Yuri Quixina: “A proposta de aumento salarial é tecnicamente incoerente”

O professor de Macro-economia, Yuri Quixina, considera que os ajustamentos salariais só devem ocorrer em função do crescimento económico

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

O ponto prévio desta edição recai para os resultados eleitorais no Brasil, que elegeu Jair Bolsonaro. Você insiste na ideia de que não é boa para Angola?

Apoiei publicamente Bolsonaro sobretudo a sua equipa, técnicos provenientes da escola de Chicago, munidos de uma mentalidade de liberdade. Falo particularmente de Paulo Guedes. Continuo com essa teoria de que Bolsonaro será uma dor de cabeça para nós, na medida em que já esclareceu que tipo de valores privilegia nas relações. Temos dívida com o Brasil à volta de 5 mil milhões de dólares.

Já definiu a sua estratégia de política externa, disse que vai relacionar-se com países que agregam valor económico e tecnológico ao Brasil. O que isso representa para Angola? Mas aí felicito a estratégia do Presidente João Lourenço, que desde cedo escreveu a Jair Bolsoanaro a felicitá-lo. Bolsonaro deu pistas interessantes sobre a sua política externa que consistirá não só em relacionar- se com países que acrescentam valor económico e tecnológico, mas sobretudo porque não quer ter relações ideológicas. Jair Bolsonoaro acredita que o PT geriu as relações internacionais na perspectiva ideológica, virada para o socialismo e o comunismo.

Um dos temas que marcou a semana económica foi a detenção de 200 toneladas de carvão vegetal, alegadamente explorado de forma ilegal no Namibe. Como sentiu quando ouviu a notícia?

O professor de Macro-economia, Yuri Quixina, considera que os ajustamentos salariais só devem ocorrer em função do crescimento económico Se analisarmos muito bem, são famílias envolvidas nessa exploração de carvão e o próprio director do Instituído do Desenvolvimento Florestal do Namibe apontou como solução, políticas que combatam a fome e a pobreza. Quer dizer que a fome e a pobreza é que fazem com que as famílias se encaminhem para esse sector. Mas a exploração desse sector resolve dois problemas: a situação sócio-económica dessas famílias e as famílias que não têm acesso ao gás de cozinha. Defendo que o Governo sistematize e estruture esse mercado para servir de meio de sustentabilidade das famílias. Não se deve combater os efeitos, mas sim as causas. Devia-se desenvolver estudos para promover esse mercado e empoderar as famílias e não criminalizá-las. O PIB americano cresce brutalmente com as centrais de carvão.

para a cabar com “as assimetrias salariais e promover o equilíbrio”. É essa a resolução do problema?

Do ponto de vista técnico não se pode resolver nessa perspectiva. A assimetria salarial combate-se com produtividade e os mais produtivos devem ganhar mais em relação aos menos produtivos, até porque a economia não está a crescer. Num cenário de reforma estrutural, a proposta de aumento salarial é tecnicamente incoerente, porque não tem fundamento de sucesso na literatura empírica universalmente aceite. Quando uma economia está em recessão não se aumentam os salários, porque tem efeito perverso. A outra questão que se coloca é que o sector privado deverá seguir a mesma trajectória e se isso ocorrer, estaremos a aumentar os bloqueios estruturais que libertariam as energias produtivas. Se aumentarmos os salários haverá pressão sobre os produtos. A matriz de consumo gera produção parece ser a lógica, só que não há produção.literatura empírica universalmente aceite. Quando uma economia está em recessão não se aumentam os salários, porque tem efeito perverso. A outra questão que se coloca é que o sector privado deverá seguir a mesma trajectória e se isso ocorrer, estaremos a aumentar os bloqueios estruturais que libertariam as energias produtivas. Se aumentarmos os salários haverá pressão sobre os produtos. A matriz de consumo gera produção parece ser a lógica, só que não há produção.

Governo transfere competências de alguns ministérios aos governos provinciais e municípios. Qual é a sua opinião sobre essa matéria?

Primeiro acho uma mediada inteligente, porque a vida faz-se nas províncias e nos municípios. Mas o povo devia estar informado para exigir do governador e do administrador a resolução dos problemas locais, porque temos a consciência de que quando há buraco na estrada o Presidente da República é que deve resolver. Antes devia-se ‘evangelizar’ o povo sobre como isso iria funcionar. Sem essa informação os governadores e administradores poderão ter comportamentos de reis.