Queima de carros em Ndalatando: o mistério e a angústia

Sherlock holmes, com o seu fiel escudeiro, o dr. Watson, personagens criadas pelo escritor arthur doyle, parece que é tudo quanto falta para resolver “o mistério dos carros queimados em Ndalatando”. O incendiário de Ndalatando continua a sua saga perante a falta de resposta das autoridades competentes e a perplexidade dos pacatos cidadãos

Texto de: André Mussamo

Perdeu-se a conta de quantos carros terão sido já incendiados na cidade de Ndalatando. Uns falam em mais de quarenta e outros em mais de 50. O que se sabe ao certo é o número de postos de transformação, 2, de escolas 2, e de residências igualmente 2. A cada dia a questão que paira no pensamento colectivo dos moradores de Ndalatando é quem sobre será a próxima vitima. Perante a falta de respostas oficiais das autoridades a tão estranho fenómeno, parece que a especulação e o boato vão ganhando corpo e aos poucos constrói-se um mito, o do “incendiário de Ndalatando”.

Até agora, o ultimo “sinal de vida” do homem ou homens que aterrorizam Ndalatando foi dado cerca das 22 horas do ultimo Domingo, no pacato bairro dos Dinizes. Famoso por ostentar a maior catedral do futebol local e que até há pouco tempo Angola e o mundo viam pelos écrans de televisão pelo facto de ter servido o Porcela Futebol Club.

O bairro voltou a estar na ribalta, desta feita por ter sido o palco da última fugaz “aparição” do misterioso fenómeno de queima de viaturas. Estranhamente, o ateador de fogo actuou pela primeira vez em aparente período “inofensivo”. Calculam testemunhas que a queima dos últimos dois automóveis não terá ocorrido para lá das 22h30 minutos. Até antes de Domingo o incendiário ou os incendiários atuavam de madrugada.

Contam as nossas fontes que bem ao lado de uma oficina auto, quando os proprietários, por um lapso de tempo terminaram a jornada do dia e foram em busca de retempero de energias, no regresso depararam-se com dois veículos a serem engolidos pelas labaredas.

Surpresos, empreenderam, com ajuda de outros solidários, a apagar o fogo, mas logo, logo surgiu a interrogação “como e quando foi possível materializar-se tal acção criminosa?”. Revelam que desde a saída da oficina à ocorrência não passaram mais que 120 minutos.

Estimando que terão largado o trabalho nas primeiras horas da noite, supõe-se que os criminosos actuaram em aparente “horário inofensivo”, já que todos os receios se acentuam mais de madrugada, tendo em consideração o modus operandi do criminoso ou criminosos.

polícia quase “atira a toalha ao tapete” Fonte junto da corporação chama a ocorrência de “fenómeno estranho”. Segundo a mesma, todos os esforços estão em curso em busca de um esclarecimento sobre tais ocorrências, mas, misteriosamente, em vão. Todas as forças do Ministério do Interior cumprem uma “prevenção a 100%” nos últimos três meses.

Esperando colaboração dos cidadãos e com vista a garantir o anonimato de possíveis denunciantes, a corporação adoptou a solução de oferecer urnas e linhas telefónicas para recolha de denúncias. Os artefactos foram colocados em locais estratégicos, nomeadamente praças públicas, escolas, igrejas, centros hospitalares, dentre outros.

A corporação serviu-se dos media locais para lançar veementes apelos no sentido de que “qualquer informação que possa conduzir ao esclarecimento deste mistério ser levada a conhecimento das autoridades através de contactos telefónicos ou depósito de “denúncias escritas nas urnas”, mas em vão. Recentemente, uma luz no fundo do túnel.

Tinham sido detidos suspeitos pelo crime, mas não só a acção maléfica prosseguiu, como pareceu ridicularizar as autoridades pela intensidade com que voltou. Ao que se sabe, estão suspensos os privilégios de “gozo de férias e dispensas”. Todos os membros dos órgãos castrenses locais, independentemente das suas funções, ao cair da noite tomam parte de um alargado esquema de patrulhamento da cidade, Tudo isso à procura de quem é o autor ou autores do caso que mudou o dia-a-dia dos ndalatandenses, mas debalde.

Um enigma por desvendar

Na falta de respostas, todos os cenários possíveis e imaginários estão em cima da mesa. A corporação admite estar a enfrentar um plano criminoso bem urdido e a ser executado por uma pessoa ou pessoas muito bem informadas e que, se calhar, servemse de informações privilegiadas para realizar as suas acções.

Não está fora de hipótese apelar a outros campos do saber para que possa ser traçado o perfil do criminoso ou criminosos. O facto de o fenómeno estar circunscrita apenas a uma cidade do país, e o facto de no Cuanza-Norte estar a ocorrer exclusivamente na capital da província são “detalhes a levar em consideração”.

Quando o fenómeno começou chegou a aventar-se a hipótese de “curto-circuitos” nos veículos. Mas rapidamente descartou-se esta pista, dada a repetição. Depois verificou-se que o incendiário decidira atacar membros das forças da ordem, mas rapidamente baralhou as cartas e pistas passiveis de traçar o seu perfil, ao ter empreendido no sentido de atacar viaturas de propriedade privada e diversificada. Ao que tudo indica, os ataques acontecem mediante oportunidade e não propriamente obedecendo a uma escolha a dedo das vítimas.

Os últimos carros incendiados são nomeadamente da Escola Superior Pedagógica de Ndalatando (portanto património do Estado) e de um cidadão singular. Na sua já vasta lista de destruições constam ainda escolas e postos de transformação de electricidade. Por estes e mais dados, não parece possível traçar um perfil do criminoso ou criminosos pela via do seu comportamento, mas um especialista em psicologia criminal aconselha a corporação a considerar “este caminho como hipótese”.

A teoria de conspiração

A meio deste imbróglio, todas as teses estão sobre a mesa. Entretanto, aquela que parece propagar-se rapidamente é a da “rejeição” do governador José Maria Ferraz dos Santos, indicado para o cargo ainda pelo antigo Presidente da Republica, em substituição de Henriques Júnior.

Diz-se a boca pequena que o incendiário terá declarado “guerra” ao governador por discordar dos seus métodos de governação, todavia, outras correntes interrogam-se do porquê que tal “combate” implicaria o sacrifício do património de inocentes.

Os conhecedores da realidade local, mesmo incrédulos não discartam tal hipótese, atendendo que no passado a província já registou ocorrências caricatas motivadas pelas mesmas razões, a de rejeitar um governador. Manuel Pedro Pacavira, mesmo sendo natural do Gulungo Alto, a dada altura do seu longevo mandato na província enfrentou uma forte oposição.

Seu substituto, Henriques Júnior, terá enfrentado igualmente laivos de resistência com ocorrências surreais durante a sua passagem pela província. Por essa altura, um fenómeno designado por “mukuakuisa” mereceu honras de discurso do líder do MPLA em congresso, quando Jose Eduardo dos Santos criticou uma corrente de quadros políticos de parcelas do território nacional, por não representar nem a forma de ser do angolano e nem os propósitos de Nação una.

José Maria Ferraz, desde a sua chegada que começou um processo de reforma e moldagem da equipa a seu feitio e desde logo começou uma “onda” generalizadas de críticas ao governador acusado de “importar” quadros de Luanda em detrimento de talentos locais.

Seja quais forem as motivações por detrás do presente “serial crime” que abala Ndalatando, é voz corrente que não há facto nenhum que justifique o que está a acontecer. Segundo as mesmas fontes, a solução está no redobrar de acções por parte das autoridades para que seja “desmascarado” o autor ou autores de tão hediondo crime.