O mercado ressente-se da escassez de produtos da cesta básica, facto que já vem encorajando a especulação de preços. Sobre o assunto, o Presidente do Conselho de Administração do Entreposto Aduaneiro de Angola, Jofre Van-Dúnem, mostra-se optimista na alteração desse quadro, pois já há produtos a serem descarregados nos portos do Lobito e de Luanda. No entanto, não acredita numa redução de preços na ordem de 100%. Quanto ao trigo, só na última semana de Agosto. Agora os armazéns estão vazios

Uma das atribuições do Entreposto Aduaneiro de Angola é abastecer o mercado com produtos da cesta básica. No entanto, o mercado enfrenta alguma escassez desses produtos. O que se passa?

Apraz-me lembrar, que tal como em 2015, estamos a viver um quadro macroeconómico restritivo. Isso significa que o Executivo deverá continuar a implementar uma gestão rigorosa e prudente de acomodação dos desequilíbrios existentes, quer a nível monetário e cambial, quer a nível da balança de pagamentos, sobretudo no que diz respeito à balança comercial. A escassez de divisas que diminuiu drasticamente a taxa de câmbio, como factor de pressão sobre os preços, adicionado a debilidade da rede logística nacional, tem um papel importante na formação dos preços.

Falou de debilidade na rede logística. Argumente sobre essa debilidade…

A nossa rede de estradas não abrange todo o país. As nossas plataformas logísticas não estão em funcionamento. Sabemos que há um trabalho a ser feito, mas apesar de todo o esforço que o Executivo fez e está a fazer, ainda não é possível recolher a produção nacional. Importa referir que não se trata apenas de recolha. É selecionar, embalar, armazenar e distribuir. Tudo isso faz parte da rede logística que ainda não está afinada.

O Ministério dos Transportes tem estado a realizar um ciclo de Conferências que visa a implementação da rede logística nacional, sobretudo nas regiões fronteiriças. É disso que se espera?

Faz parte da estratégia. É desta forma que vamos solucionar o problema da rede logística. E esperamos que a sua implementação seja a mais rápida possível.

Voltemos à cesta básica. Aliás, é o assunto do momento. Falta trigo nos mercados formal e informal, facto que fez disparar o preço do pão. É a pressão sobre os preços a que se referiu ou vive-se um puro aproveitamento?

Neste momento em que o país enfrenta dificuldades em termos cambiais para garantir a importação de grandes quantidades de farinha de trigo, vão surgindo alguns problemas. Como sabe, a lei da procura e da oferta é o único factor que pode reger e manter o equilíbrio dos preços no mercado. E quando há escassez, tal como acontece agora, alguns especuladores vão se aproveitando da situação. E para a resolução deste problema, é preciso uma gestão criteriosa e parcimoniosa dos cambiais que o país tem disponíveis. A Associação das Indústrias Panificadoras (AIPA) apresentou uma proposta ao Executivo, proposta essa que entendo ser a mais acertada, onde consta um programa dirigido aos membros da associação, através de uma central única de compra de trigo e de todas as matérias-primas utilizadas na confecção do pão. No entanto, enquanto não haver uma central de compras, o Entreposto vai funcionar como importador da AIPA, fruto de um acordo. Aliás, o Entreposto já operou nesta condição, isso até Fevereiro, fornecendo farinha de trigo a todas as províncias do país, incluindo Cabinda. Corria tudo bem, mas a falta de cambiais não permitiu manter os níveis de importação. Em todo caso, aguardamos que o Executivo possa também dar solução a este problema.

Qual é a quantidade de trigo existente nos armazéns do Entreposto Aduaneiro de Angola?

Agora não temos e só teremos na última semana de Agosto. Há outros importadores que têm. Não posso dizer a quantidade, mas sei que há.

Falou à instantes da oferta e da procura. Acha que devia haver uma maior fiscalização que desincentivasse a especulação de preços, sobretudo do trigo?

Há alguns produtos que têm os preços vigiados, no entanto, esses produtos com preços vigiados podem ser revistos, sobretudo em altura de crise, para evitarmos a sua especulação. Todavia, as autoridades que têm a responsabilidade de fiscalizar estão no terreno e acredito que se esteja a trabalhar numa estratégia de fiscalização, pois estão a chegar produtos aos principais portos comerciais do país. Com a chegada desses produtos da cesta básica, vamos registar, acredito eu, uma redução considerável nos preços.

Os preços dos produtos da cesta básica registaram subidas na ordem de 100%. Outros muito mais ainda. Acredita numa redução mais ou menos nesta ordem?

Não acredito. A redução nunca é nesta ordem, no entanto, acredito numa redução próxima aos 50%. A título de exemplo, 10 ontem não é 10 hoje.

Sabemos que os produtos chegam através de vários importadores. Qual é a quota do Entreposto Aduaneiro?

O Entreposto tem uma quota de 10% das necessidades de consumo do país. E importa referir que só teremos produtos em Outubro.

Quais são as quantidades de produtos de que o país precisa anualmente?

Posso lhe fornecer dados, mas são os meus dados. Precisaríamos de 445 mil toneladas de açúcar anualmente, 600 mil de farinha de trigo, 400 mil de arroz, 230 mil quilolitros de óleo, um milhão de toneladas de farinha de milho, isso tendo em conta a produção nacional. Já há açúcar da Biocom, em Malanje, arroz no Cuando Cubango, e outros produtos. A reserva do Estado deverá ser feita em função da necessidade por habitante, tendo em conta o facto de sermos agora perto de 25 milhões de angolanos.

Como evitar a escassez de produtos?

É preciso manter a regularidade no fornecimento dos produtos, com particular ênfase para a farinha de trigo. Essa intermitência nos principais fornecedores leva-nos a viver o cenário marcado pela falta de trigo e especulação. E as autoridades devem intervir sempre que necessário. Importa ressalvar aqui que nem todos os agentes são especuladores. Entretanto, há aqueles que aproveitam- se da situação para ganhar mais de forma irregular.

Estamos centrados no trigo, no entanto, há escassez de produtos da cesta básica de forma geral. Quando é que este quadro será invertido?

O quadro está a beira de ser invertido, pois o Executivo está a tomar medidas neste sentido. Já foram tomadas medidas que levaram à importação de produtos da cesta básica, nomeadamente, o arroz, açúcar, o feijão, o óleo, farinha de milho e outros. Por isso, penso que a partir do mês de Outubro o quadro será diferente do actual.

Estes produtos já estão nos portos?

Alguns sim. Outros estão a chegar aos portos. Como devem saber, quando se trata de produtos da cesta básica não se pode chegar e comprar logo. Há uma série de normas a observar. É preciso encomendar, cumprir com alguma fiscalização, observar datas de fabrico e de caducidade. Por exemplo, o arroz vem da Tailândia e desse país para Angola leva-se muito tempo de viagem

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