O “homem dos jornais” no Palácio faz continência a toda a gente

Luís fernando sabe que está na mira dos críticos por atrever-se a publicar Notícias do Palácio, um livro que considera uma extensa reportagem sobre actividade de João Lourenço neste seu primeiro ano de mandato, de resto, figura central na obra. Mas diz que lida bem com isso, sobretudo porque “as críticas vieram de quem não leu uma única linha do livro”. Acrescenta, sobre o livro, que é “uma espécie de abertura do mais importante centro do poder político aos governados, já que não me consta que, ao longo de mais de quarenta anos de Independência, se tenham organizado visitas guiadas pela Casa”. Entre e-mails e mensagens pelo WhatsApp, conversamos com o autor. Eis, a seguir, o teor da conversa

Por: José Kaliengue

Em jeito de apresentação, o que diz o autor sobre o livro?

Notícias do Palácio é exactamente o que o nome sugere. São notícias de factos e acontecimentos ligados ao Palácio Presidencial. No caso, todos eles decorridos nos primeiros doze meses da gestão do Presidente João Lourenço, desde discursos que proferiu a viagens pelo interior e ao estrangeiro, visitas de campo, sessões do Conselho de Ministros, um relato jornalístico do que entendemos ter eventual interesse para consulta posterior por estudantes ou até pesquisadores que estejam a trabalhar no tema Angola

. Tem também uma apresentação do Palácio aos cidadãos, uma espécie de abertura do mais importante centro do poder político aos governados, já que não me consta que, ao longo de mais de quarenta anos de Independência, se tenham organizado visitas guiadas pela Casa. Pode ler-se na obra, por exemplo, uma entrevista ao funcionário mais antigo do Palácio.

É a primeira vez que se publica em Angola um livro sobre os meandros do Palácio, creio, a ideia é desmistificar o Palácio ou foi a necessidade de partilhar algumas surpresa?

A ideia foi humanizar o Palácio. Mostrar aos angolanos como é o Palácio, como é o seu funcionamento, como é que se preparam, por exemplo, as missões do Presidente seja no interior do país seja no estrangeiro e, também, o modo como se recebem entidades estrangeiras na Cidade Alta.

Ficou-se com a ideia, com o anúncio do livro, de este ser uma espécie de crónica sobre o ano de João Lourenço no Palácio, na presidência, é mesmo isso, ou o ano do autor no “palácio de João Lourenço”?

Chamar-lhe-ia antes uma extensa reportagem sobre alguns dos acontecimentos mais marcantes dos últimos doze meses no Palácio. Sendo o Presidente a figura central da vida no Palácio, é evidente que os seus actos teriam de constar na obra. Mas estão lá dezenas de outros factos com outros protagonistas, como, por exemplo, o trabalho abnegado dos jardineiros e das pessoas que se encarregam da limpeza diária do edifício. Episódios pitorescos também como o modo divertido como um dos trabalhadores que tem a missão de distribuir diariamente o jornal pelos gabinetes desenvolve o seu trabalho, fazendo continência às pessoas com quem se cruza pelos corredores. Há referências também à barulheira dos pavões, aves que são parte animada da biodiversidade do lugar.

O Presidente aprova a ideia do livro, tal que dá o rosto na capa, há contribuições de João Lourenço no conteúdo?

A escolha dos elementos visuais para a composição gráfica obedeceu a critérios meramente técnicos. Se o livro falasse das Nações Unidas, na capa estaria muito provavelmente uma imagem da sede da ONU em Nova Iorque ou a logomarca da organização.

O autor e a editora discutem a capa e decidem o que ela deve conter, como em todos os livros feitos no mundo. A capa tem finalidade informativa, a capa indica, de modo resumido, o conteúdo que se encontrará no interior do livro.

O anúncio do livro suscitou algumas críticas, que reacção lhe provocam?

Li coisas nas redes sociais. Não me mereceram nenhuma reacção em especial. Entendi isso como o exercício normal da liberdade de expressão em democracia. Conseguiu-se o feito milagroso de se atacar violentamente um livro de que se não tinha lido uma única linha sequer. É “poesia”, como dizia, com fina ironia, Agostinho Neto.

O país precisa de avançar e só avança com pessoas que estejam em paz com as próprias consciências, munidas de sentimentos bons. Conto-lhe o caso de um crítico que se deu ao trabalho de criar uma narrativa bizarra, segundo a qual eu havia falado com ele e estava triste porque havia pessoas a criticarem o livro, que eu tinha dito que isso era obra de pessoas que se encontravam noutro campo político, que tinham inveja da minha carreira literária…enfim, um chorrilho de mentiras. Atitude de um crápula.

Desafiei-o a reproduzir no seu mural a nossa troca de mensagens. Respondeu-me que tinha ficado sem carga no telefone. Passaram-se dois dias e continua a carregar o telefone… A verdade é que lhe tinha apenas enviado uma mensagem (felizmente escrita) a dizerlhe que eu não fazia parte da estrutura societária da editora Mayamba, como ele insinuara num post. Sobre as críticas ao livro, nenhuma palavra, mas repare nas “estórias” que foi capaz de criar. Lido bem com isso. Todos os livros que escrevemos abrem fracturas, de um lado os que gostam e, do outro, os que não gostam. Nada mais natural…

Notícias do Palácio pressupõe, obrigatoriamente, alguma intriga palaciana…não acredito que seja tudo paz lá dentro… Conte dois episódios bizarros, ou hilariantes deste ano na Cidade Alta, constem ou não no livro… O livro não traz intriga palaciana. Como já disse, é puro exercício jornalístico, é uma reportagem a relatar factos, limitei-me a contá-los com o correspondente enquadramento.

Uma forma de levar os leitores a viverem, pelos olhos do jornalista que sou e que tenho o privilégio de estar presente nos actos, factos e acontecimentos de que apenas tiveram breves notas em jornais e na TV. Alargar, no fundo, o ângulo de percepção pública, foi o propósito do livro, nenhum outro foi considerado. Deixe-me referir-lhe que qualquer jornalista, dos muitos que fazem de enviados-especiais nas missões do PR, poderia escrever este livro. Com uma ou outra informação em falta apenas, talvez. Bastaria que se propusesse!

João Lourenço é homem para se desfazer numa gargalhada?

Há imagens fotográficas que respondem à pergunta. Vá, por exemplo, à página 299.

O Presidente já leu o livro? O que disse?

Foi ao Presidente João Lourenço que fiz chegar o primeiro exemplar. Por uma questão protocolar e de respeito.