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Makuta Nkondo: “o verdadeiro jornalismo está na escrita”

Augusto Pedro Makuta Nkondo licenciou-se em Biologia, mas foi como profissional de jornalismo que se destacou nas zonas controladas pela FNLA. Exerceu a profissão desde 1978 a 2008. Actualmente, como afirma, está proibido de falar a alguns órgãos de comunicação. Já foi quadro da Agência de Notícias Angola Press (Angop), Folha8, Angolense e do jornal Comércio e Actualidade

Texto de: Neusa Filipe

Numa entrevista concedida, ontem, a OPAÍS, no âmbito das comemorações do Dia Internacional do jornalista, a assinalarse hoje, 8 de Setembro, Makuta Nkondo, como é mais conhecido falou dos altos e baixos da carreira de jornalista, fazendo uma comparação do jornalismo actual com o que se fazia no seu tempo. Depois de ter largado o jornalismo, profissão que exerceu por cerca de 30 anos, Makuta Nkondo abraçou a carreira política, ocupando actualmente um assento no hemíciclo angolano como deputado independente pela coligação eleitoral CASA-CE.

Fazendo uma resenha da sua carreira jornalística, Makuta Nkondo disse que o jornalismo evoluiu bastante nos últimos anos, relativamente aos anos anteriores. Conta que começou a exercer a carreira de jornalista na Angop, onde trabalhou como intérprete da língua francesa ao lado de jornalistas como Graça Campos, Siona Casimiro, Adelino Marques, Américo Gonçalves, João Miranda, Reginaldo Silva entre outros.

o jornalismo de ontem e de hoje Relativamente aos critérios de selecção, lembrou que naquela época, para que um jornalista fosse admitido era preciso solicitar a sua candidatura, e tal solicitação era examinada, por um lado pela comissão sindical, por outro pela célula do partido MPLA e por fim passava pela Segurança do Estado, que decidia a sua admissão ou não, e só posteriormente seria submetido a um estágio de três meses.

Diante de inúmeras dificuldades que disse ter enfrentado, visto que não havia ainda meios tecnológicos avançados como computadores para os jornalistas redigirem os seus textos, contou que o estágio era muito duro e quando terminava eram enviados para as várias províncias onde trabalhavam duramente tendo como equipamento um telex.

Avançou que o trabalho duro que desempenhava deu lugar à criação das delegações provinciais da Angop ao redor do país, fazendo parte dos primeiros delegados que suportavam as delegações regionais, tendo sido responsável pela instalação da Angop nas províncias do Uíge e do Zaire.

“Naquela época nós trabalhávamos com máquinas dactilógrafas, a famosa técnica do telex. Tínhamos um formato de papel que se chamava linguado, ao se redigir o texto era expressamente proibido ultrapassar as margens do linguado”, disse, acrescentando que para se fazer jornalismo naquela época era preciso ter dom e inclinação, visto que os critérios de selecção de profissionais eram muito mais rigorosos. Analisando as questões ligadas à falta de qualidade do jornalismo actual, o interlocutor referiu que o problema, em muitos casos, está ligado ao ensino que considerou “medíocre”, alegando existirem professores nas universidades a darem aulas de jornalismo mas sem nenhuma qualificação para tal.

Admitiu que os muitos jornalistas considerados pivôs naquela época não eram licenciados, porém, eram exímios, tendo citado os casos dos jornalistas Tico Costa, Américo Gonçalves, Joaquim Kamate, José Chimuco, Isaías Salussuva, entre outros.

“Não estou a dizer que o jornalismo de hoje é medíocre, há excelentes jornalistas, há jovens talentosos a fazerem trabalhos extraordinários, mas, muitos dos que vemos por ai com todo estilo, a desfilarem nas televisões e rádios não têm nada de jornalismo na cabeça. O verdadeiro jornalismo está na escrita, é o redactor”, salientou.

Pensão do jornalista

Makuta Nkondo afirmou que antigamente dava para viver do jornalismo e era considerada uma profissão de elite. Disse que os jornalistas eram respeitados, apesar de não ganharem muito, mas nunca houve reclamações por causa das suas condições sociais. Referiu que o jornalista era munido de um cartão de compras e de outras regalias. “Eu conheço os problemas dos jornalistas na profundidade. O jornalista angolano de hoje é pedinte, vive de esmolas porque hoje em dia um salário de cinquenta ou cem mil kwanzas não é nada”, afirmou.

A liberdade de imprensa

Relativamente à liberdade de imprensa, a fonte lembrou que no exercício das suas funções, ele e seus companheiros às vezes eram presos por fazerem questionamentos que lhes custavam caro. Afirmou que a nova geração se autocensura, afirmando que não haverá liberdade de imprensa em Angola e nem haverá abertura na comunicação social enquanto houver bicefalia.

Conselhos para a nova geração de jornalistas

Para a geração actual de jornalistas, Makuta Nkondo defende que é preciso que a mesma esteja livre e soberana. Pensar com a própria cabeça e não aceitar que alguém coloque a palavra na sua boca, e, acredita que “muitos chefes nas redacções escondem-se sob a capa da linha editorial”.

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