Separatistas anglófonos atrapalham eleições nos Camarões

Os separatistas das regiões anglófonas dos Camarões cumpriram as suas ameaças de perturbar, neste Domingo (7), a eleição presidencial em que o presidente Paul Biya, de 85 anos, é favorito. Três homens armados, supostos separatistas, que agiram contra transeuntes em Bamenda, na região anglófona do noroeste do país, foram mortos após uma troca de tiros com a Polícia. Na madrugada deste Domingo, na mesma cidade, um tribunal foi incendiado por homens armados, segundo testemunhas. Em Buea, no sudoeste, outra região anglófona, tiros foram ouvidos por jornalistas da AFP. Os disparos foram efectuados contra um veículo do jornal governamental Cameroon Tribune e contra o do vice-prefeito, mas não fizeram feridos.

Os separatistas ameaçaram impedir o bom desenvolvimento das eleições nessas regiões. Para tentar garantir a segurança do pleito, o Exército foi enviado para três das dez regiões do país: o extremo Norte, onde lutam os extremistas do Boko Haram, e as duas regiões anglófonas do Noroeste e do Sudoeste, onde separatistas armados reivindicam a independência. Contudo, as autoridades camaronesas mostram-se tranquilas: as eleições acontecerão em todo o território, assegurou o ministro da Administração Territorial em meados de Setembro. O conflito contra os combatentes separatistas não pára de se agravar desde o início da crise, no fim de 2016, quando as reivindicações corporativistas anglófonas deram lugar a manifestações e muitas detenções. Esta crise latente, de índole sócio- política, transformou-se pouco a pouco em um violento conflito armado entre as tropas de elite das forças de segurança camaronesas e os separatistas cada vez mais numerosos. Esses grupos forçaram muitas autoridades locais a fugir das suas administrações em algumas localidades anglófonas. Como resposta das autoridades, algumas zonas eleitorais serão “realocadas”, afirmou à imprensa Elecam, o órgão encarregado da organização da votação.

‘Ampla oferta política’

O presidente e candidato Paul Biya, no poder desde 1982 e que, pela primeira vez desde 2012, foi no Sábado para uma zona provincial para fazer um discurso pré-eleitoral em Marua (Norte), conta com um extenso apoio. Ministros, líderes do partido no poder e líderes tradicionais mobilizaram- se para fazer campanha em seu favor. Por todas as partes são vistos cartazes com o seu rosto e os organiseus apoiantes intervêm na televisão para defender o seu equilíbrio. A sua “Visão para os Camarões”, compilada numa obra em 1987, foi reeditada no início de Setembro. O presidente Biya defendeu em Marua “a firmeza e o diálogo” nas zonas anglófonas em crise. Mais tarde nesta Sexta, dois candidatos da oposição camaronesa formaram uma coligação, dois dias antes das presidenciais, anunciou o porta-voz de um deles num comunicado. “Akere Muna aceita retirar a sua candidatura à presidência da República (…) e apoiar Maurice Kamto”, indicou um comunicado assinado pelo porta-voz de Akere Muna, Paul Mahel.

Akere Muna é o líder da Frente Popular de Desenvolvimento(FDP), e Maurice Kamto lidera o Movimento pelo Renascimento de Camarões (MRC). O anúncio confirma os rumores de uma manobra da oposição para tentar derrotar Biya, mas a nova coligação não inclui o principal candidato opositor Joshua Osih, da Frente Social-Democrata. Nove candidatos disputaram as eleições de Domingo. “É a primeira vez na história dos Camarões que há candidatos de oposição tão diferenciados”, analisou Fred Eboko, cientista político camaronês no Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento (IRD). Como em 2011, parece difícil imaginar outra vitória que não a de Paul Biya, que foi eleito com 77,8% dos votos. Os observadores apontaram “muitas irregularidades” durante as eleições. Candidatos da oposição, a Igreja Católica e alguns actores da sociedade civil anunciaram o envio de observadores eleitorais para garantir que não haja fraude. Nos Camarões, onde apenas 10% da população activa conta com emprego formal, um terço dos habitantes vive com menos de 2,30 dólares por dia e 75% da população não conhece outro presidente além de Biya, os desafios serão imensos.