O réu que vem sendo acusado por Nataniel Mingas de o ter orientado a “calar a boca dos chineses” desmentiu o facto, bem como as alegações segundo as quais se terá feito passar por pai e posteriormente o chantageara. Extratos telefónicos demostram que, à data da morte dos chineses, ‘Kota do Bizno’ não estava em Luanda.

‘É tudo mentira descabida de Nataniel”, foram estas as palavras várias vezes repetidas por João Augusto da Silva Sales Camuyolo, vulgo “Kota do Bizno”, de 54 anos, contabilista e pai de cinco filhos. Vem acusado dos crimes de homicídio e burla, os quais negou em absoluto. Com os braços cruzados atrás das costas e com o punho direito fechado, o homem alto, careca, barba rapada, de bigode e voz grossa, respondeu calmamente às perguntas feitas em tribunal. À dada altura, as respostas de João Camuyolo levaram a representante do Ministério Público a pedir ao tribunal uma acareação com Nataniel Mingas.

A acareação, que provocou algum “zunzum” na sala do tribunal, ao ponto de a juiza vezes várias ver-se obrigada a martelar na mesa, exigindo que na sala o silêncio regressasse, serviu para esclarecer se foi ‘Kota do Bizno’ quem disse a Nataniel que a solução era mandar “calar a boca” dos chineses; se este fez-se passar de seu pai; se entre 4 e 10 de Janeiro Nataniel entregou dois milhões de Kwanzas e 3 milhões a 17 de Janeiro, dia em que os chineses foram assassinados. Não ficou excluído o facto de Nataniel ter dito em audiência que foi várias vezes chantageado por João Sales Camuyolo e que em resultado disto fora-lhe subtraído um total de 14 milhões de Kwanzas. João disse que realmente acompanhou Nataniel no negócio dos chineses, mas foi como testemunha e não como seu pai, a pedido do seu amigo há mais de 20 Costa. Em momento algum passou pela cabeça de João que Pedro esta visse a colocá-lo numa encruzilhada, também porque confiava nele e várias vezes já o representou em reuniões.

“Recebi apenas 350 mil Kz”

O encontro com os chineses foi rápido, segundo João, e foi conduzido por Nataniel. Pedro também orientara João para que fosse receber 400 mil Kz, dos quais dividiram duzentos para cada. João recebeu mais 150 mil Kz da mão de Pedro, alegando que era parte do que teria ganho dos intermediários do terreno. “350 mil Kz é o total do dinheiro que recebi”. “Em nenhum momento chantageei o Nataniel. Como é que alguém que é chantageado não grava, filma ou informa a pessoa que nos apresentou (Pedro) sobre o que se estava a passar?”, questionou Kota do Bizno, tendo acrescentado que se sente horrorizado por estar envolvido neste caso. Ainda sob acareação, Nataniel Mingas voltou a insistir que o último pagamento das chantagens feitas por João foi feito na Via Expresso, no dia 17 de Janeiro, minutos antes de os chineses serem assassinados.

João Camuyolo disse que neste dia nem sequer estava em Luanda, pois encontrava-se a viajar pelas províncias do Bié e Lunda Norte. Dada a insistência de Nataniel em que as alegações de João eram falsas, a digna representante do Ministério Público, Yamanjá Videira, disse que a rede de telefonia móvel Unitel pode provar isso, pelo que Nataniel respondeu “a Unitel não estava lá no encontro”. Risos tomaram conta da sala de audiências, até que a representante convidou Nataniel a ver as provas que constam dos autos, de folhas 525 – relatório de mensagens do número de João Sales Camuyolo, dando conta que este, no dia em que aconteceu o crime, estava na província da Lunda Norte, em Xá-Muteba. Voltou a instalar-se a vozearia na sala de audiências que só o martelo da juiza sufocou. Perguntado sobre como seria possível alguém em Xá-Muteba ter-se encontrado consigo no mesmo dia na Via Expresso, Nataniel, que se mostrou surpreendido com tal informação, simplesmente respondeu que talvez o telefone estava com uma outra pessoa.

Traído pelo ‘grande’ amigo

traidosPedro Bento da Costa, um dos réus no caso, que responde em liberdade, é amigo de ‘Kota do Bizno’ há longos anos e, por isso, este último ficou sem entender por que razão o colocara nesta confusão. Para que João fosse preso, foi Pedro quem o atraiu e junto da Polícia este apontou o dedo como se fosse ele quem matou os chineses. João Sales Camuyolo também não desconfiou da ilegalidade do negócio porque o seu amigo Pedro lhe tinha adiantado que Nataniel lhe dissera que o terreno pertencia ao seu pai, que é general, pelo que partiram os dois do pressuposto de que um general não se envolveria em burla de parcela de terras, contou ‘Kota do Bizno´.

João conta que quem estaria no seu lugar seria Pedro, mas este não foi testemunhar a venda do terreno porque tinha um outro encontro com um cliente da sua imobiliária. E mais, “em nenhum momento sabia que seria gratificado. Depois disso, Pedro pediu-me para ligar ao Nataniel porque tinha perdido o número dele, para ver se este lhe arranjasse um cliente para o seu terreno no Kikuxi”, acrescentou. O réu João disse ainda que várias vezes Nataniel chegou a confidenciar-lhe que retiraria tudo que o incrimina, pois só tinha dito aquilo porque fora espancado na Polícia. “Já tive vários confrontos com Nataniel e perguntei-lhe porquê me estava a lixar, se nem sequer me conhece, tendo respondido que quem me lixou a vida é o meu amigo (Pedro)”.

Madeira é o bizno de ‘Kota do Bizno’

madeirasJoão Augusto da Silva Sales Camuyolo disse que as viagens que fizera naquele período, entre Bié e Lunda Norte, tendo feito o trajecto Malanje e Cuanza Sul, foram com o conhecimento do sócio de sua empresa denominada Camuyolo Lda, no Km 36, Viana, cujo objecto social , no KM 36, é a exploração florestal. Referiu ainda que tinha a mania de deixar a sua carrinha, de marca Nissan, junto a uma esquadra da Polícia em Camacupa e explorar as matas com um Unimog. Entretanto, na última exploração chegou a levar um cidadão chinês que é especialista na matéria, por isso, “não tenho motivos para mandar matar um chinês. Tenho uma educação que não me permite este tipo de atitude”, declarou. Ainda sobre a sua empresa, João Sales Camuyolo disse alto e em bom tom, frente a Nataniel, que o lucro da Camuyolo Lda triplica o valor que Nataniel tinha em mãos, recebido dos chineses.

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