Desde a meia-noite desta Sexta-feira começou a contar o período mais crítico do longo processo de enchimento da albufeira do Aproveitamento Hidroeléctrico de Laúca.

Nas próximas 58 horas o país, particularmente as cidades cujo fornecimento de electricidade é garantido essencialmente através do Sistema Norte, vai ressentir-se grandemente deste processo, podendo registar o agravamento das restrições. Luanda é uma das regiões mais críticas, podendo registar um fornecimento de electricidade à metade do seu habitual consumo como, consequência directa da diminuição drástica da produção nos aproveitamentos de Capanda e Cambambe.

Os dois aproveitamentos hidroeléctricos, um a montante e outro a jusante de Laúca, vão ser afectados profundamente pelo processo a decorrer em Laúca porque nesta altura as águas do rio Cuanza terão de ser divididas pelas 3 barragens, devendo aquelas garantir alguma geração de electricidade e a sobrevivência da fauna e flora dependentes da vida autónoma do maior rio de Angola. Tudo começa na albufeira de Capanda que deve, nas próximas 58 horas, restringir a água para permitir o manuseamento das comportas em Laúca e por via disso alcançar- se o volume mínimo para início de manobras em Laúca.

Capanda deverá libertar para Laúca um caudal mínimo de 350 metros cúbicos por segundo. Depois das 58 horas, Laúca vai reter 227 metros cúbicos por segundo, sendo o excedente libertado para a barragem de Cambambe. Segundo o director geral do AH Laúca, engenheiro Elias Daniel Estevão “esta complexa gestão dos recursos hídricos” durante o período que se iniciou à meia-noite de hoje forçou a baixa de produção em Cambambe porque não recebe água nos volumes necessários para produzir no máximo da sua potência. Para Cambambe gerar electricidade no máximo da sua potência seriam necessários 900 metros cúbicos de água por segundo.

Pela interdependência entre as três infra- estruturas, ocorrendo igualmente uma redução em Capanda porque deverá libertar da sua albufeira água suficiente para garantir a quota mínima para o início de operações em Laúca, a mais nova coqueluche do Médio Cuanza. Elias Estevão reiterou a necessidade de todos os consumidores cooperarem nesta fase, a ver se as etapas previstas possam ser cumpridas. “Sei que não é nada fácil, mas os nossos clientes hão-de entender um dia que valeu a pena o sacrifício. Como se não bastasse, a natureza não esta a ser benevolente connosco, porque o expectável era que à esta altura do ano estivéssemos a ter chuvas abundantes em toda a bacia hidrográfica do Cuanza ou parte dela, mas este ano a tendência é ficar abaixo das médias mais críticas registadas desde a nossa a Independência, que foi o no ano de 2012”. Nos “bons anos de chuva”, nesta altura Capanda estaria a registar uma afluência acima de 1000 metros cúbicos de água por segundo, mas, paradoxalmente, os registos indicam um número abaixo de 500, sinónimo de estar a ser um ano “bastante severo no que a registos do ano hidrológico diz respeito”.

E porque “Abril chuvas mil”, Elias Estevão deposita alguma crença no facto da natureza fazer jus ao adágio e acredita piamente que até terminar a época chuvosa hão-de acontecer precipitações pulviométricas na Bacia Hidrográfica do Rio Cuanza, o que seria de todo bem-vindo para mitigar em parte este duplo sacrifício. Amanhã, simbolicamente dá-se início ao processo de encerramento do desvio do rio em simultâneo com a longa jornada de retenção de água para encher a “gigantesca albufeira de Laúca”.

Por outras palavras, neste Sábado o troço do rio desviado para permitir os trabalhos de construção do paredão de mais de 100 metros de altura vai ser devolvido ao leito natural numa complexa operação que deve garantir a passagem contínua do mínimo de recursos hídricos capazes de manterem a vida do rio a jusante de Laúca. Todas as atenções estarão doravante concentradas no alcance da elevação no nível de água na albufeira até aos 757 metros de elevação, quota capaz de “afogar na totalidade a zona de descarga de fundo”, condição “sine qua non” para o início do processo de regulação do caudal a jusante.

Os astronómicos números de Laúca

nataLaúca está a um pouco mais dos 700 metros acima do nível médio das águas do mar. A água à superfície do leito natural na albufeira neste momento está ao nível dos 723 metros acima do nível do mar. A primeira etapa do enchimento da albufeira deverá elevar a água até ao nível de 800 metros acima do nível médio das águas do mar. Isso significa que a água na albufeira deverá ser elevada até galgar a altura de 77 metros que estão milimetricamente traçados no paredão de 132 metros. Para compreender o “mini mar” que se deverá criar em Laúca até 2018, altura em que a albufeira alcançará o seu limite máximo (850 metros acima do nível médio das águas do mar), este volume deverá ser calculado de forma tridimensional, ou seja, em altura x cumprimento x largura. No final, a albufeira de Laúca, que se estende em linha recta por 46 Km, inundará 188 Km² , ou seja, 18 mil e oitocentos hectares. A água acumulada será de 6 bilhões de metros cúbicos, ou, dito de outra forma: a mesma quantidade necessária para encher 2 milhões de piscinas olímpicas.

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