Moro prepara caminho para ser Presidente em 2022

“Para combater corrupção e crime organizado”, juiz aceita convite de Bolsonaro, a quem pode suceder na próxima eleição, dizem auxiliares do Presidente-eleito. Na sequência, deputados do PT falam em “fraude do século” e pedem libertação de Lula.

Após uma hora e meia de reunião no condomínio de Jair Bolsonaro (PSL) na Barra da Tijuca, zona Oeste do Rio de Janeiro, Sergio Moro aceitou o convite para integrar o próximo Governo como ministro da Justiça. O juiz que comandou a Operação Lava-Jato e condenou Lula da Silva à prisão pode, entretanto, vir a ser o sucessor do presidente-eleito no Domingo no sufrágio presidencial de 2022, acreditam auxiliares do capitão reformado.

O núcleo duro de Bolsonaro, que já disse e repetiu que não tem intenção de se recandidatar, conversa entre si sobre essa possibilidade, afirma a colunista do jornal Folha de S. Paulo, Monica Bergamo. Moro, que em entrevista de 2016 ao jornal O Estado de S. Paulo garantiu que jamais trocaria a justiça pela política, parece, segundo interlocutores seus, estar disposto a seguir uma carreira na área. “Aceitei com certo pesar [o convite] pois terei que abandonar 22 anos de magistratura, no entanto, a perspetiva de implementar uma forte agenda anti-corrupção e anti-crime organizado, com respeito à Constituição,à Lei e aos direitos, levaram-me a tomar esta decisão”, esclareceu Moro, que vai comandar um supe-rministério que engloba três pastas no Executivo do Presidente cessante Michel Temer, do PMDB. Ao mudar-se para Brasília, adiantou ainda que “a Operação Lava-Jato seguirá em Curitiba com os valorosos juízes locais” e que “para evitar controvérsia desnecessárias” vai já afastar-se de novas audiências.

Ou seja, Moro já não ouvirá Lula da Silva no dia 14, no âmbito do caso do Sítio de Atibaia, um dos processos em que o antigo Presidente está envolvido – será Gabriela Hardt, de 43 anos, a juíza substituta, considerada ainda mais rígida que o antecessor, a julgá-lo. O PT, entretanto, reagiu com veemência ao anúncio da entrada de Moro no Governo Bolsonaro. Em Março, o juiz condenou Lula a 11 anos de prisão, pena entretanto aumentada em segunda instância, quando o ex-sindicalista na condição de pré-candidato liderava as sondagens à frente, precisamente, de Bolsonaro. Em Junho, mesmo de férias em Portugal, desautorizou um magistrado de grau superior que havia dado ordem de soltura para o antigo Presidente. E na última semana de campanha da primeira volta tornou público o teor da delação contra Lula de Antonio Palocci, ministro das Finanças do Governo PT, que já tinha em sua posse desde havia três meses. “O General Mourão revelou detalhes desta sórdida relação entre o verdugo do principal candidato [Lula] e o eleito [Bolsonaro]”, disse Paulo Pimenta, líder parlamentar do PT na Câmara dos Deputados, referindo-se ao facto do vice- presidente de Bolsonaro haver revelado que a primeira sondagem foi efectuada ainda em plena campanha.

“Quando ele vazou a delação de Palocci já sabia que se Bolsonaro se elegesse seria ministro”, concluiu. Gleisi Hoffmann, presidente do PT, escreveu nas redes sociais, em português, inglês e espanhol, um texto chamado “a fraude dó século”, lembrando episódios desde as escutas telefónicas efectuadas por Moro à então presidente Dilma Rousseff, que precipitaram a sua queda. O partido pediu ainda a libertação do seu líder espiritual. “A máscara caiu”, completou o deputado do PSOL, tradicional aliado do PT, Ivan Valente. Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Presidente de 1995 a 2003, afirmou preferir “vê-lo no Supremo Tribunal Federal”. Sobre a fusão de ministérios num super-ministério da Justiça foi sarcástico: “Fusões de ministérios? Já vimos fracassos colloridos”, escreveu, numa alusão ao Governo de Collor de Mello (89- 92). Cristovam Buarque, senador do PPS, vê na manobra “margem para os jornais, no país e no estrangeiro, falarem em conspiração contra Lula”. Em sentido contrário, a deputada estadual e redactora do processo de impeachment Janaína Paschoal, do PSL e o governador eleito de São Paulo, João Doria (PSDB), elogiaram a escolha.