Patrício Batsîkama: ‘colonizadores levaram cristianismo de opressão para África’

O “Tocoismo e a Revolução Espiritual na Construção de um Mundo Cada vez mais Sustentável”, dominou o segundo tema da conferência internacional sobre o Tocoismo, que decorre desde Quinta-feira em Bruxelas.

O historiador angolano e professor universitário Patrício Batsîkama afirmou, em Bruxelas, no Sábado, que o Cristianismo que os colonizadores levaram para a África foi uma evangelização de opressão. Falando para um vasto auditório de fiéis da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo(INSJCM), “Os Tokoístas”, explicou que a descida do Espírito Santo em Julho de 1949, em África, é uma resposta à opressão que o africano ou qualquer oprimido conheceu. Baseando-se nos depoimentos dos Tokoistas recolhidos pela PIDE-DGS, e também do académico português Silva Cunha, que os escreveu depois de escutar Simão Toko, o Tokoismo trouxe quatro projecções para mudar o rumo dos acontecimentos. Trata-se da independência espiritual, desenvolvimento tecnológico e criação de escolas para a garantir a prosperidade económica e social, e Independência política.

Tokoismo e a Revolução espiritual

Na sua dissertação, Patrício Batsîkama disse que o Tokoismo está dividido em três categorias, sendo a primeira a doutrina teológica da igreja, a qual considerou como sendo o combustível de todo o tokoista. A segunda é a doutrina social, subdividida em dinâmica social, política e económica, a terceira, e última, é a doutrina filosófica, que apresenta a concepção da existência e propõe o diálogo das verdades contrárias. No que concerne a doutrina tecnológica, Batsîkama diz que se trata da fé que professa cada tokoista, observando os sacramentos, os preceitos, a hierarquia da Igreja, observar os dogmas e fé, ouvir a voz do líder espiritual e seguir fielmente as suas orientações. Explicou que foi na base desta doutrina teológica da INSJCM que se conseguiu manter maior estabilidade espiritual em diferentes momentos turbulentos, e assim se salvou a harmonia e o êxito. Já a doutrina social da INSJCM vela pela integridade ontológica do indivíduo, na maximização dos seus capitais simbólicos, segundo o orador. Sobre esta matéria, de acordo com Patrício Batsîkama, o Tokoismo fornece ao indivíduo as ferramentas para perceber a realidade social, alerta-o sobre as regras da concorrência e aconselha-o os caminhos para alcançar a sua felicidade.

Sobre a Revolução Espiritual, o historiador explicou que compreende três conceitos: Efusão do Espírito Santo na conquista da independência religiosa, mas também, sócio-económica e política. Construção contínua para a realização espirital da personalidade do homem na base dos valores universais, e a emancipação espiritual. Durante a palestra, Batsîkama afirmou que o Tokoismo é uma proposta de emancipação espiritual que mantém a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo como sendo espiritual e liberta o “homem pecador/oprimido”.

Epístolas

Pelas cartas e entrevistas que Simão Toko escreveu entre 1943 e 1983, baseando-se nas afirmações do palestrante, há nítidas evidências de que a sua missão não poderia “limitar-se ao corpo nascido a 24 de Fevereiro de 1918 e sepultado em Ntaya em 1984”. “Percebe-se que existe realmente um Espirito maior que moveu o corpo material do Profeta. Já discutimos disso no nosso trabalho sobre “Tokoismo, filosofia da Libertação”, disse. Explicou que entre 1703-1704 nasce a profecia sobre Toko, filho de Ndundu Ñsîmba. Isso realizouse em 1918, com o nascimento físico de Mayamona (Simão Gonçalves Toco).

Defensor dos oprimidos Na palestra assistida por fiéis vindos de Angola, Bélgica (anfitriã), França, Portugal, Inglaterra, Luxemburgo, Alemanha e outros países, citando o académico John Marcum, o orador disse que Simão Toko se posicionou ao lado dos oprimidos. De entre os oprimidos, Patrício Batsîkama apontou os pobres, os excluídos e os injustiçados e assalariados que correspondiam, na altura, a cerca de de 90 por cento dos angolanos. Numa incursão resumida sobre o Tokoismo Teologia da Libertação, Patrício Batsîkama disse que os tokoistas participaram activamente na luta da libertação de Angola e apoiaram os mais carentes.

Introdução, por Batsîkama

O profeta Simão Gonçalves Toko relembrou o que se passou no dia 25 de Julho de 1949, com a descida do Espírito Santo. “Será mesmo que houve descida de Espirito Santo? Tenho três perguntas para responder antes de entrar na discussão propriamente dita. A primeira pergunta é: o que era o mundo antes de 25 de Julho de 1949, pelo menos no ponto social, político, económico e, sobretudo, espiritual”. A segunda pergunta será: depois desta data ou época, o que se tornou o mundo, ou a realidade social, económica, política e espiritual? Com essas duas perguntas, coloca-se a terceira: qual seria a contribuição do Tokoismo na dinâmica social, económica, política e espiritual? Tentarei, disse, responder a essas perguntas no espaço chamado África, mas quanto à terceira, iremos olhar o mundo em si, já que o mundo está a ficar cada vez mais globalizado. No fim, estaremos em condições de saber se o Tokoismo é algo sério e se o Espírito Santo desceu ou foi uma brincadeira de mau gosto. Com isso, iremos debruçar-nos sobre três aspectos: (1) como a História definiria o Tokoismo; (2) como Simão Toko e a INSJCM definem o Tokoismo [doutrina religiosa e doutrina social]; (3) como eu poderei definir o Tokoismo, avançou.

Antes de 1949

Verificaram-se três tragédias em África antes de 1949, nomeadamente: (1) com a vitória de National Party na África do Sul, o Apartheid foi legalizado na Constituição sul-africana e outras leis em 1948; (2) lei de Indigenato atingiu uma animalidade em vários países da África, em Angola principalmente; (3) em 1948 foram massacrados pela Alemanha milhares de Khoi e San na Namíbia. Como se pode notar, a opressão do africano era social, económica, política e, sobretudo, espiritual. Do ponto de vista social, o africano representa o modelo do oprimido quer em África, quer nas Américas onde os afrodescendentes estão sem heranças sociais: vivem na animalidade, não têm grandes habilitações literárias, ocupam casas sem condições de habitabilidade, habitam o espaço dominado, submetem-se aos outros, etc. Do ponto de vista económico, o ano de 1948 era ainda desolador para o mundo inteiro, por se tratar do ano com indicadores assustadores da época pós-guerra mundial. Israel nasce nesse mesmo período.

A Europa estava a reconstruir-se, com grande ajuda dos E.U.A.. África estava a ser explorada de forma desmedida e o seu suporte humano massacrado. O africano é pobre, não tem fundo nem arte para explorar porque o sistema colonial destruiu todas as possibilidades realistas. No campo político tudo é desolador. África, em 1948, não tem grande expectativa política endógena, e a colonização demográfica que, além de oprimir o africano, destrói as bases da cidadania e reduz as forças sociais endógenas no “rendez-vous” político e excluiu-as na tomada de decisões estratégicas. De maneira geral, o ano de 1948 é claramente desolador para o africano. Ele representa o modelo do “oprimido” em todos sentidos utilizados, quer social, quer económico, quer político. Agora, o que dizer do ponto de vista espiritual? O colonizador exerce uma força desmedida ao animalizar o seu semelhante. Isto é, o colonizador transgrediu os principais espirituais do homem. Espiritualmente, o africano encontra-se em três dificuldades. A primeira é de ser deserdado da sua ancestralidade religiosa, ao ponto de confundir o valor religioso na sua cultura. A segunda é de acreditar que a sua ancestralidade é totalmente demoníaca. A última traduz-se na pobreza espiritual no sentido estrito do termo. Daí acreditou-se que o negro ou todo que é oprimido em nada contribuiu na civilização.