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Professores culpam o sistema pelos erros ortográficos dos licenciados

Má qualidade na formação académica no ensino primário, falta de fiscalização nas aulas do ensino superior e ambição “desmedida” para a obtenção do diploma são apenas algumas das falhas do sistema de Educação apontadas por três professores universitários à OPAÍS. Os docentes foram unanimes em considerar que a escrita é uma competência que se adquire antes mesmo de ingressar na universidade.

Nas últimas semanas, várias instituições do ensino superior, públicas e privadas, apresentaram ao mercado de trabalho os seus licenciados, que concluíram com êxito a formação superior. Como não podia deixar de ser, foi um período de festas com direito a várias publicações nas redes sociais. Todavia, alguns estudantes que publicaram fotos das celebração referentes à cerimónia de outorga de diplomas escreveram legendas com vários erros ortográficos. As imagens e os erros tornaram- se virais nas redes sociais. O psicólogo Carlinhos Zassala não se mostrou satisfeito com os erros dos recém-licenciados, mas também não ficou surpreendido. Aliás, Zassala acusa os angolanos de terem “lentidão perceptiva” – que, segundo explicou, acontece quando as pessoas não conseguem perceber o estímulo no momento oportuno, somente a posterior.

O psicólogo afirmou que os professores universitários haviam alertado o Governo em 1998, durante a fundação do Sindicato dos Professores Universitários, que para a implementação de um ensino de qualidade no país era importante que se aderisse à “Convenção de Arusha”, que define as linhas mestras sobre o ensino superior no continente africano. “20 anos mais tarde, depois de todos falarmos da importância da harmonização dos planos curriculares, surge isto! Por isso chamo de lentidão perceptiva e cegueira mental”, considerou. Zassala, que também é professor universitário, atribuiu a responsabilidade por esta situação ao sistema de ensino no país.

Afirmou que a culpa deve ser partilhada, sendo atribuída aos governantes, à sociedade e às igrejas. Explicou que a base de qualquer sistema de educação e ensino é o ensino primário, em que são ensinados conceitos básicos no domínio da escrita, leitura e cálculos. “Não é na universidade que nós vamos perguntar porquê que as pessoas escrevem mal”, considerou, alertando que é tempo de repensar a educação que se pretende implementar no país. Eufrazina Teodoro, professora universitária, corrobora com o psicólogo quando diz que o ensino de base tem má qualidade. Concordou também ser neste nível que se deve ensinar as pessoas a escrever. Sobre as publicações, a professora disse existir uma linguagem própria nas redes sociais que não é o que se verificou e que, portanto, não serve de justificação. “O que se constatou foram erros de escrita”, apontou. Referiu que os professores do ensino de base não têm recebido a devida preparação, em termos de formação. Por outro lado, criticou o facto de se atribuir demasiado valor, em termos profissionais, à licenciatura.

“As pessoas acham que para ter uma boa vida é preciso ter licenciatura”, disse. Recomendou que se valorize os cursos técnico-profissionais, que referiu tratar-se de uma área em que há carência de quadros. Eufrazina Teodoro, que lecciona a disciplina de Direito de Urbanismo e Ambiente na Faculdade de Direito da Universidade Católica de Angola, considerou o sistema de ensino angolano “fraco”. A título de exemplo, afirmou que em outros países os professores são permanentemente submetidos a testes, até mesmo nas formações de pós-graduação, para controlar a qualidade do ensino. Reconheceu que o Ministério da Educação já melhorou o seu programa de ensino, mas alertou para a falta de fiscalização relativamente ao seu cumprimento pelos professores. Afirmou que os pais não fazem o devido acompanhamento em casa. E criticou o longo tempo de férias que aos estudantes se dá. É que, em sua opinião, ao invés de três meses, os estudantes deveriam ficar apenas um mês e meio em casa. “E mesmo nesse período deveriam ter tarefas para fazer em casa”, apontou.

Apelou que se critiquem as publicações, de modo a que os órgãos competentes tomem medidas. De igual modo, Márcia Nigiolela considerou que se deve atribuir responsabilidade ao sistema de ensino e a todos os subsistemas que o comportam. Para a professora universitária da Universidade Católica de Angola, aprender a escrever é uma competência que se adquire antes da universidade. Como proposta de solução, sugeriu, diante de tal situação, que as universidades implementem cursos de extensão universitária de língua portuguesa de curta duração e de superação. Por outro lado, recomendou a abertura por parte do órgão de tutela, de modo a conferir liberdade às universidades para que, no âmbito da sua autonomia académica, tenham a disciplina de língua portuguesa com frequência obrigatória. Recomendou os estudantes a assumirem as suas debilidades e assumam a superação. “É preciso cultivar nos nossos jovens a ideia de que eles devem ser competitivos”, disse.

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