“Moda Saco” pode reduzir lixo em Luanda

A “Moda Saco” foi uma “febre” este ano. Ganhou uma adesão plausível de fãs. Entretanto, o “pai” da moda, conhecido por “Ti Saco”, pretende não só usar sacos plásticos, como também outros materiais recicláveis, o que pode vir a reduzir o lixo na capital

POR: Adjelson Coimbra

Alexandre Luís Baião ou “Ti Saco”, como é tratado pelos fãs da sua moda, é um jovem conhecido por usar, dos pés a cabeça roupas de sacos plástico. Por onde passa, a sua indumentária diverge opiniões. Há quem, sem papas na língua, trata-o por “louco”. Todavia, este jovem, segundo reitera, planeia caso venha a conseguir apoios financeiros, poder vir a reduzir os montes de lixo espalhados pela urbe luandina. “Transformar o lixo em uma coisa útil” é o seu lema desde que materializou essa ideia.

A “Moda Saco” é caracterizada por adaptar sacos de plástico em vestimentas”. Conta o “pai” da moda que, nos próximos anos, caso tenha apoio do governo ou de outras instituições, vai promover formações a outros jovens e enraizá-los a cultura de reciclar para que se possa espalhar. No princípio do presente ano, via-se na rede social Facebook, adolescentes e adultos a postarem fotografias com roupas de saco. Era, igualmente, visível nas ruas periféricas de Luanda pessoas a vestirem-se desta maneira.

Trajectória da “Moda Saco”

Tudo começou, de acordo com “Ti Saco”, como se de uma brincadeira se tratasse. Hoje, com mais maturidade, pensa usar a sua moda para reduzir o lixo. “Antigamente, eu gostava de desenhos aos quadrinhos e eles eram surpreendentes. Assim, decidi inventar algo que surpreendesse as pessoas. Queria implantar a minha marca”, contou. Com 15 anos de idade, enquanto jogava futebol, sentia-se inferiorizado pelo facto de os seus amigos apresentarem-se devidamente equipados e ele não. Como refúgio, ‘inventou’ uma meia de saco. Para o seu espanto, os seus amigos gostaram da iniciativa. Ainda na época do futebol, no Cazenga, bairro que o viu crescer, a equipa pela qual jogava não tinha roupas para vestir.

Daí nasceu a ideia em passar a usar roupas de saco. Muitos perguntaram como seria possível. Depois de feita, a criatividade foi-se tornando cada vez mais apreciada. “Só que comecei a ficar viciado. Em casa, só queria usar roupa de saco. As pessoas começaram a chamar- me ‘maluco’. Na escola, para não espantar os colegas, só usava a meia de saco. Chamavam-me maluco, mas eu estava focado no meu objectivo”, revelou, descontraidamente. Nem com o desenrolar do tempo desistiu, até que evoluiu para as saias de saco. Por essa razão, foi várias vezes tratado por homossexual, porém nunca se deixou levar. Em seguida criou o “partes-cor-no”, nome vulgar da camisola interior que cobre o tronco.

“Uma vez, não tinha roupas para ir a uma actividade. Os meus amigos disseram-me para vestir roupas bonitas. Pensei em usar algo diferente, então usei roupa de saco. Posto lá criei pânico. As pessoas começaram a seguir-me. Ao contrário dos outros, que julgavam vestir as melhores roupas”, conta. Com esse episódio, Ti Saco revela que tinha como missão passar a difundir mais o seu trabalho. Na sequência, encontrou uma menina com cerca de 400 seguidores na rede social Facebook. De seguida, enviou-lhe uma mensagem a solicitar que postasse uma mostra do seu trabalho. “Lembro-me que foi um saco branco e num dia a foto alcançou cerca de 1000 gostos. Isso em finais de 2017. Em 2018, a ‘febre’ pegou. Muita gente foi usando, até brasileiros e portugueses usaram. Uma das coisas que me fez usar roupas de saco foram as dificuldades da vida”, lamentou.