acordo histórico: Vaticano vai reconhecer bispos nomeados por Pequim

Decisão abre porta para restabelecimento das relações diplomáticas entre a república Popular da China e o vaticano após 70 anos de afastamento. Cardeal de Hong Kong acusa vaticano de vender católicos chineses a Pequim

Diário de notícias

O Vaticano anunciou este Sábado a assinatura com a China de um acordo de princípio histórico para o reconhecimento dos bispos nomeados por Pequim. O documento, assinado em Pequim, vem pôr fim a anos de rumores sobre uma aproximação entre Pequim e a Santa Sé, sem relações diplomáticas há sete década.

Num comunicado oficial, o Vaticano deu mais pormenores, avançando que o papa Francisco reconheceu oito bispos, sete deles ainda vivos, nomeados pela China e que até agora não eram admitidos “de forma oficial” pela Igreja Católica. Segundo a nota, os bispos reconhecidos pelo Vaticano são Giuseppe Guo Jincai, Giuseppe Huang Bingzhang, Paolo Lei Shiyin, Giuseppe Liu Xinhong, Giuseppe Ma Yinglin, Giuseppe Yue Fusheng, Vincenzo Zhan Silu. A estes soma-se Antonio Tu Shihua, que morreu a 04 de Janeiro de 2017, mas expressou antes de morrer o desejo de reconciliação, segundo o Vaticano.

“O papa Francisco deseja que, com as decisões tomadas, seja possível iniciar um novo caminho que permita superar as feridas do passado, realizando a plena comunhão de todos os católicos chineses”, acrescentou a nota.

Relações cortadas desde 1951

O anúncio do acordo coincidiu com o primeiro dia de uma visita do Papa Francisco aos Bálticos e é o primeiro passo para resolver um contencioso que começou em 1951, quando Mao Tsé-tung decidiu expulsar da República Popular da China o núncio católico. Segundo o Vaticano, este é um acordo “pastoral e não político”. Segundo a Reuters, o documento não faz qualquer menção a Taiwan – a República da China, refúgio dos nacionalistas de Shiang Kai-shek após a derrota frente aos comunistas de Mao em 1949 e que Pequim vê como uma província rebelde.

O documento deverá pôr fim à existência de duas igrejas paralelas na República Popular da China.

Duas igrejas paralelas

Durante décadas, Pequim foi nomeando os seus próprios bispos, mas muitos chineses mantiveram-se clandestinamente fiéis à Santa Sé. A igreja oficial era controlada pela Associação Católica Patriótica , enquanto a igreja clandestina obedecia ao Vaticano.

Pequim considera uma ingerência que as nomeações dos bispos sejam feitas por Roma e não reconhecia até agora a autoridade do Papa como chefe da Igreja Católica. Já o Vaticano rejeitava a imposição de bispos pelo regime chinês – algo que não acontece em mais nenhum país do mundo.

Apesar de ainda não se conhecerem os pormenores do acordo ou como vai evoluir, o Vaticano deverá passar a ter a última palavras sobre a escolha dos bispos.

A china vale bem uns bispos

O acordo foi assinado na capital chinesa pelo subsecretário para as Relações Internacionais do Vaticano, Antoine Camilleri, e pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Chao. No Vaticano, o porta-voz Greg Burke preferiu mostrar-se prudente, lembrando que “este não é o fim do processo. É o começo”.

Duras críticas à aproximação

Nos últimos meses sugiram cada vez mais notícias sobre a aproximação entre a Santa Sé e Pequim, gerando duras críticas em alguns sectores da Igreja. Uma das vozes que mais se fizeram ouvir contra esta aproximação foi a do antigo arcebispo de Hong Kong Joseph Zen. Alguns destes religiosos viveram durante anos na clandestinidade, enfrentando as perseguições do regime.

Alguns deles poderão agora ter de ceder os seus postos aos bispos eleitos por Pequim. Em troca, avança o El País, a China deverá reconhecer o Papa como chefe absoluto da Igreja Católica – abrindo caminho para uma só igreja no país.

Um sinal de que a aproximação entre Pequim e o Vaticano estava mesmo a acontecer surgiu em 2014, quando o avião do Papa Francisco foi autorizado a sobrevoar a China quando este seguia para uma visita à Coreia do Sul.

O chefe da Igreja Católica enviou na altura um telegrama a saudar os líderes chineses. Segunda economia mundial, a China conta com 12 milhões de católicos oficiais e cerca de 40 milhões de cristãos, numa população de 1400 milhões. Neste momento haverá três dezenas de bispos clandestinos, eleitos pelo Vaticano e não reconhecidos por Pequim.

Alguns estão detidos – é o caso de Vincent Guo Xijin, bispo de Mindong. A aproximação à China é essencial para a Igreja Católica, abrindo uma porta num continente onde o número de fiéis pode crescer exponencialmente, num momento em que perde força na Europa e no continente americano.