Afrikanita: “O festival vai deixar uma mensagem de unidade, paz e amor”

Afrikkanitha é um dos rostos que se junta à IV edição do “Festival Caixa Fado”, a decorrer a 4 de Outubro na capital do país. A cantora, em entrevista a OPAÍS, fala sobre o seu trabalho e do seu gosto pelo género musical “Fado”

Texto de: Jorge Fernandes

A Afrikkanitha tem andado muito tempo fora de Angola. O que é que a leva a estar tanto tempo fora do seu país?

O que me leva a estar muito tempo fora de Angola [nos Estados Unidos da América, sobretudo] é a minha formação superior em “Estudos De Jazz”.

Os apreciadores do seu trabalho continuarão a apreciar as músicas até agora feitas ou a Afrikkanitha estará já a pensar em algum projecto novo para lhes oferecer?

Tenho um disco pronto, “Piano & Voz”, que pode sair a qualquer momento e outros projectos musicais diferentes que tenho estado a trabalhar sem qualquer pressa.

A música angolana é cada vez mais apreciada fora das nossas fronteiras. A Afrikkanitha, o C4 Pedro e a Anabela Aya, por exemplo, são artistas que optam por estilos talvez não tão comuns face ao padrão da música que se vai fazendo actualmente no nosso mercado, é a pensar num público mais para fora das nossas fronteiras que a Afrikkanitha faz a sua música?

Exactamente. Nunca gostei de me limitar, nunca vi obstáculos impossíveis de ultrapassar e sem

pre acreditei que quanto mais internacional fosse, maior proveito tiraria do meu talento. Sempre sonhei em expandir o meu trabalho para o mundo, daí cantar um estilo internacional. Tem-me faltado tempo para me dedicar mais porque mal comecei a minha carreira tornei-me mãe e não tem sido muito fácil conciliar as duas coisas, a família está em primeiro lugar, mas nunca desisti, continuo a trabalhar e a acreditar.

Qual é a apreciação que tem sobre a música feita em língua portuguesa?

Há de tudo. Boa e de má qualidade. Mas sente-se uma vontade enorme de expansão e unificação da música cantada em português, o que é muito bom.

É uma apreciadora do Fado ou ouve apenas por “acidente”?

Ouço fado desde pequenina. O primeiro fado que cantei aprendio com uma vizinha, uma senhora amiga da minha mãe, a Maria Augusta, tinha eu 10 anos, quando ela me ensinou a cantar a “Mariquinha” de Amália Rodrigues.

Tenho discos de fado e de música portuguesa porque pesquiso muito. Gosto de tudo que envolve alguma complexidade musical, não gosto de música fácil e o fado é muito tecnicista, não é para todos, é difícil de interpretar, daí o meu fascínio.

O que é que pensa sobre o desafio de gravar uma obra discográfica em que predomine o fado como estilo musical?

Confesso que apesar de não ser o meu estilo, estou aberta a tudo desde que tenha tempo para preparar como deve ser. Eu ainda não canto o fado como o faço com o jazz, que é deveras a minha especialidade.

Considera a música um factor de unidade quer para Angola como para Portugal?

Houve um momento em que pensei que as relações com Portugal fossem cessar e que tal fosse afectar muita coisa, mas graças a Deus as coisas parecem melhorar e a tomar um rumo diferente. O Caixa Fado vem reforçar os nossos laços, unir dois povos cuja história é indissolúvel, por causa do passado forte que nos liga.

Por que não dar mais oportunidades a cultura também?

Os nossos pais cantavam fado porque era música do tempo deles, nós nem tanto, porque não tivemos o mesmo contacto, o mesmo convívio, somos a geração pós- Independência, com outras influências musicais. Viramo-nos para a música americana, brasileira e etc, e acho justo que Portugal volte à casa e reconquiste o seu espaço.

É um dos rostos de cartaz da quarta edição do Festival Caixa Fado. O que é que este convite representa para a sua carreira?

Conheci o Luís Montez em 2011, por intermédio do Dr. Eugénio Neto da LS, participei num outro festival que ele tem, o Festival de Jazz de Cascais e marcou-me imenso a sua simplicidade. Depois do concerto foi ter comigo aos camarins para me felicitar e tivemos uma conversa breve.

Posteriormente ouvi comentários positivos da parte dele em relação ao meu trabalho. É um caça talentos, atento e sensível, só nunca pensei que me fosse pôr a cantar fado (risos).

No fundo, está a dar oportunidade aos dois países de conhecerem a música e os músicos

 

um do outro. Ganhamos nós os artistas, porque expandimos o nosso trabalho, e é, sem sombra de dúvidas, um momento marcante para a minha carreira.

O que é que acha dos artistas convidados para o festival?

Espectaculares. Músicos talentosos e grandes profissionais, será uma honra partilhar o mesmo palco com estes gigantes dos dois países.

Que legado é que o festival poderá deixar aos povos de Angola e Portugal?

A música une os povos. O festival vai marcar estes dois povos novamente, vai deixar ficar uma mensagem de unidade, paz e amor.