Um dia desesperado

Talvez se busque a resposta em Freud outra vez, mas há dias de desespero na vida das pessoas. Ou melhor, dias desesperados. Há uma música de Grace Évora, com participação de Maya Cool, que mostra o desespero ante a incapacidade de alguém se sentir feliz. Diz que Deus lhe deu a sorte ingrata de “aturar” as dores de outros corações, mesmo sem ter nada a ver com elas. “Não me cobres por dores e máguas do teu coração que não fui eu quem as causou”, mais ou menos isso. E acrescenta, também aqui na minha interpretação: “passo a vida a curar as dores de outrem e ninguém para curar as minhas, quem cuidará do meu coração”? Talvez haja respostas para isso, se pensarmos que a felicidade pode vir do acto de amar, mesmo sem se ter receber amor, sem a posse, mas vivendo apenas a maravilha de querer bem a outras pessoas, de lhes sentir a falta, inventando formas para que estejam sempre presentes e nos preencham. E um dia desesperado, de saudade, de solidão até, pode ser um dia feliz. Há quem chame a isso maturidade, talvez o amor e a felicidade, afinal, sejam também uma questão de maturidade, sobretudo nos dias mais desesperados.