“Operação Resgate” começa amanhã

A operação está por começar mas alguns já antevêem o seu fracasso, enquanto outros dão contributos para que a mesma resulte. As redes sociais, mais uma vez, são o palco dos maiores debates em torno da mesma

Texto  de: André Mussamo

Horas de visita virtual aos murais e contas de internautas revelaram-se insuficientes para ler e entender os milhares de comentários feitos pelos usuários das redes sociais, principalmente motivados por post de rostos conhecidos da nossa sociedade. O debate vai caloroso e animado, ocorre entre três correntes que parece dominarem as tendências dos comentários, sendo uma mais optimista e “aplaude”, outra radicalmente pessimista e que a partida consideram “O Resgate” um nado morto. Uma terceira, chamemoslhe moderada, que dá o benefício da dúvida e espera “ver pra crêr”.

Ismael Mateus publicou um dos mais comentados post sobre a “Operação Resgate”. Na sua proposta via redes sociais, o também professor universitário “endossa” um conjunto de sugestões que passam por “transformar as compras na rua em transgressões dos compradores, tanto a pé como em auto, determinar a abertura em todos os municípios e comunas de mercados locais, onde as vendedoras, previamente registadas, são responsabilizadas pelo asseio e limpeza de um raio de 100 metros, sob pena de perderem o direito às bancas”.

O cidadão Ismael Mateus sugere também a definição de dias e locais para venda ambulante, registo e municipalização da zunga, enquanto uma “uma marca sociológica e cultural da cidade de Luanda”. Determinar a lista de produtos proibidos na zunga e registar, disciplinar as cantinas e “destruir o circuito comercial de mercadorias contrafeitas vulgo maiuia, que alimenta a rede de mamadus e faz concorrência desleal ao comércio oficial” é outra das sugestões.

Em defesa da venda dos quitutes Quando à venda de iguarias típicas do manjar angolano, a que Ismael Mateus chama quitutes, a sua sugestão passa por “estabelecer condições de operação (higiene, salubridade e sanitárias) para a venda de bombô com ginguba, milho assado etc., definir locais, registar as mamãs, estabelecer compromisso com limpeza num raio de 5 metros e estabelecer distância obrigatória de umas das outras”. Neste quesito, o autor do post colhe a simpatia de outro activo internauta KB Gala e retomando o espirito e letra da proposta felicita o seu autor. “Saudamos esta iniciativa, inédita, aqui nas redes sociais, provando a sua vitalidade e utilidade pública”, refere, reforçando que o “importante é lançar luz ao problema”. Entretanto, quanto a este tipo de venda, alguns internautas mais ríspidos perguntam como saciariam a fome no corre-corre decorrente da vida na grande metrópole em que se transformou a capital do país. “Assim, até o bombô com ginguba ou o milho assado vamos ter de comprar nos supermercados?”, interrogava um dos comentadores do quotidiano inserido no amplo debate proporcionado pela publicação em causa.

Ordem no serviço de táxi As sugestões para a “Operação Resgate” são de toda a índole, onde o ordenamento do trânsito não fica de fora. O registo e identificação dos taxistas, o estabelecimento de rotas fixas e a obrigatoriedade de os operadores as percorrerem de ponta a ponta, o licenciamento dos veículos através de um mecanismo flexível segundo as rotas, a atracção de empreendedores que podiam ser os gestores das rotas e a definição clara de pontos de tomada e largada de passageiros, a serem respeitados por todos, preferência coincidindo com passadeiras e passagens aéreas e a tomada de passageiros segundo ordem de chegada, são somente algumas das abundantes proposts e sugestões para fazer do serviço de transporte de Luanda um mecanismo mais eficiente.

No âmbito da defendida municipalização do licenciamento dos táxis, os internautas propõem definição de cores por municípios, placas a identificar a rota assim como deixam em aberto a possibilidade de um operador requerer mudança de rota e ou de município. Para maior produtividade a fiscalização dos agentes de trânsito teria de ser redefinida e preferencialmente apenas em casos de extrema necessidade, evitando o “livre arbítrio” de que dispõem todos os agentes de autoridade.

Défice de comunicação Walter Cristóvão, outro internauta que arregimenta um significativo número de seguidores, elogia a iniciativa referindo: “a iniciativa é boa. Todos dizem que sim. O modus operandi é que nos está a irritar. Primeiro as paredes, só depois o tecto”. Para ele, a operação deveria mobilizar diferentes departamentos ministeriais para que, em reuniões a propósito, promovessem uma ampla divulgação. “A Comunicação Social começaria a emitir um spot por via das rádios, TVs, jornais e redes sociais do género “Vem aí”.

Enquanto o MAT criaria condições junto da Administração Local e Autoridades Tradicionais para que fossem criadas condições de educação moral e cívica”. O também jornalista e homem das artes cénicas sugere o uso do teatro e da música na mobilização da sociedade para o êxito da “Operação Resgate”. “Activistas de vária índole nacional falariam (educar e esclarecer) o que realmente vai acontecer. Um mês de intensa actividade. As TVs também mostrariam os locais existentes para o comércio. Os spots explicariam como evitar ser alvo da Operação levando os cidadãos a autoeducação social”, propõe Walter Cristóvão.

Domingos Das Neves é outro ‘opinion maker’ que debitou o seu contributo neste debate. Contou no seu post que de uma visita a uma barraca no bairro Operário as suas anfitriãs na amena cavaqueira, travada durante o almoço, lhe revelaram que estavam a ser intimadas a pagar cerca de 25 mil Kuanzas. “Ao conversar com as senhoras sobre a tal ‘operação resgate’, elas me disseram que lhes foi intimado pela fiscalização do município o pagamento de emolumentos no valor de 25 mil Kwanzas, fazer um requerimento e, bla bla bla. Elas não sabem ainda o quanto terão de pagar mensalmente.

O mais provável é que aquela barraca vai ser obrigada a encerrar e colocar mais pessoas no desemprego, que até hoje já é arrojado”, comenta, meio sarcástico o internauta. Para ele. o resgate maior do Estado seria proporcionar condições para garantir empregos e trabalhos dignos para a multidão de jovens desempregados, licenciados (ou não), técnicos ou analfabetos, pois todos precisam, pelo menos, de sobreviver com um mínimo de dignidade.

E nada melhor do que viver com o fruto do próprio suor. “Isso sim, seria o verdadeiro resgate da autoridade do Estado, que é uma entidade de bem!”, escreve a culminar a sua publicação, igualmente amplamente comentada e partilhada. KB Gala escreve que entende o conjunto de propostas, sobretudo no campo da fiscalização permanente dos produtos perecíveis e até dos que são de ingestão imediata, após a venda.

“Os problemas são ‘estruturantes’, sustentam algumas vozes; de fome e miséria; ‘conjunturais’, defendem outros, causado pela guerra e por arrasto a disfuncionalidade da família, base da sociedade. Vejo que a Administração Central preparou-se não muito bem para a tomada de medidas”, refere. Sobre a zunga, KB Gala socorre- se do contributo da academia, trazendo por arrasto um facto recente.

“Uma estudante, que terminou a licenciatura em sociologia, pela UAN, Rosiane Manuel, tinha uma ideia a respeito da zunga. Ela pensava que as zungueiras deviam ser uniformizadas e os uniformes conterem compartimentos com sacos plásticos em que o comprador levava o produto, geralmente as frutas, ou mesmo o peixe”, conclui.