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Suspeitas de racismo “afugentam” clientes do restaurante café Del Mar

A agressão e humilhação de que foi vitima o jornalista freelancer Simão Hossi, no restaurante café Del Mar, estão a ser interpretadas como indícios de racismo por vários segmentos da sociedade que, como forma de protesto, deixaram de frequentar o espaço que é tido como um dos lugares mais procurados da ilha de Luanda

Texto de: Domingos Bento

O incidente ocorreu no passado dia 26 de Agosto, quando o jornalista Simão Hossi se deslocara ao restaurante Café Del Mar para almoçar com um grupo de amigos. Porém, antes da refeição, Simão Hóssi se deslocou à casa de banho e, na sequência, foi seguido por um dos funcionários, à mando da gerência. Para sua surpresa, conforme conta, foi agredido e expulso do restaurante por, alegadamente, apresentar-se mal trajado (tinha uma calça, camisola e chinelas).

Com uma ampla divulgação, sobretudo nas redes sociais, a situação está a levantar uma série de repúdios e protestos públicos de muitas pessoas, entre as quais clientes assíduos. Alguns, em resposta, manifestaram a pretensão de não voltar ao Café del Mar, que é um dos locais mais procurados na Ilha de Luanda.

Ismael Mateus, conselheiro do Presidente da Republica, disse que o caso de racismo contra o Simão Hossi é mais um dos milhares de casos que ocorrem no país, numa publicação na sua página do facebook. Segundo o também jornalista, sempre se disse que há racismo em Angola, mas prefere-se fingir que nada se passa. Em determinadas empresas, explicou, ter a cor da pele mais clara é um passaporte para a vaga ou para um atendimento diferenciado.

“Acontece nas nossas barbas e enquanto não tomarmos consciência disso, as coisas vão continuar. Um dia, quando alguém perder a cabeça e acontecer um incidente grave, ninguém se irá lembrar das pessoas que andam há anos a dizer que precisamos de discutir o racismo contra a grande maioria negra”, frisou. Acrescentou de
seguida: “claro que também há o racismo igualmente condenável contra as minorias, mas esse é o racismo visível e que a olho nu todos condenam”.

Por seu turno, a ctivista social Sizaltina Cutaia, que já frequentou o espaço algumas vezes, prometeu que, depois da ocorrência, não voltará a frequentar o espaço por compreender que, com o caso, o local mostra que “usa critérios discriminatórios, racistas e classistas para tratar as pessoas”. “Por isso, encorajo o Simão a seguir com o processo até às últimas consequências.

Nós todos e todas podemos ajudar, partilhando a denúncia e escolhendo melhor onde gastar o nosso dinheiro, porque consumir é política”, atestou. Para muitos, o problema não esteve apenas ligado às vestes, mas também à cor da pele. Olga Manuel, activista social, entende que o problema está “nitidamente” ligado a questões raciais.

Conforme atestou, já frequentou o referido espaço por varias vezes e, pelo que viu, na maior partes dos dias quem lá vai são pessoas de cor branca vestidas de calções, camisolas e chinelas, mas que não receberam o tratamento que o jornalista teve.

“Alias, sobretudo aos fins-desemana, a maior parte das pessoas que vão para lá são re raça brancos. E todos de roupas curtas. Mas minguem se mete com eles”. Afimou que em solidariedade com o jovem angolano, que descreve como sendo pobre, deixou de frequentar o espaço tão-logo soube do sucedido.

“Esclarecimentos preconceituosos”

Já o restaurante, por via de uma nota, fez saber que Simão Hóssi se havia apresentando no espaço trajado de maneira desadequada e inaceitável (calças sujas, camisola rasgada, chinelos em péssimas condições e aparente falta de higiene). De acordo com a nota, enquanto se dirigia aos lavabos, abordou a empregada de limpeza que estranhou a forma como o mesmo se apresentava, tendo o mesmo questionado se não achava que estava mal vestido para ser cliente.

No regresso dos lavabos, esclarece, o jornalista foi abordado pelo chefe da segurança que o convidou a abandonar o recinto, gerando uma situação desagradável e de grande desconforto, sobretudo para os clientes. Já no exterior do estabelecimento, verificando-se a presença de forças policiais que casualmente se encontravam em serviço de patrulha naquele perímetro, foram os mesmos chamados a intervir pelo próprio cidadão Simão Hossi, sob alegação de ter sido agredido, o que foi desconsiderado pelos agentes policiais, por não haver quaisquer vestígios de agressão e por a sua alegação se mostrar infundada”, refere a nota.

Em reação a esta nota, a jornalista Maria Luísa Rogério entende que a mesma está eivada de “preconceitos indisfarçáveis”. Para ela, a caracterização de Simão Hóssi feita pela gerência do espaço, a partir da sua aparência de comum cidadão angolano, “é execrável”.

“Eles sim, são andrajosos, ao ponto de inventarem uma empregada de limpeza para atribuir responsabilidades. Desde quando uma funcionária de escalão inferior tem o poder de seleccionar os clientes”? questiona a antiga secretária-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos.

No seu ponto de vista, independentemente dos resultados da queixa à Polícia Nacional, a vítima deveria accionar a reparação de danos na justiça. Luisa Rogério prometeu também não voltar ao Café Del Mar. De referir que, depois da ocorrência, Simão Hóssi, que disse terse sentido ofendido, distratado e humilhado, apresentou na esquadra da 1° divisão da Ilha de Luanda uma queixa que agora corre os trâmites por via do processo n° 2933/018-IG-ML.

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