Antigo guerrilheiro do MPLA, João Ernesto dos Santos “Liberdade”, enverga a patente de general. Governa a maior província de Angola, o Moxico, sua terra natal, há uns bons anos, facto que lhe tem custado críticas e a oposição pública de alguns sectores. É o governador provincial mais antigo no exercício da função. Recebeu esta semana a equipa de OPAIS no seu gabinete, no Luena, e por 30 minutos apenas, dado o apertado tempo da sua agenda

Senhor governador, obrigado pela oportunidade, mesmo sabendo que o tempo não nos vai permitir explorar todos os pontos que agendamos. A começar, gostaria de saber que benefício trará a chegada da energia eléctrica da central de Tchihumbue Dala ao Luena?

Primeiro, gostaria, em nome do Governo provincial do Moxico, agradecer ao jornal OPAIS por ter tomado a iniciativa de nos convidar para podermos falar em linhas gerais da importância de que se reveste a hidroeléctrica do Tchiumbue e não só. Ora, Tchihumbue representa um ganho muito grande para a província do Moxico em especial. Mas é acima de tudo um ganho que se adiciona aos vários empreendimentos úteis que o Governo de Angola implementa na região e mais intensamente nos últimos Mesmo com o reforço da hidroeléctrica de Tchihumbue não teremos potência suficiente para atender a procura de energia que ocorre na cidade do Luena”15 anos de paz efectiva.

Temos que destacar que é a primeira vez que se inaugura, construído de raíz, um empreendimento deste calibre na região leste, sem esquecer que já assistimos o surgimento de outra na Lunda-sul que tem apoiado a actividade mineira de CATOCA. Penso que a hidroeléctrica de Tchihumbue representa um salto importante rumo ao desenvolvimento das duas províncias. O Moxico é o maior beneficiário porque a sua energia vai servir a própria província da Lunda-sul, precisamente o município do Dala onde se encontra situada a barragem. Portanto, resumindo numa só frase: são os ganhos da paz.

Todavia, senhor governador, parece-me que a cidade é exageradamente escura. exceptuando o perímetro onde estou alojado, aqui nos arredores do Palácio do Governo, o resto está às escuras. O que se passa? Será apenas impressão de um visitante?

Sim, é uma constatação real. Primeiro, é preciso clarificar que a cidade do Luena cresceu muito e o sistema instalado para atender a demanda não é suficiente. Refiro-me às centrais diesel Hiunday e às duas Caterpillar que não têm capacidade para cobrir as necessidades dos munícipes da cidade do Luena. É preciso referir que, para além da cidade ter crescido muito, também foram instalados vários empreendimentos e equipamentos sociais importantíssimos.

Hoje temos hospitais que requerem muita energia, escolas e outras actividades económicas aqui na cidade do Luena e na sua periferia que demandam uma grande necessidade de energia eléctrica. Portanto, mesmo com o reforço da hidroeléctrica de Tchihumbue não teremos potência suficiente para atender a procura de energia que ocorre na cidade do Luena.

Sendo assim, quais são as alternativas gizadas pelo seu governo para responder a esta procura rapidamente?

Não. Temos que ser coerentes. Neste momento, o nosso mandato esta a terminar. O programa desenvolvido entre 2013 e 2017 está no fim. Falta qualquer coisa como 4 meses. Portanto, não é hora de assumir novos compromissos, mas de balancear o que foi feito e aguardar para que na preparação do novo plano de desenvolvimento 2017- 2022, possamos, junto às áreas competentes do governo, apresentar as nossas opiniões e ideias sobre esta matéria.

O que podemos deixar como dado é que a capacidade instalada não resolve o problema do Luena. Atenção: Luena. Não estou a falar da província toda que é tão-somente a maior de Angola. Vou-lhe dar pequenos exemplos. Para a cobertura mínima da cidade capital do Moxico determinou-se que é necessária uma potência de 72 MW. Tchihumbue vai nos fornecer 11 e a capacidade instalada actualmente na cidade é de 8, portanto nem estamos na metade.

Até 2022 temos uma projecção de que as necessidades da cidade do Luena venham atingir 125 MW. Estamos a falar de uma demanda que inclui unidades agrícolas como a de Camaiangala, Sacassange e outras que estão a surgir.

Mas como dizia, estamos em final de mandato e não temos muito mais a fazer. Não gostaríamos de oferecer falsas expectativas à população. A única verdade que podemos deixar como dado adquirido é que o que temos hoje não é suficiente para atender à demanda da capital do Moxico.

Permita-me o ligeiro desvio. O senhor é o primeiro secretário do MPLA na província e deduzo que está engajado numa vitória do seu partido para que possa se manter na governação. Mesmo sem lhe levar a “oferecer o ouro ao bandido”, como se diz na gíria, podia abrir um pouco mais o jogo quanto a planos.

Ohhh! …(risos) … claro que ganhar as eleições é uma tarefa em que estamos muito engajados na nossa condição de militante do MPLA. Mas devo dizer que em 2012, durante a campanha e a apresentação do programa de governo do MPLA, nós fizemos várias promessas nos mais variados domínios da vida económica e social da província.

Prometemos construir escolas, hospitais, centros médicos, postos de saúde. Prometemos reabilitar vários itinerários e troços rodoviários, prometemos resolver o problema de falta de agua potável nas sedes municipais e comunais e povoações, prometemos levar a electricidade, numa primeira fase, às sedes municipais, etc. Muitas dessas promessas foram cumpridas, foram executadas.

Honestamente devemos admitir que outras não foram cumpridas. É sobre estas outras que devemos nos concentrar e trabalhar para que sejam endossados no próximo programa de governação. A nossa missão como partido político reside no acompanhamento permanente da acção governativa do partido que ganhou as últimas eleições.

A nossa acção tem incidido em passar uma mensagem correcta aos cidadãos que em 2012 confiaram a tarefa de governar o país ao nosso partido. Esta é a nossa tarefa do momento.

Feito o balanço, o nosso esforço está concentrado em voltar a pedir a esses eleitores e não só, que nos renovem o mandato para cumprirmos com aqueles pontos do programa que eventualmente não cumprimos. Já não é momento para novas promessas.

Mas posso abrir o jogo e dizer que para minimizar os constrangimentos de hoje é necessário construir novas mini-hídricas em vários pontos da província. Podemos citar Tchafinda no Luanguinga, município dos Bundas, no Luacano, 227 km a leste do Luena, no Izavo no Alto Zambeze, no Lumeje, precisamente nas quedas do rio com o mesmo nome, a Norte do município do Léua.

Enfim, se nós conseguíssemos nos próximos anos, ou seja no próximo mandato, concretizar algumas ou todas estas intenções, seria o ideal para criar um ambiente mais sustentável no fornecimento de energia eléctrica à província do Moxico. Aqui sim, podemos falar da província e não só da cidade do Luena.

Mas é tudo uma questão primeiro de ganhar as eleições e depois continuar de mangas arregaçadas para esta empreitada de reconstrução do país. Esta decisão vai ser endossada novamente ao eleitor este ano.

Senhor Governador devemos dar-lhe os parabéns. Luena é uma cidade que, para além do sossego, é limpa e com um transito rodoviário mais ou menos ordenado. São obra de vossa governação estes méritos?

Vocês sabem que qualquer processo que possa ocorrer tem sempre a mão de alguém. Entretanto, deve ter reparado que a cidade do Luena tem traçado diferente e que lhe favorece. Não tem águas estagnadas e nem é lamacenta. É uma cidade muito diferente das outras do país, obviamente. Apesar das dificuldades actuais temos dado o nosso apoio mínimo à Administração Municipal, mas contamos acima de tudo com a sociedade civil e trabalhamos no sentido de manter a cidade minimamente limpa.

Os órgãos do Ministério do Interior também têm estado a jogar um papel determinante no que diz respeito à regulação do trânsito. Mas devemos agradecer o facto de a cidade não ter tanta viatura como em outras partes do país. Por exemplo, a cidade de Cabinda seguramente tem mais carros que o Luena.

Aos poucos a cidade vai recebendo algum afluxo de viaturas. Portanto, o essencial neste processo são as pessoas que devem se consciencializar que devemos manter a nossa cidade minimamente em condições para receber hóspedes, assim como vocês, que queiram visitar e conhecer a cidade da paz. Estes elogios são para todos os moradores da cidade que tudo fazem para conservá-la no estado em que o senhor jornalista encontrou.

Senhor governador, o que mais temos no Moxico além do mérito de ter albergado os eventos que trouxeram a paz definitiva ao país e a sua extensão?

Não lhe parece que o Moxico volta ao prelo em vésperas do 4 de Abril e depois nada mais? Para a gente poder conhecer o território nacional precisamos de viajar. Esta é a condição chave. Costuma-se dizer que para conhecer o elefante não é necessariamente preciso ter idade. Pessoas que chegam aos 100 de vida passam por este mundo e

não chegam a conhecer o elefante. Entretanto há garotos de tenra idade que já conheceram este respeitado animal. A principal condição é viajar pelos variados itinerários e contar com uma dose de sorte e cruzar-se com o grandioso e famoso animal. Esta é uma parábola que se encaixa no espaço do Moxico.

Como disse é a maior província de Angola, mas também é subpovoada. Tem pouca população. Quando se fala dela, vem à mente das pessoas o Luena, porque foi aqui onde o governo através das Forças Armadas e as ex-forças militares da UNITA assinaram o entendimento a 31 de Março de 2002, e foi daqui que partiram para a assinatura, em Luanda, do protocolo da cessação definitiva das Hostilidades Militares em Angola.

Foi aqui onde se realizaram outras actividades que concorreram para a independência do país e tantos outros processos históricos. Mas se formos à Cangamba, encontramos uma realidade diferente. Se formos ao Alto Zambeze, idem.

O mesmo nos Bundas e no Luau. Outra particularidade, o Moxico é atravessado pelo Caminho de Ferro de Benguela(CFB) e isso fez de todo o itinerário um autêntico mosaico de variedades a todos os níveis. Fala-se do Luena porque é o costume na nossa terra as capitais terem este protagonismo.

É assim no Cuando Cubango, onde fala-se muito do Menongue, da Lunda- Sul a cidade com fama é Saurimo e idem em Malanje, etc. etc. Moxico teve um protagonismo muito grande na história da nossa libertação. Teve esta sorte porque isso podia ocorrer em qualquer outro sítio do país. Temos um legado grande como a história do Hoji-ya-Henda, do Américo Boavida, só para citar estes.

Podemos ainda falar do 15 de Maio de 1991, podemos falar do 21 de Outubro de 1974, enfim, um mosaico de acontecimentos. Mas o 4 de Abril de 2002 marcou uma viragem que levou ao reencontro dos irmãos desavindos, reunificou famílias antes separadas, começando a verdadeira reconciliação e unidade nacionais entre os angolanos pelo que é inevitável esta passagem à ribalta da efeméride. Mas, o Moxico é muito mais do que isso.

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