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A vida dura da jovem mãe de dez filhos que depende do lixo para comer

Dos dez filhos, ninguém estuda, nenhum é registado e todos carecem de vestuário e de calçado, motivo que faz com que algumas das crianças passem a maior parte do tempo nuas e descalças, correndo assim o risco de contraírem doenças e lesões graves

Texto de: Domingos Bento

Quando a encontramos, por volta das dez horas da manhã, Maria Fernanda estava a limpar o filho mais novo, de apenas oito meses de vida, que, horas antes, havia feito as suas necessidades na única fralda, que, no dia anterior tinha sido oferecida por uma vizinha.

“Pus-lhe esta fralda ontem às 19horas. Passou toda a noite com ela e agora já está toda mijada e vou tirar-lhe, mas depois vai passar todo o dia assim, nua, porque não tenho nem um kwanza. As fraldas de pano estão todas sujas. Não há sabão para lavar”, atestou a dona de casa no primeiro contacto com o OPAIS. Enquanto tirava a fralda, Maria, de 36 anos de idade, acalentava o filho que chorava intensamente.

É que, para além do incómodo do xixi, o bebé, de sexo masculino, chorava igualmente de fome e mostrava-se inconsolável.

Sugerida, pela nossa equipa de reportagem, a amamentar a criança, a mulher disse, com um semblante triste, que os seios estavam secos, sem leite, porque na noite anterior não havia jantado. Porém, ainda assim, Maria insiste em amamentar o bebé, mas instantes depois desiste porque os peitos, conforme mostrou, estavam totalmente secos.

“Uma pessoa pode espremer, mas não vai sair nada. Acontece-me isso todas as vezes que durmo sem jantar. E assim ele (o bebé) fica muito nervoso. Não vai parar de chorar. O bocado de fuba que tínhamos lá dentro fiz papa ontem e dei-lhe para almoçar, explicou.

Enquanto conversávamos com Maria, de baixa estatura, estreita, os outros filhos menores puxavam- lhe pelas vestes para irem à procura de comida nos contetores, lixeiras e nos mercados espalhados pelo bairro Zango-4, zona onde a família reside. Essa tem sido a rotina diária da família.

No bairro, a maior parte das pessoas conhecem as dificuldades que Maria enfrenta. E, quando há possessibilidade, algumas ajudam com o que podem. Mas a base alimentar da família vem mesmo do contentor onde a mulher e parte dos filhos recorrem todos os dias para colherem restos de alimentos que depois são levados para casa e servem para o sustento.

“Foram as crianças que começaram com a vida de recorrerem ao lixo. É a fome que é demais. E eu, como mãe, vendo isso, não tinha como impedir que fossem ao lixo. Então passei a entender e a seguir-los. É uma vergonha, até na rua as pessoas falam, mas como vou fazer se não tenho nada para sustentar os meus filhos?”, .

Segundo Maria, que é natural da província do Cuanza-Norte, recorrer ao lixo foi a única forma que encontrou depois de ver as dificuldades a crescer todos os dias, sobretudo com o aumento do número de filhos que são de pais diferentes.

O pai dos primeiros dois filhos já é falecido e o homem com quem fez os restantes filhos não lhe presta atenção e vive, actualmente, com uma outra mulher, tendo-a deixado numa maré de dificuldades. “Com a outra mulher ele também tem seis filhos.

É segurança de uma empresa. Sempre que vem nos ver só me bate, nunca aceitou que eu fizesse planeamento. Houve uma vez que tentei pôr chip, mas ele me bateu muito. Disse que mulher que faz planeamento é bandida. É por isso que «nasci» todos esses filhos”, desabafou a jovem mãe que, de seguida, convidou a nossa equipa de reportagem a entrar para o interior da residência, que faz parte de um projecto de realojamento dos antigos moradores do Sambizanga.

Logo ao entrar na pequena casa, feita de metal, simples, de dois quartos e um corredor que é improvisado para sala e cozinha, nota- se as dificuldades que a família passa. No canto do corredor, o pequeno fogão a gás faz tempo que não funciona.

As panelas, pratos e talhares empoeirados, abandalhados e atirados de um lado para o outro demonstram bem o quanto estes utensílios não são usados há muito tempo. Envergonhada com a sua difícil condição de vida, Maria convida-nos a sentar em dois bidões de 20 litros de água porque em casa não há cadeiras, mesa, nem televisão.

No quarto onde a mulher dorme com os filhos mais novos dispõe apenas de uma cama e um colchão em avançado estado de degradação que exala um cheiro nauseabundo e que enche a casa toda.

Já os outros filhos, mais crescidos, dormem no outro quarto ao lado, numa esteira totalmente desfiada e sem lençol. No entanto, todos os filhos e a própria progenitora enfrentam ainda a falta de vestuários e de calçados. Por este motivo, algumas das crianças passam a maior parte do tempo nuas e descalças, correndo assim o risco de contraírem doenças e outras lesões, sobretudo neste tempo de cacimbo em que exige-se maior cobertura e agasalhamento das crianças devido às epidemias oportunistas como a pneumonia. Dos dez filhos, ninguém estuda e nenhum é registado.

Os mais novos ajudam a mãe na colheita diária de comida nos contentores. Já outros, como o pequeno Bebuxo, de 13 anos de idade, desdobram- se na lavagem de carros e em outras pequenas actividades que, naqueles dias em que da procura não sai nada, ajudam em casa. “Mas também, por serem ainda pequenos, sempre que vão lavar carros ou fazer alguns biscates são agredidos por outras pessoas mais velhas.

Já muitas vezes o Bebuxo apareceu aqui com feridas e inflamações por ter sido agredido pelos moços que lavam carro. Por isso é que ele desistiu”, atestou. Muito triste Ao ver a mãe a desabafar, Bebuxo, dos filhos o mais sacrificado, não resiste às lágrimas e no canto da casa lamenta a vida dura que a família leva. Segundo o menor, que sonha ser polícia no futuro, a família enfrenta serias dificuldades e não acha justo a indiferença do pai que faz muito tempo que não põe os pés em casa.

“Há dias em que, se na procura não aparecer nada, ficamos dois ou mais dias sem comer nada. Os meus irmãos, às vezes, roubam na casa das vizinhas só para matar a fome. Eu também vou à praça pedir comida, mas as pessoas me enxotam porque pensam que sou gatuno ou miúdo da rua. Mas é mesmo só fome, passamos muito mal aqui em casa”, lamentou.

Abandonada

De acordo com Maria, grande parte da sua família encontrase na província do Cuanza-Norte. O restante que vive em Luanda não quer saber da sua condição de vida porque a culpam por ter tido muitos filhos. Tal como contou, antes de ir viver no Zango-4, vivia no Sambinzanga, Boa Vista, onde também fazia pequenos biscates de lavagem de roupas e venda de peixe que recebia dos antigos pescadores da Chicala.

No entanto, desde que se mudou para Viana, depois de ver a casa onde vivia com a família demolida, no âmbito do projecto de requalificação do distrito urbano do Sambizanga, viu toda a sua rede de contactos e de sobrevivência cortada por causa da distância.

“Aqui vivemos abandonados. Não há nada que a pessoa possa fazer para poder render alguma coisa. É por isso que vivemos nessas condições. Já tentei fazer negócio à porta de casa, mas o dinheiro foi abaixo, não tive lucros. O que me preocupa mais são as crianças que se alimentam de comidas estragadas. E só acontece isso porque não tenho como fazer”, frisou.

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