Yuri Quixina: “O OGE continua a ser muito político, menos técnico e com pouca visão de longo prazo”

O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, prevê um crescimento económico de 1,8% em 2019, ao contrário da previsão do OGE/19, de 2,8%. Entretanto, receia que a ‘Operação Resgate’ falhe por ser demasiado alargada. Siga a análise dos temas económicos da semana do Economia Real da Rádio Mais.

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

Arrancou ontem a ‘Operação Regaste’ que visa repor a ordem pública e combater diversos crimes. Que resultados espera?

A ordem e a tranquilidade é muito importante para qualquer país. Mas acho que o âmbito da operação é muito alargado, inclui venda ambulante, criminalidade organizada, é um pacote muito grande. Penso que a deficiência dessa operação está na perspectiva de não ter um foco. Quando você não tem um foco também não tem um estudo e para dar resposta é muito complicado e dificilmente se consegue combater, porque estão muito ligados aos problemas sociais. O caso da venda ambulante, por exemplo, devia ser abordado de forma estrutural, porque o mercado informal é o que mais emprega. Estamos a combater um problema cultural. Desde 1975 que a venda ambulante é feita no país, no partido único havia corrida, mas as pessoas continuaram a vender. A única forma de combater a venda ambulante é através do crescimento económico, formação e emprego.

Mas temos de esperar crescimento económico para evitar vendas nas pedonais, por exemplo?

A venda nas pedonais está ligada às necessidades das pessoas. Há quem vive apenas com 500 Kwanzas e, às vezes, as senhoras vão em busca de 100 Kwanzas de lucro, para comprar um chá, um quilo de arroz… Enquanto atacarmos as consequências e não as causas, será difícil combater os problemas, porque onde sai a água não há recipiente e estamos a colocar a banheira onde tudo está alagado. Devia ser feito um estudo, colocar sociólogos e outros académicos a fazerem um estudo profundo, particularmente sobre a zunga. Zunga é cultura, eu já fui zungueiro, a minha mãe foi zungueira. Agora, crimes organizados é outra coisa, devem ser combatidos.

A proposta de OGE/19 já está na Assembleia Nacional e prevê um crescimento de 2,8%. Qual é o seu parecer na generalidade?

O Orçamento Geral do Estado continua a ser um documento muito político, menos técnico e com pouca visão de longo prazo. É um orçamento que não seguiu os pressupostos do actual cenário da crise, pensou-se mais nas receitas e no aumento das despesas. Quando se define o preço médio do barril do petróleo a 68 dólares, é sinónimo de um orçamento não virado para a poupança e acredita-se que o petróleo chegue a 100 dólares. O orçamento devia ser de poupança e com o preço médio do petróleo abaixo de 50 dólares.

O argumento decorre da previsão do FMI de 72 dólares…

Não podemos andar com base no que o FMI diz, o FMI tem os seus interesses, nós é que devemos fazer crescer a economia. O interesse do Fundo não é desenvolver os países, são os próprios cidadãos. O orçamento demonstra que pretendemos viver além das nossas posses. Relativamente à previsão, não acredito que a economia cresça 2,8%, mas mesmo crescendo a este ritmo é por demais reduzido, porque do ponto de vista da população continuamos a crescer acima desse rácio.

Com esse crescimento consegue-se relançar a produção e estabilizar a economia? São os dois principais objectivos do OGE.

Relança-se o sector produtivo através do sector privado, que benefícios esse orçamento traz para o sector privado? Se você vai aumentar a carga dos descontos para a segurança social, que vai incidir sobre os subsídios, se você vai introduzir o IVA e aumentar os salários, que espaço de manobra resta às empresas privadas?

A Economist Intelligence alerta que o aumento da dívida de Angola pode contrair o investimento directo estrangeiro. Com evitar isso?

A Economist Intelligence Unit entende que, levando em conta a trajectória da taxa de juros do próximo ano, que será de crescimento, a taxa de juros dos países endividados poderá crescer, como é o caso de Angola. E acredita-se que países muito endividados tendem a retrair o investimento directo estrangeiro, porque os investidores não investem num país com dívida acima de 70 a 80% do PIB, com um crescimento abaixo de 4%, sobretudo um país subdesenvolvido, porque corre o risco de endividar-se para pagar dívida. Entretanto, aposto que no próximo ano vamos crescer muito baixo, na ordem de 1,5% a 1,8%, em função das políticas keynesianas de curto prazo.

Como sustenta essa sua previsão?

Primeiro, porque vamos aumentar os salários sem produtividade, já está aprovado. Segundo, perspectiva-se relançar a agricultura sem alterar os processos. Não é só a falta de estradas que inviabiliza a agricultura, porque há países que têm estradas boas e terras aráveis, mas não são produtivos. O problema reside nos processos e princípios, a forma como envolvemos e incentivamos os investidores privados nesse sector. O Estado deve acelerar as privatizações, porque podem ser o motor da economia angolana. Não consigo ver a economia angolana com uma outra cara sem privatizar.