Albino Carlos: “A nossa realidade é tão assombrosamente inédita quanto a própria ficção”

A União dos Escritores Angolanos será palco no próximo dia 30 de Agosto do lançamento do livro ‘Caças às Bruxas’, do escritor Albino Carlos. Descrito como ‘um dos romances mais brutais da literatura angolana’ – como se lê na sua sinopse-, a mais recente obra do também jornalista, agora emprestado à Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERCA) e à docência, centra-se num dos mais dramáticos momentos da história da província do Cuando-Cubango, o conhecido caso “Kamutukulenu”, em que oito supostos feiticeiros acabaram mortos por orientação do então governador desta província, Jorge Fernando Biwango

Entrevista de Dani: Costa fotos Arquivo/Opaís

“Caça às bruxas”, o livro que será lançado nos próximos dias, é apresentado como sendo um dos romances mais brutais da literatura angolana. Porquê?

Provavelmente porque coloca à descoberto a alma angolana. A violência marca a nossa existência como pessoas, como povo e como Nação. A independência de Angola foi arrancada à ferro e fogo e, por outro lado, temos estado a viver sobre a batuta da violência, que na nossa sociedade ganhou estatuto de cidadania. A História mostra que é uma grande mentira dizer que somos um povo amante da paz.

Acaba por ressuscitar um dos episódios mais horripilantes da história angolana, mormente da província do Cuando-Cubango. Os meandros do famoso caso Kamutukulenu estão retratados em forma de ficção ou procurou trazer uma narrativa com base no que realmente aconteceu?

Esta obra revela que a nossa realidade é tão assombrosamente inédita quanto a própria ficção. O livro é uma metáfora e uma parábola dos mitos, crenças e costumes antigos e modernos que ensombram o nosso destino.

Baseandome no assassinato dos feiticeiros do Cuito Cuanavale, quis abordar a questão da feitiçaria que atravessa a nossa idiossincracia. Todos artistas angolanos abordaram a problemática da feitiçaria.

Mas ao fazê-lo eu quis revelar as potencialidades da oralidade africana em paralelo com as possibilidades do diálogo entre o local e o global, demonstrando, desse modo, que é possível usar métodos tradicionais e modernos para contar estórias e construir sentidos.

A mensagem é: temos que assumir as rédeas do processo de definição e materialização dos fundamentos da legitimidade e das materialidades simbólicas da nossa expressão artística. Temos de deixar de imitar o Ocidente, mas que isso não se torne em mais uma obsessão.

O lado jornalista ajudou a entender melhor a dimensão do que se passou na verdade no Cuando- Cubango e transformá-lo em ficção?

Por essência, o jornalismo trabalha com factos reais. A literatura actua mais ao nível da imaginação, tendo capacidade de promover um diálogo entre a ficção e a realidade.

Usei de práticas e dinâmicas jornalísticas à mistura com narrativas modernas e tradicionais. Tive contacto com o dossier kamutukulenu. Falei com juízes e advogados. Rebusquei quase tudo que a imprensa nacional noticiou sobre o fenómeno. Só não contactei feiticeiros e quimbandas, porque sou medricas.

Nisso de feitiçarias e magias negras, sou que nem os espanhóis: não ponho a mão no fogo. Visitei o Cuito Cuanavale para me inteirar da sua mística e conversei com muitos compatriotas da zona para beber da aura da localidade; li contos e fábulas do universo maravilhoso e pesquisei e usei as mais emblemáticas músicas que abordam a problemática da feitiçaria.

Ensaiei técnicas novas e bebi de fontes de escritores consagrados e das possibilidades da oralidade no sentido de conferir maior realismo às cenas imaginárias de feitiçaria. No nosso país, há, manifesta e artisticamente, uma dimensão cultural do jornalismo, associada à uma dimensão jornalística da literatura. Esta tradição vem desde o sec. XIX, daí a existência de muitos jornalistasescritores: Fontes Pereira, Cordeiro da Mata, David Mestre, João Melo, Luís Fernando, Ismael Mateus, e muitos outros.

Ainda não é possível divisar as fronteiras que separam o direito das nossas práticas tradicionais?

É uma questão pertinente. Advogo o diálogo permanente entre o tradicional e o moderno, entre o local e o global. Há aspectos da nossa tradição que importa ter em conta, ou seja, cultura angolana não deve ser pensada como oposição à globalização, mas como expressão da cultura universal.

‘Caça às bruxas’ é ‘uma insólita paródia das makas e das quezílias políticas e pressões que se têm exercido sobre a mentalidade dos angolanos’. Foi fácil escrevê-lo? Que tipo de pressões têm existido entre angolanos, sobretudo neste caso, em que alguns falam de uma transição política?

Não obstante ser doloroso que nem parto, deu-me bastante gozo ter escrito este livro. Tive assaltos de pânico e pesadelos. Houve momentos em que entrava em transe ou em surtos de risos. O pessoal de casa suspeitou que eu estivesse mayingado. Em gratidão da obra, adoraria imenso fazer uma sessão de lançamento do livro no Cuito Cuanavale ou em Menongue.

Quanto à transição política, dizer que se, por um lado, representa a renovação da esperança para a maioria dos angolanos, por outro, causa algum desassossego e maus presságios nos saudosistas do passado. Há algumas forças de bloqueio que não se conformam com as necessárias mudanças. Mas para frente é caminho. Nutro grandes esperanças na nova liderança do país.

O autor também procura ver-se livre dos seus demónios ou indica, através da ficção, os que ainda existem entre os angolanos, e como enfrentá-los?

Temos muitos fantasmas, quer do passado, quer no presente e futuro. Se antes, a preocupação era a purgação dos males do passado colonial, hoje há que expor e enfrentar as fracturas do presente. O pós-colonial continua uma questão mal resolvida e a globalização nem sempre nos parece um desafio aliciante. Baralhados pela indecisão identitária de si mesmo e do outro e aterrorizados pelo medo de se desmultiplicar em tantos outros, os angolanos têm vindo a encarar o presente e o futuro de forma ambígua. Como resolver esta ambiguidade? Sou sei que nada sei.

Quais são os principais fantasmas ou demónios que procura ultrapassar enquanto escritor?

Os divãs dos psicólogos estão abarrotados de escritores e poetas ilustres e frustres. Também me sinto angustiado pela indefinição do futuro. Particularmente, inquieta-me o pesadelo da folha em branco. A perda da memória também perturba-me o sono.

Como seria um acto colectivo de exorcização dos fantasmas das carnificinas das matanças e purgas políticas do passado?

Sempre tivemos medo do outro. E esse outro não tem necessariamente de ser estrangeiro. Há que promover um verdadeiro processo colectivo de desmistificação, o que não quer dizer derrubar os mitos fundacionais. Temos, de facto e de jure, de desmistificar o olhar e a forma de sentir África, o que passa pela descolonização da alma angolana, pela libertação dos fantasmas do passado e do presente e pela criação de novos valores e modos de pensar e agir adequados aos sinais dos novos tempos. Acontece que nunca nos deixaram ou pouco nos permitimos sentar à sombra da mulembeira para abordarmos, sem tabus e sem preconceitos, os nossos mambos e gizar o nosso futuro.

Uma comissão da verdade, à semelhança da África do Sul, ajudaria a expurgar estes fantasmas e esta ‘Caça às Bruxas’?

Os angolanos já demonstraram que têm maturidade política suficiente para encontrar uma solução angolana para resolver os seus problemas, quer de índole política e social, quer de natureza existencial e cosmogónica.

Haverão filhos deste país abençoados que sejam favoráveis aos fantasmas que ainda deambulam por aí?

Não se trata de ser favorável ou não aos fantasmas. Cabe a Deus justificar o não-sentido existencial – complexidade que traduz a insustentável leveza do ser e os limites das fronteiras da condição humana. Fantasmas e espíritos, quem não os tem que atire a primeira pedra.

Foi fácil chegar a esta obra depois do “Issunje” que foi muito aplaudido pela crítica, deu lugar a uma peça de teatro e venceu um importante prémio literário?

Ganhar um prémio à dimensão do Prémio Nacional de Literatura acarreta grandes responsabilidades. Contudo, não faço do ofício de escrever ocupação principal. Escrevo à moda do Boaventura Cardoso: devagar, mas com pendor oficinal. A minha maior satisfação é que as minhas obras ajudem as pessoas a reflectir sobre a nossa situação no mundo.

Como avalia hoje o estado da nossa literatura?

Um país constrói-se com homens e livros. O estágio actual da nossa literatura reflecte a ausência de política cultural. A literatura anda como o país: estamos em crise! Profunda crise.

O que pensa dos escritores mais novos que vão surgindo?

A qualidade das obras, em termos de escrita, está associada a publicidade que vimos assistindo? Um dos grandes factores diferenciadores entre a nova liderança política e a governação do passado é, seguramente, no modo como se encara a questão da Cultura e da identidade nacional. O sector cultural não pode continuar a ser o parente pobre. Precisamos urgentemente de uma política cultural que incentive o hábito de leitura e da escrita. A dimensão cultural do desenvolvimento tem de deixar de ser letra morta.

A indústria cultural e criativa e a promoção da identidade nacional têm de morar no discurso político e, sobretudo, têm de estar reflectidas na acção dos políticos e dos servidores públicos. Os jovens escritores e a nova geração de artistas são reflexos da inexistência de uma verdadeira política cultural.

É membro da Academia de Letras de Angola. Está satisfeito com o desempenho desta organização e os meandros que nortearam a sua criação?

A Academia de Letras de Angola tem vindo a ensaiar os primeiros passos justamente no sentido de afirmar a sua capacidade institucional. Todavia, urge ter uma participação mais dinâmica nos imperativos nacionais, mormente a afirmação da nossa identidade cultural, o posicionamento das línguas nacionais na sociedade e a melhoria da qualidade do ensino e educação. A cultura, a ciência e a tecnologia devem ser a mola impulsionadora do desenvolvimento sustentado de Angola e a ALL deve incentivar quem de direito a pugnar por esse imperativo.

O que se pode dizer da União dos Escritores Angolanos com as saídas de alguns membros como ocorreram com José Luís Mendonça e há pouco tempo Kajin Bangala?

Foi de facto uma nódoa no historial da UEA, um momento para esquecer. Quer o José Luís Mendonça, quer o Costinha, são pessoas sensatas e quando eles tomam essa decisão drástica é porque razões fortes motivaram-nos.

Faço votos que possamos reconciliar a UEA com os escritores e os artistas; há que fazer da União um espaço de afirmação da cidadania participativa, resgatando a mística do intelectual empenhado em pensar Angola.

Hannah Arendt sublinha que não pensar é catastrófico. A UEA tem andando muda e quieta perante os grandes problemas que afligem a Nação e o País.