Centro Integrado devolve esperança às mulheres desfavorecidas do Songo

A instituição, localizada no município do Songo, província do Uíge, tem oferecido oportunidade de formação e reintegração social a dezenas de mulheres que outrora não tiveram oportunidade de irem à escola

Texto de: Domingos Bento

Depois de ter sido oficialmente aberto, em Abril, o Centro Integral de Orientação Feminino, localizado no município do Songo, província do Uíge, concluiu o primeiro ciclo formativo das cinquentas mulheres carenciadas nas mais diversas áreas de actividade.

O espaço é o primeiro do género na província, depois do período colonial, vocacionado para a formação integral (desde a componente técnico-profissional à cultural) de raparigas e mulheres com dificuldades sociais.

O centro, construído pelo Estado por via do ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, está sob gestão das Irmãs da Misericórdia, que, desde 1982, trabalham no país auxiliando o Governo em matéria de saúde, educação e assistência social às comunidades mais carenciadas.

Mais do que um lugar onde jovens e mulheres aprendem um conjunto de artes e ofícios, assume a importância de ser um instrumento que vai, nos próximos tempos, possibilitar a redução dos níveis de desigualdades e de oportunidades entre homens e mulheres, por via de um amplo programa de formação integral vocacionado para pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Ao chegar ao centro, no primeiro contacto, é possível apreciar o constante entra e sai de mulheres que procuram se livrar de um passado de exclusão porque não tiveram acesso à formação. Porém, apesar de virem de diferentes pontos do município e da província do Uíge, todas estas mulheres, grande parte delas mães, trazem histórias de vida que coincidem.

Sentem-se enganadas pelo tempo e pelas famílias quando pensam num passado em que foramlhes coarctadas as possibilidades de se formarem e serem independentes. Hoje. correm atrás de novos horizontes e novas oportunidades que lhes possa garantir a Inclusão, reintegração, aceitação e a superação por via da aposta de um amplo programa de formação integral, cuja componente profissional inclui a informática, corte e costura, decoração e culinária.

Dentre as várias mulheres integradas no espaço, Fineza Mucamba, 36 anos de idade, é uma das mais destacadas pela coragem de romper as barreiras de uma cultura em que as raparigas são subjugadas e postas em segundo plano quando o assunto é oportunidade.

Com uma pasta no ombro, trajada de saia cumprida, bata azul e sandálias pretas, Fineza Mucamba dirige-se às pressas ao Centro.

Apesar de estar atrasada cerca de dez minutos, antes de entrar na sala de aulas, junto ao portão, Fineza pára e saúda as outras colegas do primeiro turno que já estavam de saída. No primeiro contacto, as mulheres falam do dia anterior que, para além das tarefas domésticas, foi preenchido com as aulas e a ida à lavra onde foram buscar mantimento para a família.

Afastada do campo de cultivo

Diferente das outras, Fineza já há dois dias que não vai ao campo por causa do filho, que está com paludismo. E só não tem faltado às aulas porque o curso já está prestes a finalizar e por isso tem receio de perder a matéria e reprovar. Quando questionada pelas colegas com quem ficara a criança naquele momento que ela vinha à formação, a mulher, às pressas, respondeu que deixou o bebé com a vizinha que, ultimamente, a tem ajudado muito nessa combina formação / família e vice-versa “Deixei mesmo a criança com muita febre, mas tive que vir à escola porque não posso faltar.

Como as aulas só demoram duas horas, assim que sair vou directo para casa, mas antes vou aproveitar passar no posto de Saúde, vou lá buscar comprimidos”, frisou a mulher que, de seguida, entrou para sala de aulas onde está a cursar informática.

Dentro da sala, Fineza esquece por alguns instantes as preocupações de casa e concentra-se na explicação do formador. Recebe explicações sobre as funcionalidades
do computador. Apesar de já estar quase a finalizar o curso, a mulher ainda não se contém a emoção de ver ligar e manusear o equipamento que até então era uma maquina estranha para ela.

No entanto, o entra e sai nas aplicações é constante e, para Fineza, simbolizam o começo de uma nova vida. Tal como contou, sempre encontrou obstáculos a nível familiar que a impossibilitaram de continuar a estudar.

Por isso, hoje consideram que perdeu grande parte
da sua vida que poderia ser uma mais-valia para ela e para a família. Fineza, de semblante tímido, de estatura baixa e tom de pele claro, disse ter estudado até à nona classe. Porém, do curto ano de escolaridade, a mulher não mais saiu.

Posteriormente vieram os quatro filhos e com eles uma série de dificuldades, entre as quais doenças, carências. alimentar e de vestuários, e tantas outras que tivera, sempre como prioridade.

Assim, para ela, a sensação de formar-se, muito tempo depois, é parecida com a de um detento que vê o sol depois de muitos anos enclausurado. “Os nossos pais diziam-nos que o lugar da mulher é cuidar da casa, do marido e ir à lavra. Vivemos presas muito tempo.

Mas hoje está tudo a mudar e descobrimos que, afinal de contas, não é nada daquilo que nos ensinaram. Por isso é que agora estamos a deixar os maridos e os filhos para nos formarmos”, frisou.

Força de vontade

Irene Paula, 32 anos de idade, é também uma das primeiras formandas do Centro, que mudou completamente a rotina e vida das mulheres do Songo.

O orgulho de ser a primeira jovem mãe formada é, para ela, um valor que vai para além da simples satisfação. Formada em corte e costura, a dona de casa, mãe de dois filhos, reconhece que seguir com a vida, depois da maternidade, com marido e os deveres de casa por fazer, é muito difícil.

Mais ainda quando se vive num município como é o Songo onde as politicas de inclusão femininas são escassas. De acordo Irene, quando decidiu apostar na formação encontrou entraves no seio familiar.

No princípio, conta a mulher, quer o marido como os pais não aceitaram a escolha, o que provocou um mau ambiente dentro do lar. Só depois de muita insistência e força de vontade é que conseguiu se livrar dos impedimentos, o que a possibilitou de enxergar uma nova oportunidade e o despertar para novos ares de uma vida que anteriormente se limitava a cuidar da casa, do marido e dos filhos.

“Aos poucos ele (o marido) vai aceitando essa minha nova fase. Já estudamos pouco. Não podemos aceitar viver sem nenhuma formação. Temos muitas mamás que anteriormente dependiam dos maridos e que hoje estão a sofrer porque não têm o que dar para os filhos. As lavras também agora já não dão nada. Então temos que começar a pensar numa outra coisa que nos garanta o futuro”, apontou.

Compreendê-las

Aos 24 ano de idade, Emília Afonso tem sobre a sua alçada um total de trinta mulheres, acima dos 35 anos de idade para formar nos próximos meses.

Apesar da baixa idade, ela é das poucas raparigas formadas na sua aldeia. Diariamente, disponibiliza o seu conhecimento para formar outras mulheres matriculadas no Centro. Em declarações a OPAIS, a jovem disse que grande parte das formandas, no princípio, enfrentavam na sala de aulas com um misto de insegurança, medo e ansiedade, o que fez com que muitas não tivessem a atenção exigida.

Tal como explicou, por outrora lhes ter sido renegada a formação, muitas sentiam-se desvalorizadas e tinham vergonha de expor as suas debilidades.

No entanto, com um trabalho mais direcionado, aos poucos as mesmas abriram-se para a vida e hoje grande parte das formandas já se sentem mais à vontade ao apresentarem as suas dificuldades, mostrando diariamente a necessidade ultrapassar os fantasmas do passado.

“No principio elas vinham em mim uma criança para estar a formalas. Então ficavam retraídas. Algumas até quase que desistiam da formação. Mas hoje já conseguem sentirem-se mais a vontade. E tenho passado esse princípio que formação não tem idade. Qualquer uma pessoa pode aprender sempre alguma coisa, independentemente de ser adulta ou menor”, defendeu.