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O que sobrou dos anos de garimpo de diamantes na Lunda-Norte

Vegetação destruída, valas abertas que se prolongam como ravinas, redução da fauna e acentuado empobrecimento da população local é o cenário que se pode constatar nos municípios diamantíferos da província da Lunda-Norte. Os “natos” depositam esperança na “Operação Transparência”, que visa a retirada dos garimpeiros e esperam ser os primeiros beneficiados nos próximos anos.

Quando começou a fazer o garimpo em 1982 nos arredores do Nzoji, no município do Cambulo, um dos locais de maior exploração diamantífera da província, Santos Manuel já havia encontrado rastos de destruição do meio ambiente. Volvidos 36 anos, o ex-garimpeiro diz que nunca imaginou que os diamantes causariam tantos estragos. Numa extensão de cerca de 8 km desde a localidade do Luxiro até ao Nzoji (sede do município de Cambulo), os níveis de destruição dos salos, dos rios e da vegetação criou um ambiente desolador em que até a própria natureza parece clamar por socorro.

Antes de abandonar o ofício de garimpeiro, em 1998, Santos Manuel conseguiu uma pedra de 25 quilates, o que lhe terá valido milhões em dólares, que usou na compra de viaturas, motorizadas e outros que hoje já não existem. Em muitas partes de Cambulo as pequenas ravinas prolongam-se nas estradas e o risco do asfalto vir a ceder e cortarem a circulação de um ponto ao outro é cada vez maior. “A entrada dos estrangeiros aumentou os buracos em toda parte e sabemos que esta situação pode nos criar um problema ambiental no futuro”, realça o agora funcionário do Governo local. O administrador municipal do Cambulo, Silvestre Cheleca, mostra- se também preocupado com o impacto ambiental causado pelo garimpo de diamantes e defende ser necessária a criação de uma comissão nacional para avaliar os estragos causados e propor uma solução para os locais afectados.

As três grandes cooperativas que exploram diamantes no Cambulo foram apontadas por Silvestre Cheleca como parte das causadoras da destruição, pois, segundo disse, em muitos casos nem sequer tapam os buracos que abrem no momento da exploração. A prostituição e os níveis acentuados de delinquência, com assaltos com armas de fogo, fazem parte da ‘herança’ deixada pelo garimpo dominado essencialmente por cidadãos da República democrática do Congo (RDC). Aliás, as estimativas demográficas deste município indicam que 60% da população é estrangeira, de um total de 120 mil e 128 habitantes que residem maioritariamente nas localidades de Fucauma, Cassanguide e o Luxiro, onde a companhia colonial de diamantes Diamang formava os seus mineiros.

Madeira e animais do Lucapa

O município do Lucapa sempre foi conhecido pela exploração de diamantes, onde o garimpo atingiu proporções alarmantes com as suas terras a apresentarem os mesmos problemas de destruição de Cambulo. Nesta localidade, os garimpeiros estrangeiros foram mais longe, deixando áreas desertas com o derrube de árvores para transformação em madeiras e carvão, para além do “combate à fauna” com caça furtiva. “Os estrangeiros acabaram o peixe dos rios, carnes de caça e a nossa madeira. É um prejuízo grande que a Lunda-Norte sofreu”, queixou o soba Alberto Muevo, do bairro Tchiluata, arredores do Lucapa. Alberto Muevo disse que da parte das autoridades tradicionais nunca faltou o apelo para que os estrangeiros fossem mandados de volta para as suas terras, mas nunca foram tidos e nem achados.

Desemprego e pobreza

As imensas quantidades de diamantes e outros recursos explorados contrastam com o nível de pobreza que o Lucapa apresenta hoje. Os jovens dizem que não encontram nenhuma perspectiva de desenvolvimento: “cavar diamantes e trabalhar como kínguilas são as únicas opções que temos”, afirma Benvindo Chacala, de 22 anos. Na Lunda-Norte estão desempregadas mais 50 mil jovens, segundo dados do Governo provincial. Com a proibição do garimpo, o número de desocupados parece ter aumentado, tendo em conta o movimento dos jovens nas ruas. Suspenso todo o tipo de exploração diamantífera e com maior controlo nas áreas madeireiras e com animais selvagens, a população da Lunda-Norte espera que depois da “Operação Transparência” toda a actividade produtiva tenha em conta o seu bem-estar.

O impulso da “Operação Transparência”

O porta-voz da “Operação Transparência”, António Bernardo, disse que a salvaguarda do meio ambiente é um dos objectivos deste processo levado a cabo pelo Executivo angolano, sendo uma das orientações deixadas pelo Presidente da República em 2017, na sua tomada de posse. António Bernardo disse que o Conselho de Segurança Nacional reflectiu sobre o estado em que se encontra a fauna, flora e as riquezas do solo e subsolo angolano que estavam a ser delapidadas e destruídas pelos garimpeiros estrangeiros. O comissário Bernardo enfatizou que a “Operação Transparência” quer salvaguardar os recursos naturais que ilegalmente eram retirados do país, o que causou prejuízos ecológicos ainda por se calcular em todas as áreas diamantíferas. O governador da Lunda- Norte, Ernesto Muangala, disse que ao longo das décadas de exploração mineira, as terras nunca foram organizadas e cedidas às autoridades locais para a prática agrícola, tal como orienta o Código Mineiro. Ernesto Muangala disse que a exploração ilegal de diamantes causou avultados prejuízos ecológicos, como o desvio do curso de vários rios, destruição dos solos e outros bens da natureza. Sobre os níveis de desemprego, o governador disse que a organização do sector mineiro tem também como finalidade gerar mais empregos para os jovens locais.

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