loader

Qualidade da água consumida em Gombe preocupa sobas

O facto de já ter havido um esboço de captação e canalização que não funcionou por muito tempo chateia ainda mais os sobas, que se queixaram de não terem recebido nenhuma satisfação sobre o fracasso do referido plano

Texto: Alberto Bambi, Nicodemos Pedro e Pascoal Manuel

Os líderes tradicionais da comuna de Gombe, município de Muaxiluando, em Nambwangongo, província do Bengo, Carlos Sebastião e Bernardo Sebastião Macongo, manifestaram a OPAÍS a sua preocupação pelo facto de a população ainda estar a utilizar água dos rios e de outras fontes naturais para o consumo.

“Não achamos justo, até hoje, os habitantes dessa comuna, com dois rios aqui próximos, estarem a beber água de rios, nascentes e de cacimbas escavadas pelos moradores, quando, há quatro anos, o Governo prometeu colocar aqui um sistema de captação, para minimizar a situação dos habitantes”, desabafou o soba Carlos.

Receando que as pessoas venham a interpretar a reclamação das autoridades tradicionais como usurpação da responsabilidade dos dirigentes administrativos, Carlos Sebastião ironizou dizendo que, nas zonas rurais, quando o cidadão tem qualquer problema, primeiro bate a porta do soba, depois é que vai procurar o administrador ou a Polícia.

Por outro lado, o líder tradicional fez questão de realçar que mais do que ninguém, o soba é quem conhece os verdadeiros problemas da comunidade, porque o seu trabalho consiste em andar pela mesma, informando- se e vivendo a realidade da população.

Voltando ao problema da água, o aldeão referiu que nunca mais lhe foi dada qualquer satisfação sobre um projecto que devia proporcionar água captada do rio, cuja autoria da empreitada atribuiu a empresa que denominou por “Metrelie”.

“Esta empresa montou as electro- bombas lá no rio Wembia, no bairro Kifama, a quatro quilómetros da sede da comuna de Gombe, mas, infelizmente, a água não jorrou nas torneiras dos tanques aqui montados por mais de três meses, porque disseram que o contracto terminou”, contou o Tio Carlos, como é carinhosamente tratado na sua povoação.

Na ocasião, o soba ainda tentou saber sobre a razão que motivou a empresa a privar os moradores de um bem de que tanto se esperou, tendo obtido como resposta a garantia de reabertura no caso de os responsáveis da referida firma verem a sua situação atendida.

Outro projecto do género beneficiaria o bairro Onzo, segundo contou o soba Bernardo Makongo, responsável do mesmo subúrbio, mas ficou pelas promessas dos dirigentes. “A água que consumimos aqui é precária, falta água canalizada.

Já houve promessas da parte dos nossos superiores, mas nada se viu”, lamentou o seculo, para quem o único projecto que chegou a funcionar por pouco tempo na comuna-sede dependia de motores com funcionamento muito condicionado.

A Bernardo Makongo custa acreditar que um projecto de empresas de Caxito ou Luanda contemple a vila com maquinaria nova. Para dar sustentabilidade à sua afirmação, referiu-se ao exemplo dos empreiteiros que instalaram a canalização e os cinco chafarizes na sede de Gombe, tendo revelado que os mesmos fizeram a captação de água depender de electro-bombas que, em menos de 15 dias, foram incapazes de continuar a trabalhar.

Aliás, sobre isso, o soba Carlos deixou escapar que além do sistema de motores instalados nas proximidades do rio Wembia, havia outros na circunscrição da sede comunal para bombear para os cinco chafarizes construídos nessa localidade do município de Muaxiluando, em Nambwangongo.

Mau-cheiro no líquido

As moradoras da comuna-sede e do bairro Onzo entrevistadas por este jornal revelaram que a água que captam do rio para o consumo das famílias está malcheirosa, porque, nessa altura do ano, não há muita corrente, dificultando, desse jeito, a suposta purificação natural.

“Se a água do rio não corre, fica difícil a gente encontrar um líquido minimamente bom para beber e cozinhar”, disse a jovem Eva Sebastião, que se apressou a mostrar a qualidade da mesma captada a partir de algumas fontes que distam mais de quatro quilómetros da sua moradia.

Ela informou que a água que consomem está a causar alguns transtornos ao nível da saúde dos cidadãos, com destaque para doenças respiratórias e digestivas de difícil diagnóstico nos postos de saúde locais.

A degradação da pele e o surgimento de algumas manchas é outro problema notado por Vani, como é conhecida por familiares e vizinhos. Por causa disso, a jovem de 25 anos de idade traçou voluntariamente uma medida preventiva que consiste na colocação regular de pó infantil sobre a sua e a pele do seu filho, que, infelizmente, segundo lamentou, já está parcialmente afectado por este mal.

Apercebendo-se do assunto em causa, a sua avó, Helena Moniz Pascoal, reclamou sobre o sacrifício novamente imposto aos moradores de Gombe, que têm de acordar na calada da noite para obter água minimamente limpa.

“Agora as pessoas têm de andar tanto para ir às cacimbas onde há boa água para cozinhar e beber”, disse na língua Kimbundu, prontamente traduzida pelas netas Vani e Minga, tendo a velha deixado observar a má qualidade da água que usava para confeccionar o jantar do dia.

A anciã questionou ainda o porquê de os governantes não fazerem coisas que duram, quando se trata de um bem que vai beneficiar famílias pobres. “Ela está a dizer isso porque viu a água canalizada a jorrar nas torneiras dos chafarizes aqui do bairro por pouco tempo”, explicou Minga, para reforçar a frustração manifestada pela idosa.

Rio Onzo, lavagem colectiva

Eva Domingos João exibiu o líquido vital do rio Onzo que ela e os vizinhos consomem, tendo acrescentado que, às vezes, é aconselhável tomar o líquido de olhos fechados para não pensar no pior.

“Conforme veem, parece sumo de limão ou kissângua, é o que nós bebemos todos os dias, principalmente do fim do mês de Maio a princípio de Agosto que não chove quase nada”, declarou a senhora.

Relactivamente aos banhos e à lavagem de roupa, bem como de outros utensílios, Eva Domingos, informou que os habitantes da vila criaram a tendência der ir, em grupo, ao rio Onzo, preferencialmente no final de semana.

Esta dinâmica não evita as jornadas individuais que ocorrem noutros dias, entretanto, de acordo com ela, em menor escala.

Últimas Notícias