Cerca de 300 caixões “caem nas malhas” da Operação Resgate

Cerca de 300 caixões vazios, dos quais dois aparentemente usados, foram encontrados ontem num quintal localizado nas proximidades do canal do Kikuxi, município de Viana, em Luanda.

Uma equipa conjunta, constituída por efectivos da Polícia e funcionários da Administração local, se deparou com os caixões no momento em que procediam ao desmantelamento de um grupo de supostos garimpeiros de água, no âmbito da Operação Resgate, por volta das 10h30. A chegada das autoridades ao recinto, que não tem nome, não surpreendeu os seguranças que aparentavam já ter conhecimento prévio de que, a qualquer momento haveriam de receber tal visita.

Não havia nenhum camião a abastecer, apenas alguns estacionados e quatro funcionários, entre os quais Hermenegildo Matos, o gerente. O jovem, que acabou sendo detido preventivamente em companhia dos seus colegas, procurou demarcar-se dos caixões, alegando trabalhar no garimpo de água apenas há quatro dias, “mas sei que esse trabalho da água dura há já um mês”. Em sua defesa, contou que sempre trabalhou para as Organizações Baudilho, a empresa que o indicou para exercer essas funções neste recinto. “Os armazéns de caixões não têm nada a ver comigo. Apenas fui nomeado há quatro dias para trabalhar como gerente no que concerne a água”, afirmou.

Acrescentou de seguida: “sei que estes caixões pertencem a alguns cidadãos chineses que têm uma parceria com as Forças Armadas”. Quanto ao garimpo de água, Hermenegildo Matos negou as acusações feitas pela Empresa Pública de Águas de Luanda (EPAL), esclarecendo que não só foram credenciados por essa empresa, a quém solicitaram a licença antes de começarem a sua actividade, como foram os seus próprios técnicos que fizeram a ligação e montagem dos contadores para a água bruta. “Os homens da EPAL vieram fazer ligação e montar o contador para contagem da água bruta que transformamos em potável, através de algumas máquinas que temos”, afirmou. Fez saber que um grupo de chineses tinha uma fábrica no local que fazia os caixões e os fornecia tanto às Forças Armadas Angolanas como a algumas empresas. “Eles tinham a fábrica aqui, mas depois que começamos a vender água pediu-se que se retirasssem, e assim aconteceu. Foi lhes foi dado um outro terreno em Cacuaco, para levaram todas as máquinas e continuam a fabricar. Neste momento, os caixões estão a ser transportados para tal local”, contou. Os funcionários dizem suspeitar que os cidadãos asiáticos que estão envolvidos no garimpo de água terão sido previamente avisados da visita, por não comparecerem no seu local de serviço há sensivelmente quatro dias. Alguns dos quais abandonaram os seus pertences.

Empresa sem identificação e de origem duvidosa

Por sua vez, o director municipal de Energia e Água da Administração de Viana, José António, explicou que a acção se enquadra no âmbito da “Operação Resgate” e reforça um leque de acções que têm sido realizadas por uma equipa multissectorial de combate às actividades ilícitas referentes à distribuição de água potável. “Detectamos esta empresa, que não tinha nenhuma identificação no local, faz uma mistura desequilibrada entre a produção de caixões e a produção de ‘água potável’, que não consideramos potável”, frisou. Acrescentou de seguida que não a consideram porque as condições de produção da mesma são bastante duvidosas. Não há higiene no local, é uma desarrumação total, além da elevada quantidade de lixo à volta.

“Com a agravante de estar a ser realizada neste local uma actividade ilícita clandestina de produção de caixões e outros produtos químicos que podem interferir com a qualidade da água”, disse. José António justificou que após a detenção dos quatro cidadãos nacionais que lá trabalham, entrariam em contacto com a proprietária ou proprietário do estabelecimento para os esclarecimentos que se impõem junto das autoridades. As cinco viaturas encontradas no mesmo espaço, que supostamente fazem a transportação da água para comercializar, foram retidas pelas forças da ordem. A nossa equipa pôde constatar que os tanques usados para a recepção da água bruta a partir do canal do Kikuxi e os tanques de armazenamento de água alegadamente tratada para a venda aos caminhões não estão em condições para que tal água seja consumida. Segundo José António, há indícios de que os utentes deste recinto fazem contrabando de pele de animais, assunto a que os órgãos especializados darão o devido tratamento. “Nós vamos prosseguir com o objectivo de assegurar à nossa população o fornecimento de água potável, com a qualidade que se exige”, garantiu. Por outro lado, pediu a colaboração dos munícipes, e não só, denunciando todos os locais onde existem indícios de prática dessa actividade para que sejam combatidas, no sentido de se repor a segurança dos populares.

“Viana é município com fortes índices de garimpo de água”

O director de Energia e Águas de Viana reconheceu que na sua área de jurisdição existe um elevado índices de garimpo de água, Pelo município passa uma das fontes hídricas mais representativas do país, o rio Cuanza. “É a área mais próxima do principal centro urbano, que é Luanda”. Disse ser deste município que sai a maior quantidade de água que abastece a capital do país, o que faz com que se torne num ponto favorável a este tipo de prática. No entanto, garante que estão vigilantes e a dar resposta a talsituação, procurando normalizar e regularizar para que a população consuma, de facto, água potável e não duvidosa. Reconheceu que algumas pessoas, por carência, têm adquirido tal líquido por falta de cautela, o que pode provocar, a breve prazo, algum problema de saúde.

“O que constatamos aqui é um cenário deprimente, porque há uma mistura de produção de caixões e água. Por isso estamos à espera dos verdadeiros proprietários para esclarecermos tudo”, disse. O uso da água do canal para o cultivo de plantas decorativas nas sus margens, sem o consentimento da empresa de águas de Luanda, constitui outra infracção que os técnicos constactaram. Essa actividade gera centenas de postos de trabalho e, consequentemente, o sustento de diversas famílias. Ao longo do canal, existem outras ligações feitas sem o consentimento das autoridades, para a lavagem de viaturas em locais impróprios. Algumas donas de casa deslocam-se diariamente a estes pontos para lavarem a roupa e as crianças, por sua vez, mergulham descontraidamente no canal. Para muitos o canal funciona como um rio com pouca corrente e sem grande profundidade. Há ainda quem aproveite a pescar no canal.