Frei Joaquim Hangalo: ‘O governo do MPLA é como uma víbora que engole a própria cauda’

O momento sociopolítico, marcado pelas detenções de vários dirigentes do país, tem estado a levantar diferentes opiniões nos mais variados estratos da sociedade, merecendo nesta entrevista, concedida em exclusivo a OPAÍS, a abordagem do responsável do departamento de Informática da Cúria Geral da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos em Roma e docente universitário, frei Joaquim Hangalo

Por: João Katombela na Huíla

O Governo está a levar a cabo uma política de combate à corrupção e a impunidade, que está a resultar na detenção de vários dirigentes, qual é a apreciação que faz sobre este assunto?

Na realidade, o problema aqui é de Governo, é uma questão de saber que tipo de Governo nós temos! Por exemplo, aqui em Angola fala-se de democracia, mas eu digo que em Angola não existe uma democracia!

Nós temos o mesmo Governo que foi comunista/socialista, que depois transmutou-se para um Governo democrático, mais que tipo de democracia?

Era importante que que se moderasse primeiro uma democracia angolana, partindo daquilo que são as tradições deste povo, porque não existe uma democracia genérica. Não existe uma democracia europeia. Existe uma democracia suíça, existe uma democracia italiana, francesa, existe uma democracia americana e qual é a democracia angolana? Os comunistas converteram-se em democratas?

Os gestores públicos são do mesmo partido que governa o país há mais de 40 anos e hoje estão a ser detidos acusados de serem ladrões, a questão que se coloca é: qual é o objectivo das detenções? Do ponto de vista jurídico há uma resposta, é uma sanção que se aplica em função do crime cometido, mas do ponto de vista social essas detenções não interessam! Ao povo interessaria que o dinheiro desviado fosse restituído ao Estado e aplicado em projectos sociais. Mas com as detenções destes dirigentes e a sua prisão, o Governo gasta mais recursos com a sua alimentação e assistência médica na cadeia.

Não acha que a prisão destes dirigentes é uma das medidas do combate à corrupção e a impunidade?

O combate à corrupção e à impunidade é agradável, mas até agora não temos nenhum condenado, são todas prisões preventivas e as prisões preventivas não significam que as pessoas são condenadas. E mesmo que fossem condenadas, as suas prisões não interessam a ninguém. O que interessa é saber onde andam os bens desviados e resgatá-los. Aliás, estes dirigentes são do partido que governa.

Sabe-se que Angola nunca foi governada por um outro partido, foi sempre governada pelo MPLA, partido que criou os corruptos, agora é o Governo do mesmo partido que está a apreender estes corruptos, não será que esse problema é do partido? Não será que este partido deveria demitir-se do trabalho de governar Angola? Isso por quê? Por que é que o partido MPLA criou os corruptos e hoje está a apreender os corruptos criados por si? O Governo do MPLA é como uma víbora que está a engolir a propiá cauda.

A questão que se coloca é: será que esta víbora vai engolir a própria cauda até se afogar, ou, num certo momento, a víbora vai dar conta de que está engolir a cauda e vai cuspir e vamos continuar com a mesma víbora? Esta é a grande questão.

Na História da humanidade, não existe nenhum registo de um partido que lutou contra si mesmo e sobreviveu. Eu penso que o MPLA tem consciência disso, o MPLA não se quer combater a si mesmo.

Lutar contra a corrupção e a impunidade é bom, mas quem são os corruptos?

São os do MPLA, partido que ainda governa o país. Aparentemente é um bom trabalho que está a ser feito, mas esse trabalho deveria ter sido feito já há muito tempo, porque as leis existem há muito tempo, ou será que o Governo do MPLA viveu uma época de hibernação que não dava conta das leis?

Não existem novas leis em Angola e é o mesmo partido que governa Angola, se esse partido não deu conta das leis criadas por si, é estranho que hoje queira passar por messias, queira passar por salvador do povo. Essa luta contra a corrupção e a impunidade apresenta muitas brechas para dúvidas. Veja, por exemplo, que o ex-governador da província da Huíla está arrolado em vários processo de peculato, isso é de domínio publico, mas foi empossado como deputado do partido que quer combater a corrupção.

Como avalia a actuação da Procuradoria-Geral da República (PGR) nesse processo?

A actuação da PGR afigura-se como um teatro. Para provar isso não precisamos recuar 20 anos. Recuamos um ano atrás, durante a realização das eleições, os partidos da oposição apresentaram muitas reclamações, os partidos políticos apresentaram provas de irregularidades, onde estava a PGR? Por quê a PGR hoje não faz uma investigação efectiva sobre o processo eleitoral em Angola? Se estes partidos políticos acusaram falsamente, deveriam ter sido processados judicialmente, porque aquele que acusa falsamente deve ser levado ao tribunal para ser acusado de falso testemunho ou difamação!

Eu não via nenhum partido acusado de falsos testemunhos, mas também não
existe nenhuma investigação da PGR a dizer que houve efectivamente irregularidades, por isso é que não me entusiasmo com a prisão destes dirigentes, porque a sociedade não está interessada na prisão de ninguém, está interessada que em Angola haja transparência e coerência. É preciso saber que a democracia é o Governo dos doutos, inteligentes e virtuosos.

A virtude pública e a sabedoria é que faz com que um povo saiba construir a democracia e nela é preciso transparência. Existe a paródia o “Triunfo dos porcos”, uma grande critica ao comunismo feita nos anos 70, onde consta o que está a acontecer actualmente em Angola. No “Triunfo dos Porcos” consta que todos são iguais perante a lei, mas alguns são mais iguais do que os outros! Neste momento, possivelmente como no passado, a PGR continua a ser usada, porque não é verdade que a PGR seja completamente autónoma e independente, não é verdade que os investigadores fazem as suas investigações sem a intervenção do partido no poder.

Por isso, eu digo que a PGR está a ser usada para passar uma imagem que não agrada em nada ao povo, senão como está o processo de Manuel Vicente? Não vale? Está prescrito? Será que as acusações feitas pela justiça portuguesa são falsas? Em que devemos acreditar. Este ano temos a Operação Resgate.

Quais serão os benefícios da mesma para a sociedade?

Esta operação é um desastre de pensamento e de visão. Veja que a mesma começou recentemente e um pouco por todo o país, já começam a surgir lamentações da falta de transporte, porque os taxistas têm de cumprir regras espontâneas, porque o Governo não colocou na via transportes públicos. Se a Operação Resgate tem por finalidade organizar a sociedade, que se organize devagar dialogando com o povo, se se quiser organizar o comércio, é necessário dotar o país de uma capacidade produtiva, porque o Governo não criou condições para que as pessoas saiam das ruas! Esse Governo não vai poder dar emprego para todos, afinal não é o Governo que deve criar empregos.

Quem cria emprego são os investidores, por isso é que o Governo atrai investidores para o país.
Qual deveria ser a actuação do Governo para organizar o país nesta fase? O Governo deveria preocupar-se em fazer o seu trabalho! E o trabalho do Governo qual é?

Neste momento o que interessa para o país é ter hospitais que funcionem e não hospitais de morte e ter educação. Não existe futuro de um país sem educação, o diferencial discriminante social no futuro das sociedades é a instrução, é por isso que o Governo deve voltar a colocar a instrução gratuita em condições, as escolas e os hospitais devem funcionar em condições e, depois, tudo se organiza quase que automaticamente.

O povo angolano é pacífico e bom, é um povo que ouve e que não é rebelde, é preciso que o Governo crie agentes sociais que dialoguem com o povo para ver que tipo de Governo o povo quer, depois dai criar programas que vão de encontro às necessidades sociais. Este Governo deve procurar aquilo que na doutrina social da Igreja chamamos de bem comum, que consiste na criação de condições que a sociedade cria para que cada um dos membros da sua comunidade se realize com satisfação e sem grandes dificuldades.

Como académico, qual deveria ser o contributo das universidades nos programas do Governo?

As universidades em Angola, com todas as críticas que se podem fazer, ainda continuam a ser o reservatório de conhecimento que ficou neste país. Nós vivemos uma época, a chamada época da pós-verdade, e o presidente americano Trump é o protótipo da pós-verdade! A pós-verdade é um quadro discursivo onde os factos não contam e faz-se mais apelo às emoções. Então, as universidades e os institutos superiores teriam um grande papel criando um debate público e aberto, ou seja, as universidades devem ajudar os estudantes a ter um pensamento livre e crítico.

Quando digo crítico não é estar contra, mas sim saber fazer as considerações necessárias sobre os factos, com objectividade, fazer análises, para quem é do MPLA, por exemplo, esta abordagem que eu fiz poderá pensar que são criticas ao partido, mas se analisar com tranquilidade vai perceber que apenas são análises objectivas tendo em conta os factos reais, não tendo em conta os interesses endógenos-partidários, pois em Angola ainda se falta à verdade em defesa das cores do partido.

Primeiro, precisamos de despartidarizar as mentes e nisso as universidades poderiam fazer um grande papel, pois devem ajudar a sociedade a pensar com liberdade. Em Angola não se pode pensar apenas como MPLA, UNITA ou CASA-CE, deve-se pensar como angolano, porque os partidos políticos devem estar ao serviço da nação angolana, se não estão ao serviço da nação angolana têm todo o direito e mesmo dever de desaparecer.