Detenção de ex-dirigentes “agita” bairro Nelito Soares

Moradores e cidadãos provenientes de outras partes de Luanda vêm aglomerando-se, nos últimos dias, no espaço adjacente ao Hospital Cadeia de São Paulo para observar o cenário e o ‘entra e sai’ dos familiares dos ex-dirigentes detidos, o que tem forçado o redobrar da vigilância dos agentes penitenciários.

Apesar de as visitas aos detentos terem início às 10h, ainda assim, a partir das primeiras horas do dia, a rua onde está instalada a Cadeia Hospital São Paulo vem conhecendo, desde Sexta- feira, uma rotina diferente dos dias anteriores, com dezenas de cidadãos a afluírem o local com vista a se manterem ao corrente da situação carcerária de ex-governantes. São moradores, cidadãos provenientes de outras partes de Luanda e outros curiosos que, embora nada tenham a ver com o processo, aglomeram- se, por largas horas, no espaço adjacente ao estabelecimento prisional para observar o cenário e o entra e sai dos familiares que visitam os seus detidos, o que tem forçado o redobrar dos trabalhos de segurança e vigilância dos agentes penitenciários.

Para muitos, a situação é inédita no país e representa uma nova página no funcionamento da Justiça e, por isso, dizem acompanhar ao pormenor o desenrolar de todo o processo, deslocando-se até à referida unidade penitenciária, no bairro Nelito Soares, distrito urbano do Rangel. Ganga Victor, pastor da Igreja Evangélica, residente no município de Viana, chegou cedo à Cadeia de São Paulo para orar a favor do antigo presidente do Fundo Soberano de Angola, José Filomeno dos Santos, detido desde Segunda-feira com o seu sócio Jean-Claude Bastos, ambos acusados de crimes de associação criminosa, peculato, burla por defraudação, corrupção, entre outros crimes.

O jovem, que diz ser mensageiro da boa nova, não conseguiu visitar, ontem, José Filomeno dos Santos por este ter estado bastante ocupado com os familiares e advogados que passaram com ele todo o período da manhã. Uma equipa de OPAÍS, destacada no local desde as primeiras horas registou o movimento de familiares de José Filomeno dos Santos, com destaque para a mãe e uma tia. Esta última, que não se identificou, disse ao nosso jornal estar a depositar toda a confiança e esperança em Deus. “Vamos orar, vamos orar. É só orar”, frisou a senhora, que, apesar da situação, mostrou-se bastante simpática, enquanto a mãe do detido saiu do local sem tecer qualquer declaração à imprensa. Quem também teve o dia repleto de visitas foi o ex-ministro dos Transportes, Augusto Tomás, que recebeu cerca de dez membros da sua família, entre irmãos, sogro, sobrinhos e esposa que mostraram estar ao lado do antigo governante, detido sob acusação de crimes de peculato e corrupção na gestão do Conselho Nacional de Carregadores (CNC).

Acompanhados de alimentação e vestuário para o ex-dirigente, detido desde a passada Sexta-feira, os familiares chegaram ao local por volta das 9h58min, tendo abandonado a unidade penitenciária depois das 12h. Inocêncio Júnior, irmão de Augusto Tomás, disse, em conversa com o OPAÍS, que o ex-ministro encontra-se em perfeitas condições e está a receber tratamento condigno, pelo que não há motivos para a família se preocupar. “Estivemos com ele. Não se queixa de nada. Ele até está mais preocupado connosco que estamos fora. Não há razões de queixas”, atestou, tendo afirmado, de seguida, que a família está a deixar tudo nas mãos da Justiça.

Justiça para todos

Diferente dos outros tempos, os populares que acompanham a situação foram unânimes em reconhecer que os três poderes em Angola estão a mostrar trabalho. Para Rosário Diogo, um dos muitos moradores que esteve desde as primeiras horas no Hospital Cadeia de São Paulo, o país está a viver uma nova era e é preciso que todos acompanhem e adoptem novos comportamentos. “A justiça está a dar os seus passos significativos. Ainda temos muito por fazer, mas já demos um grande passo. Para além dos que estão no topo, também é importante haver mudanças nos cidadãos de base. Ainda há muita corrupção nas instituições”, apontou o jovem, tendo afirmado ainda que “se queremos combater a corrupção, devemos começar pela raiz. Não é a prender os filhos dos dirigentes que a corrupção vai terminar”. Ainda ontem, o ex-director da Unidade Técnica para o Investimento Privado (UTIP), Norberto Garcia, foi ouvido na Direcção Nacional de Investigação e Acção Penal (DNIAP) . O dirigente, segundo as nossas fontes, terá pedido uma transferência (da sua casa nos Combatentes, para a do Benfica), mas aguarda resposta da PGR.