campanha no Brasil comandada a partir de uma prisão e de um hospital

Uma prisão e um hospital transformaram-se em sedes de campanha dos dois líderes da corrida eleitoral brasileira (Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, respectivamente), marcada para 7 de Outubro

Disputa pelo Palácio do Planalto mais incerta e radical da história do país tem como protagonistas, neste momento, um presidiário e um enfermo. E se ambos contam com a maior base de apoio popular, também somam os maiores índices de rejeição entre os candidatos à Presidência.

Enquanto o ex-Presidente Lula continua a trabalhar pela candidatura do Partido dos Trabalhadores (PT) a partir da sua cela em Curitiba, onde cumpre pena de 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o deputado Bolsonaro agora faz campanha a partir de um leito no Hospital Albert Einstein, em São Paulo – para onde foi transferido nesta Sextafeira, após ter sido ferido à facada num comício na Quinta-feira, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Bolsonaro lidera as intenções de voto após a invalidação da candidatura de Lula há uma semana.

O petista era o primeiro colocado em todas as pesquisas de intenção de voto. Contudo, uma pesquisa Ibope nesta Quarta-feira mostrou que Bolsonaro seria derrotado na segunda volta por quase todos os adversários, mas o ataque de que foi vítima pode mudar o cenário. Se a condição de vítima pode render empatia e votos a um político, agora Lula – que atribui a sua condenação a uma conspiração das elites para impedi-lo de voltar ao poder – encontrou um concorrente neste sector.

Mas, de acordo com David Fleischer, professor emérito de Ciências Políticas da Universidade de Brasília, Bolsonaro e Lula “são vítimas de duas coisas muito diferentes”. “Lula pode acreditar-se vitima dos tribunais, mas dentro da lei. Bolsonaro é vitima do atentado. São vítimas, sim, mas Lula como vítima depende de uma percepção”, afirmou.

O ex-Presidente foi condenado em segunda instância por ser considerado beneficiário de um apartamento triplex no Guarujá, litoral de São Paulo, oferecido pela empreiteira OAS em troca de facilidades de contratos na Petrobras. Os seus advogados apresentaram recursos em tribunais de terceira instância e ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Mais visibilidade na tv

Devido à diferença de conjuntura, “Bolsonaro pode fazer gravações de vídeos de campanha e dar entrevistas para a TV no leito do hospital, e isto é proibido para Lula na prisão”, lembra Fleischer.

O atentado que podia ter custado a vida de Bolsonaro acabou por dar ao ao ex-capitão do Exército grande presença nos media, que compensará os limitados oito segundos de propaganda televisiva gratuita a que tem direito, devido à reduzida bancada do Partido Social Liberal (PSL) no Congresso.

Já o PT precisou de tirar as referências a Lula como candidato dos seus anúncios de campanha. Bolsonaro já começou a aproveitar-se disso do quarto do hospital, ao surgir em imagens com uma sonda respiratória, após ter sido operado. A facada provocou-lhe três perfurações no intestino delgado, uma lesão grave no intestino grosso e outra na artéria abdominal.

Num vídeo gravado e divulgado por um senador aliado logo após a cirurgia, o candidato agradeceu a Deus e aos médicos e lamentou não poder assistir ao desfile militar que aconteceu nesta Sexta-feira no Rio de Janeiro, por ocasião do Dia da Independência. “Mas estamos com coração e mente, sempre tendo um Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, afirmou, usando um slogan da seu campanha. Enquanto isso, Lula trabalha a partir da prisão em Curitiba.

O seu principal interlocutor é Fernando Haddad, companheiro de chapa, que faz parte da equipa de advogados e pode substituí-lo se a sua candidatura for impedida.

fonte: France Presse