As celebrações do 25 de Junho Dia da Independência de Moçambique tiveram início terça-feira última, em Luanda, com o lançamento de três obras literárias de autores do Atlântico e do Índico, ao som da marrabenta, na União dos Escritores Angolanos, a maior Casa das Letras do país

Trata-se dos livros “Inkuna Minha Terra” e “Jindunguices,” do escritor angolano Fragata de Morais, reeditados pela Editora das Letras, e “Erotismo como linguagem na obra de José Craveirinha” do moçambicano, Luís Cezerilo, pela Editora Alcance, a quem também coube a apresentação das mesmas.

A primeira obra Inkuna Minha Terra foi distinguida com uma menção honrosa do Prémio Sonangol de Literatura (UEA, 1997) e “Jindunguices”, o Prémio Literário Sagrada Esperança (INALD, 1999).

Já “Erotismo como linguagem na obra de José Craveirinha”, de Luís Cezerilo, que por sinal já beneficiou de uma apresentação oficial em Maputo, junta-se agora aos festejos da proclamação da independência daquele país irmão, em Luanda.

Nesta obra, o autor refere, que a literatura produzida em Moçambique já se tornou visível ao mundo contemporâneo por suas qualidades, alimentando-se no solo fértil do imaginário cultural dos seus ancestrais, assumindo uma postura revolucionária dos anos de luta contra o colonialismo, acertando contas com o colonizador, do qual adoptou antropofagicamente a língua, ou alinhando a sua história com as tendências literárias, mais significativas desde a segunda metade do século XX.

Os escritores moçambicanos redefinem a sua identidade, marcada pela diferença, ao mesmo tempo que constroem uma literatura do mais elevado nível estético. Não se entenda por isso que se trate de uma literatura que esteja se afastando das suas raízes ou de lutas políticas e sociais do seu povo. Pelo contrário, trata-se de uma literatura que incorpora os elementos históricos e políticos do contexto da sua própria tessitura, transfigurando-os em factos de linguagem. As obras, que resultam desse processo constituem uma produção que define a sua contemporaneidade, paradoxalmente, à proporção que se reescreve a ancestralidade.

Estruturação

A recém – apresentada obra “Inkuna Minha Terra”, divide-se em duas partes: livro primeiro, composto por 3 estórias: Jogo de Xadrez, Amores, Desalmar; e Livro Segundo, por 6 estórias, nomeadamente: Filhos de Ilanda, Martinha, Amizades, O Caçador, Rumos e o Almoço. Já “Jindunguices” é composto por 6 estórias: Desencontros, Xica da Silva, Amor de Perdição, Cartas, Traição e Carnaval.

“Estória” é diferente de “história. “Estórias” nomeiam narrativas de cunho tradicional e popular. A ligação com a oralidade africana é feita através de um modo de narrar que se processa espontaneamente e que remete para a tradição oral e para as histórias contadas à volta da fogueira como em Karingana ua Karingana, de Craveirinha, Esse jeito/de contar as nossas coisas/à maneira simples das profecias/ Karingana ua Karingana/é que faz o poeta/ sentir-se gente. Como afirma Adriano Barbosa, “O conto actualiza e dá vida à mensagem ou tradição… A oralidade é pois a própria vida do conto tradicional.

Num breve pronunciamento em relação a obra, Luís Cezerilo, avançou a nossa reportagem que as apresentações, no mais das vezes, colocam-se no lugar da fala intermediária. Um discurso de outrem que, por via de regra, se institui como discurso autorizado para discorrer sobre o conjunto de escrita consubstanciada numa obra, num livro.

No que se refere à analise conteudística das mesmas, recomenda a leitura do prefaciador escritor angolano, Henrique Abranches, que tão sabiamente soube interpretar a alma do eu-lírico e a realidade social que o circunscreve. No último conto do primeiro livro, o autor, sonhando para além de toda a lógica do mundo visível – não do palpável, porque este está por todo o lado revestindo as mais bizarras formas –, conta-nos a estória inesperada mas quanto significativa do espírito de um morto e da alma fugida do vivo que o matou. É realmente inquietante e pelo menos desconcertante. Mas também é original. Um tema que dá que pensar.

Comungando com a análise e visão de Henriques Abranches, Luís Cezerilo disse repousar de entre muitos contos no dilema que as mulheres de Inkuna enfrentavam, ali trazidas pelas personagens Xadinha e Milocas.

O escritor admite que a obra literária de Fragata de Morais discute predominantemente as questões fundamentais que determinam a condição histórica, social e política do homem angolano, na qual apenas descreve os seus personagens de forma coerente ao mundo em que vivem, fazendo com que o seu discurso ficcional perpasse a fronteira entre estética e ideologia.

Comunga escrita e oralidade na criação de um território linguístico que aponta para a resistência. Há vários registos dentro de um registo. Há história única como matriz da narrativa. Há várias estórias dentro da história.

Esse viés temático leva-nos para um outro eixo teórico: cruzamentos entre Literatura e História. O apelo à história encontra sentido porque os factos literários, em sendo da ordem do humano, não acontecem no vazio, eles reflectem e são reflexo de dada conjuntura social.

Desse modo, Luís Cezerilo realça que as relações sociais são conteúdos significativos, atribuídos por aqueles que agem, tomando outro ou outros como referência: fidelidade, conflito, piedade, e muito mais. Entretanto, essas visões de mundo seriam decorrentes das condutas de um sujeito (escritor) e de outros (públicos) orientados por algum tipo de sentido comum entre eles.

“Equivale afirmar que os verdadeiros motivadores da criação literária são os grupos sociais, e não os indivíduos isolados. O criador individual (o escritor) faz parte desse grupo, dada a sua origem ou posição social, sempre norteado pela significação objectiva de sua obra perante o contexto socio-histórico a que pertence. É nessa relação que se constitui o conteúdo da obra literária, ela situa-se não somente na criatividade do eu-lírico individual, mas também dentro das experiências do grupo social, numa influência recíproca entre esses dois actores sociais, disse. Dessa forma, o escritor sublinha, que nestes contos de Inkuna: Minha Terra e Jindunguices, parece-lhe ser clara a relação entre literatura e história, principalmente com a História de Angola, em que Fragata de Morais quer resgatar a história num momento crucial, o período pós-independência, para retirar daí, como estratégia contra o esquecimento, o sublime ou o horror.

Entende, que a obra de Fragata Morais, pensar Angola e as suas transformações históricas significa pensar o homem, as suas ideias, a sociedade politicamente constituída, a possibilidade de transformações das realidades sociais.

Admite que as presentações, no mais das vezes, colocam-se no lugar da fala intermediária. Um discurso de outrem que, via de regra, se institui como discurso autorizado para discorrer sobre um conjunto de escrita consubstanciada numa obra, num livro. Para além do óbvio que esta afirmação revela, devemo-nos ater ao cuidado que ela exige.

A título de exemplo, refere-se Roland Barthes, que já chamaria a atenção de as apresentações se revestirem de uma intenção ética e moral: na impossibilidade de se apresentar por si mesmo, o escritor é interditado deste momento de sumária apresentação sobre os seus feitos. Ele, convenientemente, se silencia, e se abre assim à interpretação. Se tal afirmação nos é permitida, teremos que admitir que se trata de um desafio arriscado, porém necessário.

Socorrendo-se ainda de Roland Barthes, em o Rumor da Língua refere que a linguagem literária excede sempre qualquer esquema descritivo, escapando sempre às malhas grosseiras de metalinguagem técnica.

“Neste breve momento de estar nas obras Inkuna: Minha Terra e Jindunguices, de Fragata Morais, tomamos Penélope e a Aranha como metáforas – desgastadas e vigorosamente vivas – da constituição da sociedade angolana como um grande texto.

A metáfora neste sentido encontra-se num sintagma em que aparece contraditoriamente a identidade de dois significantes e a não identidade de dois significados correspondentes ou na transferência analógica de denominações, segundo Émile Benveniste (1995)”

Reparo

Luís CezeriloLuìs Cezerilo, salientou que não pretender sob pretexto algum, promover ou estimular classificações estanques, uma vez que Fragata de Morais não cabe certamente em categorias particulares e, ao lermos Inkuna: Minha Terra e Jindunguices, certamente encontramos um tecido multicolorido, colcha de retalhos de “eus”, do eu lírico, estilhaçados de uma modernidade tardia, plural e contraditória e que torna o texto de Fragata Morais complexo, rico e singular a tudo que já se pôde viver e morrer em Pátria.

O escritor reconhece que o significado do texto literário não está marcado dentro do texto, mas sim no facto de libertar o que está dentro de nós. Cada conto novo constitui seu próprio leitor, definindo a reciprocidade existente entre o significado constituído, dado pelo autor e sua consciência no processo da leitura.

Nesta perspectiva, o valor e o entendimento do texto literário dão-se pelo conhecimento do contexto em que está inserido e ainda mais pelo depreender de elementos contidos no contexto de vida do leitor. As palavras no entanto, têm esse condão de retratar como só unicamente elas, a alma irretratável, de outra maneira, de quem as escreve e profere. Aquela parte dos homens a que chamamos espírito e, assim, os seus estados.

“Fragata de Morais é um homem de seu tempo, representando-o sob diversos modos. Em sua obra, misturam-se e separam-se, num jogo concomitante, o sujeito e o narrador. O filósofo Giorgio Agamben, em Profanações (2007), retoma a discussão sobre o par função-autor e autor, estabelecido por Foucault. Agamben lembra-nos que, para Foucault, a marca do escritor “residia na singularidade de sua ausência, aguardando-lhe, no jogo escriturário, o papel de morto”.

Ponto de vista

Sob esse ponto de vista, Luís Cezerilo considera que em Fragata Morais a função-autor é exercida plenamente, pois caracteriza “o modo de existência, de circulação e funcionamento de certos discursos no interior de uma sociedade”. (Agamben 2007: 56).

O também psicólogo e poeta refere que a história de vida de Manuel Augusto Fragata de Morais, passou a confundir-se não só com a luta pela independência de Angola como com a história da cultura em seu país. Em1996, o autor foi homenageado com o Prémio SONANGOL em Literatura, como resultado do seu contributo na consecução do projecto de nacionalização e da literatura angolana.

Para Luís Cezerilo, a Literatura angolana assume a sua responsabilidade nacionalista de construir o mundo no qual se insira a Nação bem como a sua identidade que procuram transmitir aos seus leitores.

“Nestas obras, as estórias que se seguem nos livros, Inkuna: Minha Terra e Jindunguices, são tecidos das cordas subtis da realidade concreta e presente, da geografia de Angola, das viagens e porque não das aventuras, que aos poucos vão enlaçando o tear da própria subjectividade narrativa”.

Já no que se refere à sua obra “Erotismo como linguagem na obra de José Craveirinha” referiu que teve vários cruzamentos. “ Por Exemplo, se nós encontramos no “Inkuna: Minha Terra”, de Fragata de Morais, em Pepetela ou em Lopito Feijó, extactamente tem a mesma dimensão. “O Atlântico e o índico cruzam-se num denominador comum”.

Satisfação do escritor

literatura, livrosFragata de Morais, que por sinal assistiu a proclamação da independência de Moçambique ao lado do Primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, considerou gratificante o iniciativa daquele país irmão, por incluir colegas deputados, embaixadores, escritores, leitores, entre outras individualidades nas comemorações dos 40 anos de independência, antecedidos com o lançamento das obras já referenciadas.

“Tive a honra e o prazer de ter estado com o Presidente Agostinho Neto na independência de Moçambique depois de termos saído Nankuro, em que o Presidente Julio Keniata tentou que os angolanos desavindos encontrassem uma via de chegar à independência de uma maneira que permitisse o país raucanda que teria tido outros contornos e que não seria ideal por razões diversas por três décadas. Fragata recorda com alguma nostalgia o arrear de uma bandeira colonial e o hastear de uma nova bandeira de uma pátria livre, respeitada e independente, abençoada com uma enorme carga de chuva. “Foi para mim uma honra e glória ter estado nessa cerimónia. Foi a minha primeira independência africana”, argumentou. Por sua vez, Carmo Neto, secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, ao intervir no acto, considerou a literatura um incomuncerável depósito de conhecimento, memória e experiências que a humanidade jamais produziu ou irá produzir.

Uma fonte privilegiada para se fazer buscar o conhecimento e experiências com vista a construir o trono de implicações das formas imagéticas que refletem simbolicamente a realidade das sociedades. Recordou que, em quase 40 anos de idade da UEA, pode afirmar-se que é substantiva a sua contribuição na construção do bem e na destruição da barreira contemporânea que todos nos procuramos combater por meio da literatura ou enterrá-la quando necessária.

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