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João Lourenço confirmado na liderança do MPLA com 98,59% de votos

No seu discurso como novo líder do maior partido político em Angola, João Lourenço elegeu o combate a combate a corrupção, nepotismo, a bajulação e a impunidade, apontando-os como inimigos públicos número um do desenvolvimento do país. Após o congresso, o Comité Central elegeu Luisa Damião e Boavida Neto para os cargos de vice-presidente e secretário geral do partido, respectivamente

  • texto de: José Dias
  • fotos de: Jacinto Figueiredo e Daniel Miguel

Dois mil e 309 votos, representando 98,59% dos votos validos dos delegados participantes ao VI congresso Extraordinário do MPLA, foram quantos serviram para confirmar, ontem, no Centro de Conferencia de Belas, em Luanda, o ex-vice-presidente João Lourenço na presidência deste partido, em substituição de José Eduardo dos Santos, após 38 anos no cargo, de quem recebeu o alto facho aceso.

Foi agradecendo o facto de a direcção do partido ter apostado mais uma vez em si como candidato ao cargo de presidente do MPLA e de ter merecido o voto de confiança da grande maioria dos delegados ao congresso, que o elegeu como o quinto presidente do MPLA depois de nomes como Ilídio Tomé Alves Machado, Mario Coelho Pinto de Andrade, António Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos, que começou a sua intervenção no encerramento do conclave. João Lourenço realçou o papel de grande destaque no partido e na Nação angolana desempenhado por Agostinho Neto e que levou a proclamação da independência.

Para si, homenagear Agostinho Neto é algo que deve acontecer todos os dias na vida dos angolanos, por via das atitudes perante o próximo e a Nação. “Este congresso acontece no mês de Neto quando comemorarmos dentro de dias mas um aniversário natalício.

A homenagem maior vai se realizar em 2022 por ocasião do centenário do seu nascimento, acontecimento transcendental para o qual devemos começar a nos preparar para que esteja à altura da sua dimensão nacional e internacional onde se projectou na política, cultura, no humanismo que lhe caracterizava”, frisou.

De seguida saudou também o Presidente José Eduardo dos Santos por ter dedicado toda uma vida a causa do MPLA e da Nação numa conjuntura difícil da chamada guerra fria com a ameaça constante do regime do apartheid da África do Sul. “Neste momento em que deixa a política activa, os militantes do MPLA e o povo angolano no geral guardarão para sempre na sua memória a imagem do estadista que, entre outros feitos, trouxe a tão almejada paz definitiva, o perdão e a reconciliação nacional entre irmãos antes desavindos”, sublinhou.

Combate a corrupção, nepotismo, bajulação e impunidade

Apoiando-se ao slogan do congresso “com a força do passado e do presente construamos um futuro melhor”, João Lourenço começou a indicar as linhas orientadoras do seu mandato afirmando que “a construção de um futuro melhor só será possível se se tiver a coragem de realmente corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”.

Neste sentido, apontou a corrupção, o nepotismo, a bajulação e a impunidade que se implantaram no país nos últimos anos como os principais males a corrigir e, sobretudo a combater.

A seu ver estes males causam muitos danos à economia angolana, afectam a confiança dos investidores porque minam a reputação e a credibilidade do país. “Estes males apontados aqui são o inimigo público número um contra o qual temos o dever e a obrigação de lutar e de vencer”, frisou.

Disse ainda que nessa cruzada de luta o MPLA deve tomar a dianteira, ocupar a primeira trincheira, assumir o papel de vanguarda, de líder mesmo que os primeiros a tombar sejam militantes ou altos dirigentes do partido que tenham cometido crimes ou que, pelo seu comportamento social, estejam a sujar o bom nome do partido, num claro aviso sobre a mudança iminente do paradigma no seio do MPLA.

“Não confundiremos nunca a necessidade de se promover uma classe empresarial dinâmica forte e dinâmica de gente honesta que, com o seu trabalho árduo ao longo dos anos, produz bens e serviços e cria empregos com aqueles que têm enriquecimento fácil e ilícito e por isso injustificável feito à custa do erário publico que é património de todos os angolanos”, frisou.

“No caso destes últimos serem militantes ou dirigentes do MPLA não permitiremos que comportamentos condenáveis desta minoria gananciosa manche o bom nome deste grande partido que foi criado com suor e sangue para defender uma causa nobre”, acrescentou.

Apelou aos militantes a abraçar esta luta difícil mas honrosa que vai salvar a economia, o país e garantir um futuro melhor para as gerações vindouras. “Convido-vos pois a assumir essa liderança pela força do exemplo que passamos à sociedade sobretudo aos jovens. Vamos construir um partido onde ser do MPLA não signifique necessariamente abrir uma porta para alcançar benesses com facilidade, estar próximo da possibilidade de ser nomeado ministro, governador ou embaixador. Ser do MPLA deve significar sobretudo servir Angola e os angolanos”, frisou. João Lourenço quer uma governação virada para a resolução dos principais problemas da sociedade da economia e dos cidadãos.

Desafio político mais próximo: Autarquias locais em 2020

Disse que o MPLA tem pela frente o grande desafio de organizar as primeiras eleições autárquicas pela primeira vez. Com elas pretende-se implantar o poder local em todo o pais como forma de aproximar a governação ao cidadão estando ainda por se definir se no ano de arranque se realizarão já em todos os municípios de cada província ou não.

“Seja qual for o desfecho da consulta e do debate em curso na sociedade implantando de forma gradual ou não em qualquer uma das opções em toda as 18 províncias do país serão realizadas eleições autárquicas em pelo menos alguns dos seus municípios”, frisou. Por este motivo disse não fazer sentido algum falar-se do perigo do aumento ou perpetuação das assimetrias regionais contra as quais o MPLA é o primeiro a combater.

“O Executivo, como é seu dever, submeteu à sociedade uma proposta de base a partir da qual os partidos políticos, com assento parlamentar, as igrejas, associações profissionais, culturais, universidades, organizações não-governamentais e outros representantes da sociedade civil, se vão pronunciar a favor ou contra, sendo livres de defender os seus pontos de vista sobre como gostaria de ver implantadas as autarquias no pais”, disse.

“Longe de ser uma imposição, não obstante o Executivo defender a sua proposta inicial, está aberto a ouvir posições diferentes caso contrário não teria tido a iniciativa de fazer esta ampla auscultação a sociedade”, acrescentou. De acordo com João Lourenço, é altura de o MPLA começar a trabalhar neste assunto tão importante para a vida dos cidadãos preparando o partido e aqueles se vão apresentar como candidatos do partido ou independentes apoiados pelo partido para assumir a presidência das camaras municipais ou preencher os órgãos do poder autárquico.

Defendeu ambicionar vencer o maior número possível de camaras, reconhecendo que candidatos de outras agremiações politicas poderão vencer em algumas camaras municipais também, facto que considerou “absolutamente normal e até salutar para a democracia em construção no país”.

Considerou que com essas eleições pretende-se uma democracia mais participativa, onde o cidadão, não só elege aqueles que, na sua comunidade, no município, terão a responsabilidade de resolver os problemas que mais os afligem como ele próprio, cidadão, poder contribuir na solução destes mesmos problemas.

Disse serem grandes as responsabilidades que o partido vai enfrentar daqui para frente, passando pela interpretação de saber interpretar as aspirações do povo angolano para a projecção e execução de políticas públicas que estejam de acordo com o programa de governo sufragado nas urnas nas eleições de Agosto de 2017.

Unidade e Coesão no seio do partido

Para tal, recomendou, é preciso saber manter a unidade e coesão no seio do partido. Disse que o desafio para melhorar o pais tem de ser colectivo e participativo com uma conjugação de esforços comuns e como meta o bem-estar das populações e das famílias. “O MPLA deve preocupar-se menos com a organização da sua vida interna e dirigir a sua acção principal para fora de si próprio, trabalhando mais com os cidadãos em geral com os homens da arte e da cultura, com os líderes das mais representativas e influentes confissões religiosas, com os líderes comunitários com os jovens angolanos com as mulheres angolanas que não são da sua organização juvenil ou feminina”, recomendou.

Defendeu a necessidade de a direcção do partido, o comité central e o seu Bureau Politico passarem a analisar e debater com profundidade temas candentes da sociedade como o estado da economia, o papel do empresariado nacional a situação do desemprego, a proliferação das seitas religiosas a criminalidade a imigração ilegal e suas consequências entre outros assuntos.

Disse ainda ser prioritário que os militantes que ocupam cargos de responsabilidade no aparelho do Estado coloquem sempre o interesse nacional acima dos interesses individuais ou de grupos de interesse e de pressão. O novo presidente do MPLA substitui José Eduardo dos Santos, que liderou a organização partidária desde 21 de Setembro de 1979, na sequência da morte de António Agostinho Neto, falecido a 10 do mesmo mês e ano, em Moscovo, ex-União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS), por doença.

OMA e JMPLA manifestam apoio incondicional ao novo líder do MPLA

Por via dos seus secretários gerais, Luzia Inglês e Sérgio Luther Rescova, a OMA e a JMPLA, as organizações feminina e juvenil do MPLA, manifestaram, em mensagens separadas, apoio incondicional ao novo presidente do partido, João Lourenço. O novo líder substitui José Eduardo dos Santos, que liderava a organização partidária desde 21 de Setembro de 1979, na sequência da morte de António Agostinho Neto, falecido a 10 do mesmo mês e ano, em Moscovo, ex-União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS), por doença. O secretário-geral da JMPLA, Sérgio Luther Rescova, pede ao novo líder do MPLA a contínua atenção a juventude, garantindo mais emprego e mais prosperidade. Quer diálogo inclusivo e pede programa mais direccionado para juventude, nos domínios como os empreendedorismo juvenil, aumento da escolaridade, da educação patriótica. A OMA, segundo a sua secretária-geral, Luzia Inglês Van-Dúnem, com João Lourenço se inicia uma nova fase rumo a progresso e
a prosperidade. Manifesta disponibilidade de cooperar para concretizar os desafios do MPLA e do país e por um futuro melhor para todos. Pede a construção de uma sociedade cada vez mais inclusiva, próspera e desenvolvida. Reafirma a confiança no partido e em João Lourenço para melhorar o que esta bem e corrigir o que está mal, convencida da força do presente e do passado para construir um futuro melhor. Luzia Inglês lembra Agostinho Neto como um acérrimo defensor
da causa da mulher e enaltece José Eduardo dos Santos pelas grandes conquistas alcançadas como a paz, reconciliação, reconstrução nacional e por implementar reformas políticas, económicas e sociais no país.
Reacções O analista político Esteves Hilário considerou o discurso de João Lourenço muito importante que contém as linhas essenciais para o que deverá ser o trabalho do MPLA enquanto partido que suporta o governo mas também daquilo que se
rão as linhas fundamentais do Executivo. “João Lourenço voltou a estabelecer como baliza o combate à corrupção, o nepotismo e aqui internamente no partido colocou a bajulação como um dos males que enferma. Portanto eu acho que foi um discurso ao nível não só de um grande estadista mas sobretudo a nível de um grande líder político partidário”, frisou. Esteves Hilario diz não ter dúvidas de que foi um aviso a navegação de que as regras vão mudar. “Ele anunciou as novas regras de actuação para o futuro do MPLA”.

Por seu turno, o antigo secretário geral do MPLA Marcolino Moco acha que foi um discurso formidável. “Para quem ainda tinha dúvidas as duvidas cessaram. João Lourenço tem uma característica, o seu discurso é pouco formal e quando ele fala nós pressentimos que o que ele fala vai ser feito.

É um discurso que introduz um pensamento inteiramente novo”, sublinhou. Elogiou o facto de, finalmente, fazer-se menção aos nomes de Ilídio Machado, Mario Pinto de Andrade, primeiros presidentes do partido, que para si representa um prenúncio da verdadeira reconciliação nacional.

Para si, a verdadeira reconciliação nacional não é aquela que se limita a tecer louvores ao que foi feito pelo MPLA mas aquela que reconhece que sendo Angola um pais multi-étnico multi-regional, que foi plataforma do nascimento de grandes movimentos de libertação, cada um deles coincidentes com as três grandes etnias do pais.

“Nós tivemos a libertação de Angola conseguida por vários agentes e esses agentes foram sempre desprezados pelo MPLA e pelo estado angolano e hoje já vimos, claramente, que esse período acabou”, disse ainda. “Quem contaria que hoje se falasse de Daniel Chipenda, Mario Pinto de Andrade, Viriato da Cruz afinal o verdadeiro fundador do MPLA”, acrescentou. Para Vicente Pinto de Andrade, foi um discurso histórico porque ultrapassou mesmo as expectativas que muitas pessoas tinham em relação àquilo que o Presidente João Lourenço tem feito. Para ele, o Presidente João Lourenço assumiu-se como um reformador.

“Não só um reformista, mas um reformador”. “Neste momento, quererá reformar a nossa sociedade transformar a nossa sociedade no sentido de haver mais abertura melhor gestão, melhor governação, mais participação e também melhor democraticidade e eu penso que este discurso é muito corajoso neste sentido”, frisou. Por outro lado, considera que aponta para a recondução do MPLA para os seus valores iniciais.

“O MPLA no seu início apareceu como um movimento aberto plural, de grande diversidade de grande debate interno e é essa lógica que o Presidente João Lourenço está a trazer e trouxe no discurso”, disse ainda “Nós só beneficiamos quando promovemos a democraticidade e a democracia no seio das organizações e essa abertura, essa partilha de ideias, de convivência até com ideias diferentes das nossas vai fazer com que o partido beneficie, o pais beneficie e os cidadãos também possam beneficiar porque uma sociedade aberta plural e democrática é sempre mais vantajosa que uma sociedade fechada e esse é um discurso que dá o ponto de saída a nova visão sobre aquilo que deve ser o nosso pais e também o que deve ser o próprio MPLA não só internamente mas também em relação aos outros partidos”, concluiu.

Resolução geral

João Lourenço teve 98,59 porcento de votos, num pleito que registou 100 votos nulos, 27 contra e seis abstenções. Participaram 2.442 delegados ao congresso, em que José Eduardo dos Santos passou o testemunho da presidência do MPLA a João Lourenço. O VI Congresso Extraordinário do MPLA reconheceu os dois primeiros presidentes da formação partidária, Ilídio Machado e Mário Pinto de Andrade. Segundo ainda a resolução geral, o conclave decidiu que o MPLA deverá homenagear, em tempo oportuno, as duas individualidades políticas.

O MPLA passa a contar, assim, oficialmente, na sua história, com cinco presidentes, nomeadamente Ilídio Machado, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, José Eduardo dos Santos e, doravante, João Lourenço. Ilídio Tomé Alves Machado foi o primeiro presidente do MPLA, até ser preso, em 1959, por actividades subversivas contra o regime português da altura,[tendo indicado Agostinho Neto como seu substituto.

Quanto a Mário Pinto de Andrade, tornou-se activista político, na década de 60, e exerceu o cargo de presidente do MPLA, entre 1959 e 1962 e o de seu secretário-geral, entre 1962 e 1972.

Homenagem a José Eduardo dos Santos

Na sessão de encerramento, os delegados ao conclave outorgaram também os títulos de Presidente Emérito do MPLA, Membro Honorífico do Comité Central e de Militante Distinto a José Eduardo dos Santos. O presidente do MPLA eleito, João Lourenço, entregou as medalhas e diplomas correspondentes aos títulos atribuídos a José Eduardo dos Santos, assim como o cordão de presidente emérito.

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