A compositora e cantora norte-americana de ascendência timorense Jen Shyu é uma das vencedoras da edição deste ano dos Prémios Doris Duke, um programa que reconhece o potencial de artistas e garante a sua futura viabilidade. Iniciativa da Duke Charitable Foundation em parceria com a Creative Capital, os Prémios Doris Duke Performing Artist pretende “capacitar, investir e celebrar” os artistas, oferecendo-lhes financiamento num mercado onde conseguir apoios é difícil.

Lançado em 2011 o programa apoia artistas nas áreas de dança contemporânea, teatro, jazz e outros trabalhos interdisciplinares relacionados, concedendo a cada um 250 mil dólares. “Os apoios não estão condicionados a nenhum projecto específico mas pretende aprofundar investimentos no desenvolvimento pessoal e profissional e no futuro trabalho dos artistas”, explica a Duke Foundation.

Jen Shyu já no passado tinha recebido um prémio da fundação, o Doris Duke Impact Awards (no valor de 80 mil dólares). Filha de pai taiwanês e mãe timorense, Shyu é uma vocalista de jazz experimental e uma multiinstrumentista que canta em inglês, coreano, indonésio e tétum – é fluente em mandarim, português e espanhol.

No ano passado lançou “Sounds and Cries of the World”, que como explicou à Lusa foi influenciado por sonhos de Timor-Leste, um cabaz de experiências musicais do continente asiático e uma viagem às raízes da sua família timorense. Já no passado Shyu tinha mergulhado no mundo lusófono, com a poesia da brasileira Patrícia Magalhães a marcar o álbum “Inner Chapters”, maioritariamente cantado em português. Em entrevista no ano passado, Jen Shyu recordou a sua primeira visita a Timor-Leste, em 2010, os sonhos que a marcaram durante essa estadia de três meses – “escrevia- os de manhã, ao acordar” – e a influência das viagens musicais que tem feito.

“Tornou-se um aspecto central do meu processo criativo. Estudo música tradicional e tradição como compositora que respeita e honra essa linguagem. Cada vez mais músicos de jazz mergulham nesta linguagem tradicional, que incorporam na sua sonorização”, explicou. Praticamente todos os temas do álbum são directamente influenciados pela sua visita a Timor- Leste, ecoando os seus sonhos e os de uma artista timorense, a Kiki Zelara, que integra o colectivo artístico timorense Arte Moris.

A influência timorense no álbum estende-se à capa que é uma pintura de Maria Madeira, uma artista timorense residente na Austrália e reflete até passagens do extenso relatório da Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação (CAVR) timorense. “Song for Naldo” é um dos exemplos mais poderosos, recordando na letra a tortura a que os timorenses foram sujeitos e retratando os sonhos que Jen Shyu construiu, de forma quase orgânica, compondo letra e música ao mesmo tempo, ao som do Gatkim, uma “Guitarra da Lua” taiwanesa.

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