Bolsonaro e Haddad iniciam tensa campanha para a segunda volta

O candidato de extrema-direita à Presidência, Jair Bolsonaro, (PSL) retomou, nesta Segunda-feira (8), a sua campanha nas redes sociais após ficar numa óptima posição para vencer no 2º turno, a 28 de Outubro, o esquerdista Fernando Haddad, Este resultado foi fortemente celebrado pelos mercados.

‘Reduzir o número de ministérios, extinguir e privatizar empresas estatais, combater fraudes no Bolsa Família para que, quem precise, possa ter este amparo humanitário ampliado, descentralização do poder, dando mais força económica aos Estados e municípios. A política ao serviço do brasileiro!” – proclamou no Twitter o candidato do Partido Social Liberal (PSL), retomando a sua campanha activa após obter 46,03% dos votos no Domingo. Haddad, por sua vez, designado candidato do PT pelo ex-Presidente Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003- 2011), viajou até Curitiba para visitar o líder histórico da esquerda na prisão onde cumpre pena de 12 anos e um mês por corrupção e lavagem de dinheiro. Os dois dirigentes passaram três horas reunidos, na cela de 15 m2, desenhando a estratégia para uma segunda volta complexa. “Vou conversar com as forças democráticas do país, representadas por algumas candidaturas”, como a de Ciro Gomes (PDT), e Guilherme Boulos (PSOL), assim como com governadores, disse Haddad à imprensa ao fim do encontro. “Temos interesse que as forças democráticas estejam unidades em torno deste projecto” do PT, acrescentou.

Fortalecido

A tarefa anuncia-se titânica para Haddad, que conseguiu salvar o partido de esquerda de uma queda histórica. Bolsonaro já havia obtido o apoio dos mercados e das influentes igrejas evangélicas. O seu até agora pequeno partido, PSL, converteu-se no Domingo na segunda bancada da Câmara dos Deputados. O capitão na reserva, de 63 anos, terá que tentar, sobretudo, reduzir os seus elevados índices de rejeição, de 45%, segundo o Datafolha, colectados ao longo de uma disputa cheia de declarações misóginas, homofóbicas e racistas, além da sua justificativa da tortura durante a ditadura militar (1964-1985). Bolsonaro não fez campanha nas ruas desde que, em 6 de Setembro, recebeu uma facada durante um acto eleitoral, que o deixou à beira da morte. O seu domínio nas redes sociais é, não obstante, incontestável. Os dois candidatos foram entrevistados nesta Segunda-feira pelo Jornal Nacional. Haddad, que não citou Lula, reafirmou que o seu projecto de governo estará centrado na educação, na promoção social e na geração de empregos. “O futuro do país está em jogo, o futuro da democracia está em jogo, o futuro dos direitos sociais e trabalhistas está em jogo”, advertiu o ex-prefeito de São Paulo. Já Bolsonaro garantiu que se for eleito presidente o seu governo “não irá além do que permite a Constituição”. “Necessitamos de um governo com autoridade e não com autoritarismo”. No Domingo, Bolsonaro queixou- se no Facebook de “problemas” com as urnas electrónicas que, segundo afirmou, lhe impediram de vencer no primeiro turno.

Última oportunidade

Haddad enfrenta dilemas de difícil solução para encurtar distâncias com Bolsonaro. A sua identificação total com Lula lhe permitiu ganhar sectores que beneficiaram das políticas de inclusão social do ex-presidente. Mas pode comprometer a aproximação de grupos e partidos que consideram Lula como sinónimo de corrupção e de políticas estatizantes, que estes grupos consideram responsáveis por jogar o Brasil numa recessão de dois anos. Uma das chaves para reduzir a distância para Bolsonaro seria o apoio de Ciro Gomes, do Partido Democrático Trabalhista (PDT), que foi ministro da Integração Nacional de Lula e conseguiu 12,5% dos votos. Gomes disse no Domingo que discutirá com os líderes do PDT a posição para o segundo turno, mas antecipou um possível apoio: “Farei o que fiz toda minha vida, que é lutar pela democracia e contra o fascismo”

Lua-de-mel com os mercados

Os mercados celebraram com forte alta o que já consideram uma vitória de Bolsonaro. O índice Ibovespa da Bolsa de São Paulo ganhou 4,57%, depois de subir mais de 6% pela manhã. O dólar era cotado a 3,766 reais, diante dos 3,858 reais no fecho dos mercados na Sexta-feira, com um fortalecimento de 2,44% da moeda brasileira. “A Bolsa teve uma forte alta nesta Segunda-feira, indicando que os mercados realmente vêem Bolsonaro como o mais preparado para lidar com a difícil agenda económica que o Brasil tem à frente”, avaliou o analista de risco Thomaz Favaro à AFP.

Missão da OEA no Brasil detecta erros sem alterar resultado eleitoral

A chefe da missão eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Laura Chinchilla, admitiu nesta Segunda-feira que houve problemas com algumas urnas, mas que não alteraram os resultados. “Não encontramos nenhum dado verificável que faça supor erros em tal escala que pudessem alterar o resultado eleitoral”, declarou em entrevista colectiva em Brasília. “Uma questão são os erros isolados e outra coisa são os erros que podem alterar o resultado eleitoral”, acrescentou a ex-presidente da Costa Rica. No seu relatório, a missão da OEA, convidada pela primeira vez a observar o processo eleitoral no Brasil, destacou o sucesso do dia de eleições de Domingo, mas sustenta que em algumas secções “houve problemas com a identificação biométrica”, o que não impediu “exercer o direito ao voto”.