Consultor nas áreas de Gestão e de Marketing, Júlio Cesar Furtado defende que as empresas nacionais podem ter maior sucesso desde que cumpram com todas as etapas de uma boa gestão. E sobre a crise, e as dificuldades que elas enfrentam, afirmou que resulta da falta de estratégia

Como consultor nas áreas de estratégia e de marketing, como analisa o mau momento que muitas empresas vivem, decorrente da desaceleração da economia nacional? O que lhe posso dizer em relação a isso é que muitas empresas vivem maus momentos por falta de estratégia. A crise é muito sentida por não se ter acautelado os momentos de pico, em termos de desenvolvimento estratégico, por um lado, e por outro lado, porque algumas estratégias foram mal elaboradas, isso nos mais variados níveis. Por exemplo, ao nível central?

Sim, pois sinto que não foram acautelados alguns riscos em termos de investimentos de longo prazo. Vou-lhe dar um exemplo: há um grande investimento na construção de condomínios, onde os investidores pensaram na disponibilidade financeira de acordo com os avanços no sector petrolífero, mas não se estudou o mercado na perspectivas de 15/20 anos.

Neste caso concreto que aponta, faltou estudo?

Faltou estudo de mercado, da riqueza viva e do potencial do país. Quando isso não acontece criamos os chamados elefantes brancos. No contexto actual, para que as empresas se mantenham é preciso reanalisar as suas estratégias.

E aquelas que não possuem uma estratégia definida precisam defini-la para fazer face à situação actual sem um fim para breve. Por isso, aquelas que não definirem uma estratégia vão fechar, com todas as consequências para o país. As empresas precisam voltar a estudar o mercado e verem o que têm de potencial em termos de recursos humanos para que possam continuar em actividade, mesmo noutros nichos de negócio.

Noto que em muitas empresas há capacidade humana, mas ainda recorrem aos serviços de consultores externos. É preciso fazer uso racional dos recursos que se tem.

No processo de diversificação da economia nacional aponta-se muito as áreas da agricultura e da indústria. É por aí que deve passar o processo?

Sim, pois a agricultura e a indústria são fundamentais para o desenvolvimento de qualquer país. E, obviamente, Angola não foge à regra. Quando não se ataca a agricultura local e no sector da indústria, irremediavelmente o país fica sujeito ao processo de importação. Ao apostarmos na importação há um dispêndio enorme de divisas. É o que estamos a ver agora. Por outro lado, acabamos por ter um produto sem qualidade. Precisamos desenvolver uma plataforma que seja sistémica. Por exemplo, ao produzir o feijão tenho de pensar igualmente noutros produtos, pois as pessoas não vivem só do feijão, ao mesmo tempo que tenho de pensar na cadeia de distribuição.

Na sua visão, que outras áreas podem contribuir, de forma rápida, para o processo de diversificação económica?

Os aeroportos podem jogar um papel fundamental neste processo, quer do ponto de vista geoestratégico, quer do ponto de vista geoeconómico. Os aeroportos desenvolvem as regiões onde estão e dinamiza o fluxo de turistas. A partir daí pode-se tirar rendimentos. O desenvolvimento humano é incontornável, pois sabemos todos que não se pode desenvolver um país sem quadros capazes.

Os empresários têm estado a queixar-se dos impostos, argumentando que as taxas são muito altas. Enquanto estratega pensa que se devia rever, rapidamente, todos os impostos?

Não é o facto de estarmos em crise que a questão dos impostos devia ser observada. Ela deve ser observada sempre. Não podemos esperar que chega uma crise para se taxar mais impostos ou menos. As actuais taxas de impostos estão a criar mais problemas para os empresários que já estão aflitos. Em função do actual quadro, os empresários podem ficar desanimados, fechar as suas empresas, e as consequências estão à vista. O aumento da taxa de desemprego é uma delas.

E isso toca directamente às famílias. Outra consequência pode ser a fuga ao fisco. Não queremos com isso dizer que os impostos não podem ser aplicados, defendemos sim que seja de forma paulatina em função do momento. A forma como estão a ser aplicadas as taxas de impostos pode desarticular a estratégia de uma empresa, de duas, três e assim sucessivamente. Deste modo, o tecido empresarial acabaria asfixiado. Repito, ninguém deve fugir ao fisco, pois o Estado precisa deste dinheiro.

Muitos Grupos empresarias estão com serias dificuldades para se manter. Há casos que uma empresa sustenta a outra. Do ponto de vista estratégico é correcto proceder-se assim?

Se tiver capacidade pode faze-lo, mas é preciso ter cautelas. Todavia, quando um negócio não é rentável ao ponto de o outro ter de sustentá-lo implica falta de estratégia. É preciso ter estratégia e visão, e sobretudo colocar-se a seguinte questão: é necessário manter um negócio que já não é rentável no momento? Penso que não. É preciso pensar, repensar e definir estratégias para relançar este negócio. Quando se distribui recursos em áreas que não são prioritárias o resultado é o afundamento do negócio. Neste caso concreto, não fecharia apenas uma empresa, mas todo grupo

Neste período de crise e de redefinição de estratégias os consultores têm sido muito solicitados por empresas públicas e privadas?

Os consultores nacionais não têm sido muito solicitados, pois os proprietários e responsáveis das empresas têm a falsa ideia de que um consultor estrangeiro sabe mais. Repito, é uma falsa ideia. Os nacionais também estudaram nas melhores universidades do mundo e conhecem melhor a realidade angolana, facto que constitui uma mais-valia. Quem vem de fora traz sempre um modelo que não se adequa a realidade. Mas pode ser que ao sair daqui eu possa ser chamado, mas pode ser também que daqui há um mês ninguém me chame. É uma questão de mercado. E a área de consultoria funciona por ciclos.

PERFIL

Júlio César Furtado é cientista social e organizacional, desenvolve serviços de pesquisa, formação e consultoria há mais de 15 anos em paralelo com várias outras funções exercidas no passado na ENANA-EP. Áreas de actuação: organização e gestão de empresas, criação e desenvolvimento de estratégias competitivas, reestruturação, transformação empresarial e gestão de mudança, Marketing global; psicologia industrial e comportamento organizacional.

É igualmente Instrutor de língua inglesa no CAI Centro Aeronáutico de Instrução da ENANA-EP Formação académico e profissional •Doutoramento em gestão e consultoria aeronáutica e aeroportuária (DBA) Breyer State University •Mestrado em gestão e administração de empresas (MBA) Rushmore University Especializações: 1)Por formação e desenvolvimento profissional: a. Marketing – Portugal b. Gestão aeronáutica – Canadá c. Gestão de Aeroportos – Canadá d. Gestão Estratégica de Aeroportos – Canadá e. Inglês académico – E.U Especializações:

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