joana vicenteA 10 de Março de 1920 nasceu Joana Vicente. É originária de uma família que habitava a já desaparecida Ilha do Bimbi, na região litoral sul de Luanda. Ali cresceu guiada pelos seus pais Vicente José e Bernarda Francisco. Aprendeu a conviver com os perigos do mar que, em certas alturas, trazia as calemas que produziam estragos consideráveis.

O avanço do mar fez deslocar a sua comunidade para novos territórios provocando a dispersão de parte do espólio original e dos fundamentos fi losófi cos, práticas, usos e costumes mas, ao mesmo tempo, abriu novos espaços para a sua difusão.

Entre os anos trinta e quarenta, Joana Vicente, ainda adolescente, começa a despontar com certa notoriedade pelo seu carácter destemido e pela facilidade que demonstrava para reunir a sua volta rapazes e raparigas com talento para as artes. Foi deste modo que ganha o criptónimo “Kota”. Pessoa mais velha. Líder. Disciplinadora.

Conciliadora e também resoluta. Progressista e irreverente ao ponto de não admitir, já naquela época, qualquer tipo de agressão física intentada pelos rapazes, a si ou a um dos seus protegidos. Muitos que tentaram ou se julgaram serem capazes de a derrubar no confronto físico tiveram que reunir energias extra e colocaram-se em fuga, para escapar da sua surpreendente “baçula” e do sufocante “cafrique” aplicado com mestria.

No bairro do 50, para onde foi morar após saída forçosa da Ilha do Bimbi, foi um dos esteios dos movimentos culturais. Num misto de promoção das tradições dos seus ancestrais e da busca de inoções combinadas com a resistência a aculturação, impulsionou a criação de grupos carnavalescos e outro tipo de agremiações artísticas. Em 1942, nasce a sua primeira filha. Este acontecimento levalhe a assumir a condição de provedora.

Juntando-se a um grupo de mulheres da sua comunidade organizaram uma espécie de cooperativa de peixeiras. Durante anos, partiam todos os dias, manhã cedo, para o Porto Pesqueiro, na altura localizado na Antiga Muralha, defronte a actual sede do Banco Nacional de Angola.

O camionista António Feio tinha a tarefa diária de as transportar de casa para a Muralha e de lá para o mercado do Xamavo. O regresso a casa era feito em grande estilo no táxi dirigido pelo “chauff eur de praça” António. Um cidadão Português despido de preconceitos que, de tão familiarizado com aquelas peixeiras, não se inibia de agraciar os petizes destas com um passeio de descontração até a zona da Corimba, devolvendo- os em seguida ao bairro do 50.

Joana Vicente e suas companheiras conquistavam assim, ainda na era colonial, a sua emancipação, sem alterar contudo os preceitos culturais enraizados na sua essência espiritual e material. Pressupõe dizer que, elas há muito despertaram para se situarem num patamar de equidade, rompendo barreiras e liderando o ambiente social da sua comunidade. Aos 97 anos, Joana Vicente continua a transmitir esse mesmo espírito de auto-determinação.

Aliás, ela sempre se adaptou às transformações e inovações. Convive bem com os novos sistemas de comunicação, tem um gosto especial pelas telenovelas. Segueas com interesse e empolgação. Consegue vaticinar a sequência lógica da trama e distingue com impressionante facilidade as cenas mal interpretadas ou exageradamente irreais. Talvez pela sua virtuosidade artística e apesar de já ter netos, bisnetos, trisnetos e tetranetos, ela não gosta de ser chamada avó.

Entende isso como chacota. Provavelmente seja apenas uma forma de manifestar a sua contínua jovialidade e modernismo. Trazer a guisa de preito a trajectória da anciã Joana Vicente, uma mulher anónima, pode parecer para muitos um exercício inócuo, subjectivo e supérfl uo. Mas, não é bem assim.

Pois, temos todos os dias a oportunidade de tirar exemplos como este para ajudar a orientar o debate em torno das questões de empoderamento da mulher. Não nos esqueçamos que se quisermos chegar a um determinado destino precisamos olhar para trás e perceber o caminho que já percorremos.

É fundamental olhar para os sinais dos tempos e proteger para a divulgação os elementos que congregam as bases da construção da nossa memória colectiva. Joana Vicente, aos 97 anos, é uma biblioteca viva que precisamos enaltecer e rebuscar sem pejo. Ela e todas as outras que se situam nesta dimensão transcendental merecem a nossa vénia neste Março Mulher.

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