Fitch antecipa ‘recuperação notável’ da economia angolana

África Monitor, o relatório da unidade de análise da Fitch, uma das três agências que têm classificado o risco de Angola, acentua o aumento da produção petrolífera, a subida do preço da matéria-prima e os efeitos das orientações seguidas pelo Governo para melhorar o ambiente de negócios

POR: Luís Faria

A economia angolana conhecerá uma recuperação ‘notável’ a curto prazo, após dois anos de recessão, 2016 e 2017, refere o África Monitor, o relatório de análise de risco dos países da parte austral do continente africano do departamento de análise da Fitch. Este ano o impulso às exportações será dado pelo arranque do projecto Kaombo e, mesmo que o crescimento das exportações abrande em 2019, a elevação do preço do barril de petróleo e as reformas em curso empreendidas pelo Governo do Presidente João Lourenço estimularão a despesa pública e captarão investimento, adianta o documento divulgado esta Quarta-feira e a que OPAÍS teve acesso. Além disso, e apesar dos ventos desfavoráveis que continuam a soprar com intensidade, o Africa Monitor espera que a melhoria gradual do consumo privado ajude a manter o crescimento da economia em território positivo, antecipando um crescimento real do PIB de 1,5% em 2018 e 2,3% em 2019.

Os 230 mil barris colocados no mercado pela Total, a petrolífera que lidera o projecto Kaombo, contribuirão decisivamente para o aumento da produção petrolífera em 8,2% em 2018, um incremento que se segue a dois anos de declínio na produção de petróleo. Além disso, a subida do preço da matéria-prima, cujas exportações, em termos líquidos, os analistas da Fitch estimam tenha correspondido a 58,2% do produto interno entre 2004 e 2013, ‘incentivará uma renovada produção nos campos petrolíferos existentes. O que alimentará o excedente da balança comercial e o crescimento do PIB real em 2018, embora vá ficar abaixo da média de 7,8% observada entre 2005 e 2014. Apesar do abrandamento esperado na produção petrolífera e nas exportações, a subida do preço do petróleo sustentará as receitas fiscais, permitindo às autoridades financiar os grandes projectos, entre os quais se incluem o novo aeroporto internacional de Luanda, cuja conclusão se prevê para 2020, as novas centrais hidroeléctricas de Caculo Cabaça e Laúca e a doca comercial de Porto Amboim. O documento estima que o preço do barril de Brent se situe, em média, em USD 75 este ano e USD 82 no próximo.

Mais sector privado

Os analistas do Africa Monitor mostram-se igualmente optimistas quanto à evolução do sector privado nos próximos anos, em resultado da orientação assumida pelo Governo no sentido de tornar o ambiente de negócios mais atractivo. Lembram que o Executivo tomou medidas para aumentar a produção petrolífera a longo prazo, cortou taxas que incidiam sobre os projectos a desenvolver em campos petrolíferos marginais e fez recentemente acordos, com ‘proeminentes’ petrolíferas internacionais, como a Equinor para aumentar a produção da matéria-prima até 2020. Assinalam ainda a fusão das duas agências que tratam do investimento externo para simplificar os procedimentos a quem queira aplicar dinheiro em Angola e publicou uma nova lei do investimento estrangeiro, que dispensa os investidores externos, na economia não petrolífera, de encontrar e contar com parceiros nacionais. Para o África Monitor, se todo este processo se desenrolar de forma gradual, ele conduzirá decerto à formação de capital nos próximos anos.
A inflação, notam os analistas, permanece elevada e poderá mesmo, na sua perspectiva subir para 25% no final deste ano, em linha com a depreciação do Kwanza. E a introdução do novo imposto sobre o valor acrescentado (IVA), que vem substituir o Imposto de Consumo, poderá manter a inflação a um nível alto (de 17% em termos médios) no próximo ano, o que continuará a pesar no poder de compra. Mesmo assim, este vai aumentar, tendo-se no primeiro trimestre deste ano já assistido a um crescimento positivo do crédito ao sector privado, o que acabará por traduzir-se numa maior procura por produtos e serviços. Por outro lado, o afluxo à economia dos dólares, decorrentes do aumento das exportações, condicionará a taxa de câmbio informal, que cairá face à maior liquidez em moeda estrangeira. Muitos negócios, que se encontravam afectados pelas limitações colocadas à importação de bens de consumo, irão reanimar, o que terá efeitos positivos sobre o emprego e o rendimento, considera o documento.