De Portugal vem tudo

A relação bilateral entre Angola e Portugal não se limita as relações diplomáticas formais, existe uma espécie de élan que, volta e meia, traz à tona um conjunto de sentimentos e ressentimentos que cria um verdadeiro “irritante” entre os dois Estados.

Do lado lá, há sempre o ressentimento por existir uma frontal resistência por parte da política externa do governo angolano em ceder face a determinadas causas, valores, princípios e interesses vindos de certos sectores e grupos de interesse bem posicionados politica e economicamente.

Do lado cá, alguns grupos de interesse económico e também politicamente bem posicionados deram preferência a parceiros de Portugal, optaram por investir e alocar as suas poupanças económicas maioritariamente em Portugal. Portanto, apesar de existir um fluxo intenso de pessoas e bens entre os dois países, a justiça aos números das importações e exportações entre os dois Estados mostra uma clara vantagem para Portugal porque daquele país vem tudo, desde a prestação de serviços, maquinas e aparelhos, passando pelo vestuário e utensílios até produtos alimentares agrícolas e conservas, para não falar de água e bebidas espirituosas que também marcam uma presença assinalável no mercado angolano.

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) de Portugal “em 2017 assistiu-se uma recuperação de cerca de 19,1% das exportações portuguesas para Angola face ao ano anterior, de €1.502 milhões, em 2016, para € 1.789 milhões em 2017.

Também o peso do mercado angolano no comércio português extracomunitário aumentou de 12.1% em 2016 para 12.5% em 2017. Os principais grupos de produtos exportados para Angola continuam a ser as maquinas e aparelhos (€437.8 milhões), seguidos dos produtos agrícolas (€ 282.9 milhões) e dos produtos alimentares (€196.5 milhões).

Estes quatro grupos de produtos perfi zeram 62.8% do total das mercadorias exportadas por Portugal para o mercado angolano. No que concerne às importações portuguesas provenientes de Angola, elas sofreram, em 2017, um decréscimo, desta feita de 65.6% face ao ano anterior, passando o respectivo valor de €809,8 milhões em 2016, para € 278,2 milhões, em 2017.

O peso deste indicador baixou também, de 6,0%, em 2016, para 1,7% em 2017, do total das compras de Portugal aos mercados extracomunitários”. Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) de Angola, as importações nacionais foram lideradas pela Europa até ao último trimestre de 2017, com 39, 9% do total das importações, seguindo-lhe a Ásia com 35,8%, os continentes africano e americano (América Central e do Sul) aparecem em terceiro e quarto lugar com 13,2 % e 6,1%, respetivamente.

Portugal aparece como principal exportador para Angola com 18,3% do total das importações nacionais, sendo seguido pela China com 15% e, em terceiro lugar a Bélgica com 6,3%, este último país é um facto que passa despercebido a maioria dos analistas económicos já que se ouve falar muito pouco do Reino da Bélgica. Relativamente ao número de pessoas residentes em cada um dos países, os números também cresceram apesar das estatísticas serem enviesadas levando em consideração a dupla nacionalidade que muitos cidadãos possuem do lado cá e de lá e, como se sabe, os possuidores da dupla nacionalidade, em especial entre Portugal e Angola, usam-na como cidadania de conveniência, ou seja, estando em Portugal afirmam-se como portugueses e postos em Angola são angolanos, portanto o número exato de cidadão residentes em cada país nunca é fidedigno, para além da natureza do espaço Schengen que faz com muitos cidadãos peçam o visto nos consulados de Portugal em Luanda e em Benguela, mas viajem para outros Estados da União Europeia.

No que concerne as remessas financeiras de emigrantes, Portugal também sai em vantagem com um valor de € 245 milhões de euros em 2017, um aumento de 18,9%, comparativamente aos últimos quatro anos. Já as remessas que emigrantes angolanos a trabalhar em Portugal enviaram para Angola caiu em 50%, descendo de € 1,73 milhões, em Novembro de 2016, para € 870 mil no mesmo período de 2017 (Banco de Portugal, Janeiro 2018).

Pelos dados acima apresentados, a cooperação é mais benéfica para Portugal e os acordos e protocolos assinados entre os dois Estado consolidam essa cooperação. Há necessidade de se criar uma estratégia de cooperação que equilibre ambas balanças comerciais.

Angola tem que criar incentivos específicos para que os empresários de Portugal possam produzir em Angola, os produtos que exportam de Portugal como por exemplo os produtos agrícolas e alimentares. Por outro lado, A assistência técnica e administrativa tem que se intensificar na modalidade de um cooperantes e quatro cidadãos nacionais no mesmo dossier para que a transferência de know-how possa realmente se efectivar.

Angola deverá dar mais apoio aos emigrantes em Portugal de modo a permitir uma melhor inserção económica e social, assim como intensificar a diplomacia cultural e desportiva através da complementaridade.

A firmeza nos princípios da política externa nacional deve continuar permitindo maior abertura nas negociações. É necessário intensificar a cooperação no sector da educação, sobretudo da língua portuguesa no ensino primário e secundário.

Se Portugal é o Carrefour dos angolanos no continente europeu, Angola é a Caixa de Portugal no espaço extracomunitário, ultrapassada apenas pelos EUA como destino das exportações dos produtos de Portugal. É caso para dizer que os dois Estados estão atados um ao outro porque de Portugal vem tudo.