Brasil elege amanhã novo inquilino do Palácio do Planalto

As eleições no Brasil acontecem já neste Domingo e parece que o nome de Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, é o que mais soa, provocando temor em uns e apoios em outros. Esta semana, Bolsonaro ganhou um apoio do todo-poderoso bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.

O fenómeno político de momento nas eleições brasileiras é, sem dúvidas, Jair Bolsonaro (PSL), que esta semana foi agraciado pelo bispo Edir Macedo com 30 minutos de exposição no canal televisivo da denominação religiosa, enquanto os outros candidatos à presidência se enfrentavam no debate da TV Globo. Cá entre nós, apesar das eleições brasileiras não ocuparem significativos espaços no “prime time” de TV e nem fazer regularmente caixa alta na imprensa, não deixa de ser um assunto que interessa a uma certa franja da sociedade. Por exemplo o especialista em relações internacionais Frederico Baptista prevê um futuro dentro da normalidade da praxe na relação inter-estados, independentemente do candidato que vier a conquistar a cadeira do Palácio do Planalto.

Baptista preferiria que o PT se mantivesse no poder, a bem das relações com Angola, mas, ao contrário de outros analistas, considera que o “espectro” sombrio que paira ao redor da chegada de Bolsonaro à presidência é um “fenómeno também fabricado e alimentado pela midia”. O especialista acredita que o próximo Presidente do Brasil será encontrado na segunda volta e deposita esperanças de que Ciro Gomes venha a ser o factor “X” para desequilibrar o empate técnico que as sondagens apontam entre Bolsonaro e Hadad em caso de não acontecer eleição naquilo que os brasileiros chamam por “primeiro turno”. “Independente de quem seja o candidato a chegar ao poder no Brasil, no quadro daquilo que tem sido o relacionamento entre os dois países, não acredito que haja profundas alterações, porque Bolsonaro é mais criticado por algumas visões que tem e opiniões que vai emitindo, mas do ponto de vista daquilo que poderá ser o posicionamento do Brasil nas relações a nível da lusofonia não acredito que mude muito”, referiu o também professor universitário. Brenda Ramos, jornalista brasileira actualmente a residir em Angola, considera “preocupante” a possibilidade de Bolsonaro chegar a presidente. A profissional, que baseia os seus argumentos no conhecimento que tem da relação entre os dois países, considera que “Bolsonaro no poder é um retrocesso, principalmente depois de 30 anos de democracia e depois do sofrimento decorrente da ditadura militar. Um homem de extrema-direita prestes a chegar ao poder é o que há de absurdo e obscuro na história do Brasil”.

Bolsonaro quer “doutrinar” as pessoas contra a homossexualidade que hoje foi melhor inserida na vida quotidiana a custo de muitos sacrifícios. A jornalista aponta ainda o racismo como outro elo fraco do candidato que de forma extensiva poderia afectar a relação com África. “Eu acho que ele não vai priorizar a relação com os povos africanos, já que tem esta visão de olhar para os negros como um povo pequeno, um povo menor em relação a ele que é descendente de europeus (ariano), mesmo sabendo que no Brasil ninguém é ariano, pois somos quase todos mestiços”, referiu. Sobre Angola, a profissional considera que se vão perder conquistas, “o que é uma pena. Eu não tenho boas pespectivas em relação a isso sabendo de quem se trata”. Bolsonaro é “retrógrado e pior ainda se tratando de economia. É muito desesperador. Neste momento estou com o coração na mão, e espero que os brasileiros tenha o mínimo de discernimento votando em consciência”, sentenciou ansiosa a jornalista. A nossa entrevista coincide com o especialista Frederico Baptista no quesito “quem serviria melhor a relação Angola-Brasil” e aponta o candidato do PT como sendo aquele que poderia dar continuidade nas políticas do Governo Lula que foram muito cordiais e dinâmicas com Angola. “Haddad seria o ideal para as relações entre os dois Estados, mas temos outros candidatos, como, por exemplo, Ciro Gomes, que é extremamente capacitado. Guilherme Boulo seria outro bom candidato”, referiu.

Uma vez militar, militar para sempre

A fazer jus ao seu passado, Jair Bolsonaro, (um ex-capitão do Exército), caso chegue a presidência da terra do Samba terá como vice o ex-general Hamilton Mourão, que defendeu os torturadores da ditadura militar (1964-1985). Alguma imprensa brasileira atribui a este militar a defesa da tese de “um novo golpe como solução para a crise política brasileira”. A primeira volta da eleição presidencial no Brasil está agendada para este Domingo, 7. Em caso de nenhum candidato obter mais de 50 por cento dos votos válidos, ocorre uma segunda volta agendada para 28 de Outubro. Na eleição presidencial anterior, em 2014, Dilma Rousseff foi reeleita Presidente. Empossada em 2015, acabou sendo destituída pelo Congresso Nacional (poder legislativo) em Agosto de 2016 e foi substituída pelo seu vice-presidente Michel Temer, que decidiu não se candidatar à reeleição em 2018.