Cimeira China-África poderá renovar esperanças, defende especialista

Para o economista Lopes Paulo espera-se o melhor da diplomacia económica do Presidente da república, João Lourenço, a fim de convencer o Governo chinês para, num curto espaço de tempo, desbloquear o financiamento de que o país precisa

Texto de: Rila Berta

João Lourenço encontra-se desde Sexta-feira em Beijing, China, para, pela primeira vez, participar no Fórum China-África desde que foi eleito há um ano. Em entrevista a OPAÍS, o economista Lopes Paulo referiu que o Presidente da República tem efectuado um bom trabalho nas visitas de Estado que até ao momento realizou.

Por isso, acrescentou, nesta visita à China espera-se o melhor da diplomacia económica do Presidente João Lourençom a fim de convencer o Governo chinês para, num curto espaço de tempo, desbloquear o financiamento de que o país precisa. “Esperamos que deste encontro saia, se não for o acordo, a perspectiva do acordo de financiamentos adicionais entre Angola e a China”, afirmou.

O especialista referiu que o encontro poderá relançar a cooperação tecnológica da China com Angola, o que deverá requerer acções complementares como a qualificação da mão-de-obra. Desde 2003, a cooperação entre Angola e a China assinalou um significativo incremento, resultante da concessão de linhas de crédito, o que permitiu reconstruir importantes infra-estruturas, no quadro do Programa de Reconstrução Nacional que o Executivo angolano iniciou em 2002.

Segundo Lopes Paulo, após essa concessão houve algum congelamento na disponibilização de mais fundos para Angola, desconhecendo-se as causas. Admitiu que a China terá feito algum inventário neste período de transição política em Angola, do qual “talvez” tenha resultado insatisfação da parte daquele país do Oriente no que se refere à aplicação de fundos por parte de Angola.

O novo Governo liderado por João Lourenço, segundo o entrevistado, tem implementado medidas importantes no âmbito da reforma económica, sobretudo no domínio da transparência e no combate à evasão fiscal e à melhoria no ambiente de negócios, transmitindo, assim, um sinal positivo no mercado internacional e, sobretudo, no mercado chinês.

Sublinhou que a China nunca fez exigências como as do mercado europeu, do americano ou das instituições de Bretton Woods, que sempre esperam contrapartidas dos governos na aplicação de recursos. Apesar disso, o gigante asiático obriga a que as suas práticas se ajustem a estes modelos.

Transferência da indústria chinesa para África de volta ao debate Para o economista Lopes Paulo, esta cimeira poderá renovar esperanças na perspectiva política e económica. O especialista entende que a China está a afirmar-se como um dos grandes países do mundo e, sendo a segunda maior economia do mundo, a sua pujança económica precisa de ter um respaldo político.

“A China tem-se lançado, sem mãos a medir, para várias partes do mundo, sobretudo em África, de modo a obter parcerias políticas para os seus objectivos, independentemente da condição económica de cada país”, destacou. Afirmou que, do ponto de vista político, a China procura mobilizar os votos de África para garantir a sua hegemonia sempre que for necessário.

Por outro lado, o Fórum ChinaÁfrica (FOCAC), segundo o economista deverá estar voltado para a questão da transferência da indústria chinesa para África. Lopes Paulo explicou tratarse de um processo que tem duas vertentes: transferência do investimento tecnológico chinês para África e regulação da concorrência dos produtos, sendo que os manufacturados que vêm da China são mais baratos. “Aqui, os Estados africanos precisam de ser mais acutilantes na promoção dos seus interesses”, apelou. Para o economista Lopes Paulo, na última cimeira, realizada na África do Sul, em 2016, ficou acordado que a linha moderna de produção da China fosse transferida para África a fim de começar a aumentar o seu processo de industrialização. Entretanto, referiu terem sido dados passos tímidos em Angola, porquanto o país já enfrentava a actual crise económica e financeira. “Mas houve avanços na Etiópia, que tem um parque industrial e zona económica onde grandes indústrias chinesas fabricam e exportam para os Estados Unidos. A África do Sul também conheceu avanços nesta perspectiva”, disse.

Reunião entre João Lourenço e homólogo chinês acontece hoje O Presidente da República, João Lourenço, deixou Sexta-feira Luanda com destino a Beijing, República Popular da China, onde vai participar nos trabalhos da Cimeira do Fórum China-África, nos dias 3 e 4 de Setembro.

Hoje, Domingo, 2, o Chefe de Estado angolano será recebido pelo Presidente chinês, Xi Jinping, num encontro previsto para as 16 horas locais. Acompanham o Chefe de Estado nesta missão, entre outros, os ministros das Relações Exteriores, Manuel Augusto, e das Finanças, Archer Mangueira, além de funcionários do seu gabinete.

De acordo com o programa, Segunda-feira, dia 03, entre as 10 e as 11horas locais, o ministro das Relações Exteriores vai participar na cerimónia de abertura do “diálogo de alto nível” entre líderes chineses e africanos. Manuel Augusto deverá também assistir à VI Conferência de empresários da China e de África, a ter lugar no Centro Nacional de Convenções daquele país, à margem da cerimónia do FOCAC.

A Cimeira China-África, que acontece pela segunda vez em solo chinês, é uma plataforma de consultas e diálogo colectivo, cujo objectivo é o fortalecimento de consensos, aprofundamento das relações de amizade, bem como a intensificação e promoção da cooperação entre o “gigante asiático” e os países do continente-berço da humanidade.

A primeira edição do FOCAC aconteceu em 2006, em Beijing e a segunda em Joanesburgo, em 2016. A República Popular da China é dos credores mais importantes para grande parte dos países africanos. Com Angola mantém uma cooperação privilegiada e excelente.