 400 mililitros) que cada um dos 29 bairros da comuna consome, uma exposição que, segundo revelou, mostra a todos os visitantes que, pela primeira vez, visitam o seu gabinete. Acrescentou que os motores da Empresa de Tratamento de Água local avariaram há seis meses, motivo pelo qual, até os residentes da sede e arredores se vêm privados do líquido vital. “De forma condicionada, já funciona o gerador de 250 Kvs, o que nos obriga a optar por um abastecimento também condicionado que prioriza a iluminação das residências apenas no período nocturno”, detalhou Domingos Neto, tendo acrescentado que o ramal instalado na comuna-sede devia sofrer alguma alteração, devido aos cabos que se foram danificando, até mesmo pelas queimadas de camponeses e caçadores da região. Igual tratamento requerem os candeeiros de iluminação pública da vila, na maior parte dos quais substitiuiram-se as lâmpadas por parte dos moradores, embora sem autorização da administração.