Diamantes vertem sangue no Lucapa

O porta-voz da delegação do Ministério do Interior na Lunda-Norte, Zeca Rodrigues, garantiu, a OPAÍS, que a situação de segurança pública no município o Lucapa é considerada calma e controlada, pelo que, a Operação Transparência vai continuar.

Quatro pessoas morreram entre Quinta e Sexta-feira, no município do Lucapa, província da Lunda-Norte, em consequência de um confronto entre cidadãos nacionais e da República Democrática do Congo (RDC), declarou ontem, a OPAÍS, Zeca Mutchima, presidente do Protetorado Lunda. A Operação Transparência, desencadeada pelas forças de defesa e segurança desde a semana passada, criou um sentimento de descontentamento e revolta no seio da comunidade estrangeira neste município, por visar pôr fim ao garimpo ilegal de diamante e expatriar todos aqueles que se encontram à margem da lei. “O Lucapa está a ser palco de elevada violência. Os cidadãos estrangeiros estão a invadir casas de cidadãos nacionais, em jeito de retaliação às acções do Governo que visam repatriar os que estão ilegais. É assim que, ao longo desta semana, uma série de pessoas entraram em pancadaria”, frisou. O conflito terminou com sete feridos, entre nacionais e estrangeiros, alguns dos quais deram entrada no Hospital Municipal do Lucupa em estado grave, tendo três deles acabaram por falecer, horas depois, segundo a fonte. Além desses casos, às 22horas de Quinta-feira, diz Zeca Mutchima, um suposto efectivo da Polícia Nacional alvejou mortalmente um cidadão, identificado por António Paulo, de 56 anos, que, em companhia dos membros da sua família, acorreram ao Comando local da Polícia Nacional para fugirem dos “confrontos”.

Assassinado na presença da mulher e filhos

A vítima, que se fazia acompanhar da mulher e dos cinco filhos, viu-se forçada a abandonar a sua residência devido às alegadas invasões a que os nacionais residentes no bairro do Calombe (Lucapa) e no município do Cambulo estão sujeitos. “Eles estavam a ir ao encontro da Polícia esperançosos de que estariam protegidos, todavia, lamentavelmente os agentes da Ordem pensaram que faziam parte do grupo dos invasores de residência. Não perguntaram e dispararam mortalmente contra o cidadão”, frisou. Zeca Mutchima afirmou que muitas pessoas se refugiaram nas matas do Lucala para se protegerem. No seu ponto de vista, existem fortes indícios de que esse município seja maioritariamente habitado por cidadãos estrangeiros. A título de exemplo, citou que há um bairro que é quase que somente habitado por congoleses, alguns dos quais, casados com cidadãs angolanas. A maioria dos nacionais, por causa da agitação que a procura por pedras preciosas provocou no Lucapa, acabaram por refugiar- se em outras partes da província, bem como na vizinha cidade de Saurimo, na Lunda-Sul.

“Os cidadãos estrangeiros que vêm à procura de diamante já não querem regressar. Alguns dos quais já estão em Angola há mais de 15 anos”, declarou. De acordo com o nosso interlocutor, além dos congoleses, existem malianos que contratam indivíduos para se dedicar ao garimpo ilegal de diamante. A situação só atingiu esse nível de descontrolo pelo facto de eles presumivelmente contarem com a protecção de alguns membros das forças de defesa e segurança. Os grupos de garimpeiros, segundo conta, subornavam, supostamente, os efectivos da Polícia Nacional para os protegerem durante o tempo que permaneciam nas matas, à procura de diamante. “Hoje essas pessoas se transformaram num perigo para a sociedade”, frisou. Zeca Mutchima considera que tais situações ocorrem pelo facto de os agentes da Ordem enfrentarem inúmeras dificuldades durante o tempo de permanência nos seus postos de trabalho. Por outro lado, contou que apesar de nas localidades do Cuango e Cafunfo também existir uma vasta concentração de estrangeiros que se dedicam a tais práticas, não havia, até ao fecho da presente edição, relatos de violência. “Nós louvamos a decisão do Governo de pôr cobro a essa situação”, disse o presidente do Protetorado Lunda.

Polícia esclarece mortes

O porta-voz da Delegação do Ministério do Interior na Lunda- Norte, Rodrigues Zeca, declarou a OPAÍS que tomaram conhecimento dos actos de vandalismo alegadamente desencadeados por indivíduos das etnias Bapende, Balubas, Batetela e Batinge, provenientes da RDC, que residem ilegalmente naquela parcela do território nacional. “Eles, empunhando alguns objectos contundentes, revoltaram- se contra os cidadãos nacionais da tribo Tchowe aí residentes, por terem tentado se apropriar dos seus bens”, frisou. Rodrigues Zeca esclareceu que tal situação terá sido motivada com o facto de se registar uma movimentação muito grande, em termos de saídas voluntárias de expatriados, no âmbito da “Operação Transparência”. No entanto, alguns nacionais, por estarem em menor número, não conseguiram concretizar os seus intentos, pelo que foram espancados e refugiaram-se nas instalações da Polícia Nacional.

“Apenas três mortos”

O inspector-chefe de migração confirmou que, na Quarta-feira, as agressões terminaram com sete feridos, mas apenas duas pessoas morreram após serem socorridos na principal unidade hospitalar do município. “Dois perderam a vida em consequência dos ferimentos, um dos quais sofreu duros golpes de catana na cabeça. O terceiro foi em consequência de tiro”, detalhou. Em consequência, a Polícia deteve 26 suspeitos das agressões físicas e foram encaminhados ao Serviço Provincial de Investigação Criminal (SPIC) local. Por outro lado, refutou as acusações de que há um agente da Polícia envolvido da morte do cidadão António Paulo. “Na madrugada de hoje (ontem), dia 5, as forças envolvidas na Operação Transparência registaram vários tiroteios que resultou na morte de um cidadão que, se presume, segundo informações que obtivemos, foi atingido por uma bala traiçoeira”, esclareceu. Rodrigues Zeca disse ainda que os agentes da Ordem se deslocaram ao local para aferir o que se terá passado, por volta das 5horas, mas não tiveram êxitos.

Mesmo realizando um trabalho de busca casa-a-casa. Pelo que, suspeitam que os autores dos disparos ter-se-ão posto em fuga. “Até ao momento, continuam as acções investigativas para se encontrar os autores dos disparos”. O inspector-chefe de migração disse que boa parte dos imigrantes ilegais começaram ontem a apresentar-se às autoridades voluntariamente para serem repatriados. No Comando Municipal da Polícia Nacional está uma equipa conjunta de efectivos das forças de defesa e segurança. A conferência de imprensa que serviria para esclarecer a opinião pública nacional e internacional sobre os resultados preliminares dessa “empreitada”, agendada para ontem, foi adiada para a próxima Terça-feira, em Malanje, de acordo com o porta-voz do Posto do Comando Central da Operação, comissário António José Bernardo “Tony Bernardo”. Essa operação, que visa pôr fim ao garimpo ilegal de diamante nas províncias de Malanje, Lunda Norte, Lunda Sul, Bié, Moxico, Bié e Uíge, está a ser desencadeada por efectivos das Polícia Nacional e das Forças Armadas Angolanas.