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Ambulância de Kicabo parada por falta de motorista

Já lá se vão mais de seis meses que está paralisada a única viatura vocacionada para apoiar pacientes com necessidade de transferência. Os gastos da deslocação são doravante responsabilidade dos familiares dos pacientes.

O responsável máximo do único centro médico da comuna de Kicabo, município do Dande, em Caxito, província do Bengo, revelou a O PAÍS que as transferências de pacientes e outras emergências, que eram apoiadas pela ambulância da instituição de Saúde que dirige, são agora pagas pelos doentes e familiares, por não possuírem condutor para o carro. “Esta situação já dura há mais de seis meses, o motorista que nos apoiava estava a trabalhar sem salário, por isso, decidiu deixar a actividade, a fim de procurar outras ocupações, de modo a garantir o sustento da sua família”, disse Joselino Fernando, que se identificou como administrador do referido estabelecimento.

Segundo contou o responsável, além da falta de motorista, há muito tempo que a direcção do hospital deixou de receber verbas para o combustível, gasolina no caso, porque a administração comunal, que se desdobrava a concedê-lo mensalmente deixou de o fazer, devido à incapacidade financeira. Aliás, era nesse pacote financeiro que os funcionários da administração de Kicabo encontravam um préstimo, tipificado como ajudas de custo, que atribuíam ao antigo motorista. O condutor andou nesse regime mais de dois anos, sob pretexto de vir a ser efectivado no quadro do pessoal do centro médico. Contactado, Luís Paulo, conhecido nessas paragens por Kaly, confirmou que conduziu a ambulância durante dois anos e quatro meses.

“Nós éramos dois e trabalhávamos em regime de turno, sendo que cada um fazia uma semana completa e descansava também sete dias, davam-nos um subsídio de 25 mil Kwanzas, entretanto, depois de completarmos 24 meses, este dinheiro começou a falhar, até que decidimos pôr fim ao trabalho”, contou Kaly, tendo adiantado que ele e o seu colega estão por receber cem mil, referentes aos últimos quatro meses. Repetidas vezes já solicitaram à administração local e, consequentemente, à repartição municipal da Saúde, mas, de acordo com o próprio, os dirigentes dessa secção sempre lhes pediram para esperar. A esperança passou a constituir um tédio para Luís Paulo, pelo facto de ter esperado dois anos para ver a promessa da efectividade falhada. “Por isso, já se tornava difícil acreditar nessas promessas, porque não acontecem”, desabafou o condutor da ambulância que deixou transparecer ser mínima sasua expectativa, por se ter apercebido da abertura de um concurso público para admissão de pessoal no sector da Saúde.

Sentido pelo encargo aos pacientes

Apesar de já estar fora da equipa que trabalha no centro médico, ainda é solicitado por vizinhos e conterrâneos, quando a gravidade de um paciente dita transferência ou qualquer cuidado fora de Kicabo. “As mamãs já se acostumaram a ver o Kaly a ajudar e facilitar o transporte de doentes para o hospital central da província e vêm ter comigo, porém, não tenho mais responsabilidade no que toca à ambulância”, desafogou o condutor, acrescentando que, mesmo assim, nutre um sentimento de solidariedade e acaba por ajudar a família necessitada a alugar uma viatura de antigos amigos de estrada, a custo módicos. Exercício do género já era prática de Luís Paulo durante o tempo em que conduzia a ambulância da unidade hospitalar, pois, segundo contou, não foram poucas as vezes em que ele teve de custear o combustível para abastecer a viatura.

“Os homens da administração davam três mil Kwanzas para a gasolina, às vezes, ficavam muito tempo sem renovar esse apoio e os casos aconteciam numa altura em que a administração se encontrava encerrada, nós tínhamos de tirar do bolso o nosso pouco dinheiro e pôr combustível no carro”, realçou Kaly, que, por essas e outras atitudes registadas pela administração local como elementos da sua ficha de desempenho, já foi considerado o melhor motorista a nível do município do Dande. O motorista conseguia em menos de 30 minutos colocar os doentes críticos de Kicabo no hospital de Caxito e apelou aos dirigentes da comuna, município e provinciais para resolverem a questão do seu enquadramento, pois, ainda está disposto a voltar ao seu ofício. “Ouço falar da possibilidade de chegarem motoristas de fora, peço desculpas, mas eles não vão aguentar este tipo de trabalho, porque não vivem aqui”, avaliou Kaly, argumentando que os casos mais graves aconteciam sobretudo no período da noite ou fora da hora normal de expediente.

Apenas seis funcionários no centro

Quem alinha do diapasão segundo o qual os motoristas da ambulância e os seguranças devem ser residentes de Kicabo é o administrador do centro médico. que encontra argumento no facto de as emergências não serem premeditada. Aliás, Joselino Fernando viu-se forçado a elaborar uma agenda de trabalho adequada à disponibilidade de pessoal no estabelecimento de Saúde. “Nós só somos seis funcionários e destes, apenas dois vivem aqui na comuna, por isso, tínhamos de optar por um horário que exige trabalhar 96 horas sem interrupção, ou seja quatro dias, o mesmo período que os técnicos de Saúde de cada um dos dois grupos”, detalhou o administrador do hospital, que, por se considerar como um dos residentes tem de trabalhar frequentemente. Joselino Fernando que, durante as jornadas diárias, desempenha quase todas as funções espera que a abertura do novo concurso de admissão ao sector venha a beneficiar a sua unidade sanitária com pelo menos metade dos funcionários que os regulamentos ditam para um centro médico. “Estou na Saúde há muito tempo e aqui no Kicabo, há 14 anos. Pelo que eu sei, um centro médico deve ter entre 40 e 45 funcionários e nós queremos pelo menos metade, para facilitar o nosso trabalho”, disse o técnico, tendo acrescentado que, se isso acontecesse, ele e os seus colegas deixariam de desempenhar o papel de maqueiros, auxiliares de limpeza, recepcionistas e segurança.

Planeamento familiar ora contestado Além de sentir pelo esforço que empreende todas vezes que o dever o chama para estar destacada na unidade sanitária de Kicabo, Paulina Ernesto, responsável pela área de maternidade e infância, teve de lutar contra a resistência dos nativos e residentes, quando entendeu começar com as palestras sobre o planeamento familiar. “Há oito anos, quando cheguei a Kicabo, vinda da Direcção Provincial da Saúde do Bengo, onde trabalhei por um ano na Área de Seguimento à Mulher Grávida, quase nenhuma mamã queria ouvir falar disso, quase que achavam até uma falta de respeito, mas depois comecei a convencê-los que o organismo das mulheres precisa de ser bem acompanhado e tratado, sendo importante as pausas na reprodução”, explicou a enfermeira, que aludiu também às dificuldades das próprias famílias em alimentar os seus agregados para as convencer Hoje, estima entre 15 a 17 partos mensais, alegrando-lhe o facto de a maior parte das mulheres concebidas da comuna recorrer à maternidade local, dias antes de atingirem as contas teóricas do parto. “Porque, em 2013, por exemplo, a estimativa era de três a quatro partos por mês com a tristeza de ouvir que mais de 30 crianças nasceram em casa”, observou a técnica de maternidade e infância, tendo-se gabado que até alguns pais já aparecem no planeamento familiar. Relactivamente à problemática da ambulância, apelou que os seus superiores hierárquicos envidem esforços para efectivarem o antigo motorista ou mandar vir outro, porque uma senhora com gravidez de risco, ao ser transferida, não deve andar em qualquer carro, por causa das posições que a mesma pode ser obrigada a tomar durante a viagem.

Doença move pessoas e custos

Luzia Domingos Francisco saiu de Kibonga, um dos bairros mais distantes da sede comunal, para assegurar os netos e casa da sua filha no bairro Quinze Pri. Tal situação ocorreu, porque, segundo a idosa, um neto caiu e fracturou um dos membros inferiores, o que obrigou os pais a deslocarem-se por meios próprios para o hospital de Caxito. “Tiveram de pagar mais do que 200, porque se tratava de uma emergência e o taxista não aceitou ir com o banco de trás com dois lugares desocupados”, disse Maria Luís Morais de 14 anos de idade, uma das duas netas que seguiam a conversa. A anciã acrescentou que havia situações em que os doentes eram transportados do bairro onde vive para a sede da província, desembolsando dois mil Kwanzas por indivíduo, uma conta que ficava pela metade, quando a ambulância estava em circulação.

Mosquiteiro como estufa na lavra

Outra situação que inquietava a entrevistada tinha a ver com o destino que as mulheres grávidas e seus familiares davam aos mosquiteiros atribuídos gratuitamente pela unidade hospitalar. “Quando chegassem a casa, muitas mães não usavam o mosquiteiro, davam aos companheiros para levarem às lavras e adaptarem-nos como estufa de protecção das plantações contra a insolação e as pestes”, informou Paulina Ernesto, revelando mesmo que ela e alguns colegas chegaram a presenciar casos do género. O mosquiteiro era ainda utilizado como rede de pesca, segundo a interlocutora deste jornal, que se viu obrigada a reforçar as palestras, no sentido de que esse grande mal se tornasse frequente. “É que os moradores não sabiam que, ao colocarem o mosquiteiro no rio, riacho ou noutra fonte, estavam a colocar em risco a qualidade do peixe e da água de que se serviam para o consumo e irrigação”, frisou.

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