Aumento de casos de VIH ameaça saúde pública de Malanje

Os indicadores de prevalência de VIH/ SIDA, na terra da Palanca Negra Gigante, tem estado a aumentar, porquanto os diagnósticos efectuados de Janeiro a Junho de 2018, num universo de 8 mil e 900 testes realizados, demonstram o aumento da taxa serológica

POR: Miguel José em Malanje

O director do Gabinete Provincial da Saúde (GPSM), Avantino Sebastião, expôs que a província de Malanje registou, no primeiro semestre deste ano, 581 casos novos de VIH/SIDA, mais 356 em relação a igual período de 2017. De acordo com o responsável, os 42 casos positivos detectados em mulheres grávidas e 12 em recém-nascidos representam um acréscimo de 10 e 2 casos, respectivamente, tendo como base a não adesão às consultas pré-natais por parte das mulheres grávidas seropositivas, o que tem inviabilizado o corte de transmissão vertical, de mãe para filho. “É importante as gestantes com VIH/SIDA aderirem às consultas, a fim de se evitar que mais crianças nasçam seropositivas”, aconselha.

No entanto, não obstante haver aumento de casos novos, o titular do GPSM refere que a cifra de óbitos baixou de 21 em 2017 para 16, em 2018; pelo que aconselha a população a conhecer o seu estado serológico, para o devido tratamento caso o indivíduo seja portador da enfermidade, no sentido de reduzir a carga viral do VIH/SIDA. Os activistas de luta contra a epidemia na terra da Palanca Negra Gigante afirmam que os actuais indicadores de prevalência do VIH/SIDA vêm da promiscuidade sexual, consubstanciada essencialmente no início precoce da actividade sexual, na multiplicidade de parceiros, no uso esporádico de preservativo, no consumo de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas a que adolescentes costumam a ser vulneráveis, assim como a comportamentos de risco. Por isso, clamam por maior engajamento de toda a sociedade, por constituir uma ameaça à saúde pública.

Alertam o Governo e parceiros sociais a juntarem sinergias e a redobrarem esforços com vista a encontrarem mecanismos de inibição aos vícios que incitam à contaminação das DTS, com particular incidência ao VIH/SIDA. Na óptica do representante de Malanje da Associação Nacional de Luta contra o VIH/SIDA (ANASO), Waldemar Kassombi, a SIDA, por ser um problema transversal que afecta a sociedade, o seu índice de prevalência, sobretudo na camada jovem tem impacto negativo produtivo e económico, pelo que o Estado e as organizações da sociedade civil, em conjunto, devem unir esforços e se engajarem com maior agressividade no seu combate. “É necessário que nos identifiquemos, todos, com a causa, no sentido de irmos minimizando o quadro que o nosso país vive.

Todavia, é necessário que todos nos juntemos para combater este mal que ameaça o desenvolvimento humano ”, exorta. Em virtude da actual incidência de casos na província, Waldemar Kassombi notifica que se as pessoas infectadas não aderirem à terapia, existirá o risco de se ter uma sociedade doente. E, com isso, refere que o Estado ver-se-á constrangido, quer do ponto de vista de custos, como de captação de recursos financeiros, em face do facto de a sua principal força de trabalho não poder produzir. “A pobreza tomará conta das famílias, assim como a sociedade não terá como se desenvolver”, sublinha.

Estratégias de combate ao VIH / SIDA

Devido ao elevado risco de doenças sexualmente transmissíveis, o GPSM evidencia a necessidade urgente de gizar programas de Saúde em defesa do grupo alvo, tendo como base o reforço da sensibilização contra a doença, de modo a baixar o número de casos positivos na província. De tal sorte que, segundo o responsável do Programa Provincial de Luta Contra a SIDA, Borges Seque Seque, o Departamento tem estado a desenvolver no dia-a-dia o segredo, pois nem sempre no primeiro contacto com a pessoa persuadida ou que venha a ser persuadida, ela revela o seu estado serológico.

“Aquelas que já sabem que estão infectadas, mostram- se indiferentes! Mas aquelas que não sabem vivem um trauma muito grande(…)”. Aliás – continua – embora nem todos os casos seropositivos diagnosticados sejam contaminados por via sexual, as pessoas, quando se deparam com o problema não se contêm. Para isso, estão duas técnicas formadas em Psicologia Clínica, que têm sabido dar resposta aos casos que surgem diariamente. Daniel Ngola, membro da AJUSIDA, organização juvenil dedicada à luta contra a SIDA, cuja actuação se consubstancia em levar informação às comunidades, advoga a realização de palestras e campanhas de mobilização e de prevenção, nas escolas e nos diversos espaços comunitários, para que as pessoas comecem a pautar-se pela prevenção. Para tal, evoca a necessidade de a sociedade criar mais mecanismos de informação e educação para a prevenção, além das que já existem, na perspectiva de os cidadãos perceberem a gravidade da doença. “A SIDA existe e as pessoas têm de perceber que é uma doença que pode ser evitada, desde que se faça sexo com responsabilidade”, suplica.

Factor de Exposição Sexual

A desestruturação familiar associada à baixa renda e concomitante o poder de compra das famílias são apontados, pelos activistas, como sendo uma das causas geradoras de contracção de DTS e de VIH/SIDA. Pois, a camada pobre, sobretudo, do sexo feminino, em idades compreendidas dos 15 aos 35 anos é o extracto social mais afectado, devido aos aliciamentos e mesmo pelas necessidades a que muitas meninas estão sujeitas e acabam por cair na tentação sem o mínimo de prevenção. Já do lado masculino, a faixa entre os 20 e os 40 anos é a que mais consta nos registos, muitos deles pertencem à classe ‘média’, pois, por acharem que têm as condições financeiras, se envolvem sexualmente sem as devidas medidas preventivas.

Chamado à breve reflexão, o epidemiologista Edson Alfredo alega como factor de exposição sexual das jovens mulheres, o extracto social mais visado, que decorre da intensificação da vulnerabilidade social, reforçado com o factor da exclusão económica, e os problemas já existentes no Sistema Nacional de Saúde, tais como: a escassa infra-estrutura; a distância dos equipamentos às populações; a gestão mal planificada; sem contar com os factores culturais, que prejudicam o acesso à educação e aos serviços básicos de saúde. No entanto, o médico sugere que a minimização do problema passa pela implementação de políticas públicas consentâneas, que garantam um perfil de saúde pública mais interactiva e proactiva, na perspectiva de intervenção multisectorial, tendo em conta as suas determinantes sociais.