Pelo tempo de uma semana, andei por São Paulo, a grande metrópole brasileira de dezoito (dizem uns) ou vinte milhões de habitantes (dizem outros), a tentar perceber como se consegue sobreviver à gigantesca força centrífuga que se abate sobre um monstrão de argamassa e caos humano como aquele.Chega a fazer rir a capacidade que São Paulo exibe de se tornar impossível, doidona, insubmissa, com aquilo tudo que ela foi capaz de reunir e insistir na ideia de que continua a ser cidade e, pior, lugar habitável. Eu, com um pouco mais de liberdade poética, chamava-lhe “infinito mar revolto em terra firme”, para que não ficasse por abarcar nenhuma das suas loucuras nascidas com a mania de ser imensa.

Uns quantos dias naquela babélica vida e já sinto que preciso de um estágio formatador para voltar a ser o mesmo. A começar pelo hotel, onde, mal cheguei a uma hora indecente de as pessoas brigarem com os últimos sonos, aprendi logo a rever o que por cá nos dizem amiúde ser turismo. No lobby, gente barulhenta e com mil sorrisos para partilhar, vestida levemente para não parecer os burocratas que não era, deu logo a perceber que faz parte do que as estatísticas sérias referem como animadores do turismo interno. Longe do sossego do hotel, no caso o Tryp Nações Unidas ali para os lados do Morumbi, foi um aprendizado magnífico a travessia das mil e quinhentas ruas e avenidas para chegar ao Mercado Municipal de São Paulo.

Na verdade, aprendizado tanto a ir como no regresso, sempre às mãos de diligentes taxistas, em princípio os únicos anfitriões com hipóteses de merecerem o nosso crédito numa cidade povoada por enxames de bandoleiros, que tão de repente se evadem de cadeias de alta segurança, como, num ápice, roubam sob ameaça de revólver a carripana que outro da estirpe surripiara meio quilómetro atrás. Em cidades que não são de confiar, como os próprios paulistas nos pedem que consideremos a sua, o ponto de equilíbrio para que o medo da rua não nos enlouqueça é a inteligência de nunca tentar saídas solitárias.

A minha força eram o Paulo Barros e o Gaudêncio Galiano; para cada um deles, eu e o outro fazíamos esse papel de garantia protectora, que no entanto um corpulento descendente de italianos ao volante de um táxi há década e meia anulou, em dois tempos, com uma frase irrevogável: «hoje em dia, nem tamanho nem número de acompanhantes servem para alguma coisa: basta o bandido ter uma pistola na mão!». A caminho do Mercadão, o que São Paulo tem de notável é o caleidoscópico mapa de incidências, que vai desde a quase certeza de que o motoqueiro que vem lá será certamente o «artista » daquele assalto que dali a pouco estará nas televisões, à satisfação secreta que nos enche a alma olhando para as margens do asfalto cheias de terra fértil.

Vê-se, pelo vidro lateral do táxi, que há fertilidade abundante por aí, que aquele betão descomunal que se acumulou por séculos naquele ponto da geografia matou o sonho sensacional de se ter ali Agricultura orgânica que alimentaria milhões. Mas, logo a seguir, censuro-me nas minhas elucubrações de cultivador de terras, sempre à espreita do que pode haver de fértil ao redor, porque é escusado atacar com idealismos ecológicos e naífes as megatoneladas de cimento, ferro e caos de que foi feita a maior cidade da América Latina. São Paulo é infi nita em tudo. A linha do horizonte há muito se perdeu e as noites de lua à mostra já só pertencem aos românticos caçadores de mistérios da Astronomia com os seus telescópios plantados em terraços para arrojados que resistem às alturas e seus síndromas.

Mas é no meio desse bosque surreal que a vida flui, apesar das ameaças múltiplas. Da minha colheita, sempre encolhida e tímida quando é Brasil que visito, ficou-me o frenesi do Mercado Municipal de São Paulo, uma síntese quase perfeita do melhor que o país (ainda) conserva de vida real. A fantasia e a novela, muito fortes havendo políticos por perto, dominam Brasília e o Rio de Janeiro, com os «impeachments» talhados a régua e esquadro e os «lava jactos » do mergulho no lamaçal de uma corrupção que, como desporto nacional, vai rivalizando com o futebol e o Carnaval. No Mercadão, para consolo e desagravo, ainda se descobre o velho Brasil dos caboclos, dos emigrantes fugidos da Europa para refazer vidas esfrangalhadas e das enormes extensões de terra que misturam rebanhos a lembrar picanha à mesa com o triunfal exotismo das frutas de nomes impronunciáveis: rambutão, jabuticaba, kiwano, sapoti, cupuaçu…

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