Luanda é terra de lugares beijados por sol e mar. Se uma cidade são também as imagens sonoras e as imagens visuais e mentais que se têm dos espaços e das paisagens geográficas e arquitetónicas, viajar para Luanda ao entardecer, cadenciado por uma onda atlântica, é uma aventura que ninguém jamais esquece. E que maravilhosa é Luanda à noite, vista pela janela de um avião! O espectáculo do pôr-sol ganha dimensão bíblica se presenciado através do Miradouro da Lua: o astro-rei a desfalecer lentamente, a diminuir diminuindo até se transformar num pontinho vermelho no outro lado do mundo.

A distância entre um sonho e um pesadelo é apreciar Luanda das alturas à noite e de dia. Terra de contrastes e contradições. O brilho da cidade cintila como pirilampos, maquilhando as suas mazelas. Luanda é a cidade onde a noite manda, uma urbe onde o destino brinca o seu jogo de cabra-cega em corações aflitos; linda de morrer – e o quanto ela é maravilhosa bem o sabem os caluandas que por ela rejeitam até a própria vida – para o jornalista Américo Gonçalves, Luanda sempre foi e será uma cidade que obriga os seus habitantes a conjugarem o seu próprio verbo: luandar.

A doçura de maruvo que é chegar à Luanda surpreende-nos em plena ponte da Barra do Kwanza. Se olhamos à direita, sentimo-nos atraídos pelo poderoso caudal do Kwanza Rei, as águas brilhantes como diamantes. Se olharmos à esquerda, ali aonde o grande rio desagua, mais para baixo, caminho do mar, testemunhamos o sol a estrebuchar na agonia da sua morte, lutando em vão para não sucumbir arrefecido na grande imensidão de massa de água azul. Se darmos com as portas sul da cidade a meio da tarde, então atinge-se o êxtase e nos embriagamos de poesia da vida. Do alto, o sol cospe línguas de fogo e luz que fervilham as águas do mar e vasculham às almas dos viajantes, porque em Luanda como em nenhuma outra parte do mundo, o sol quando nasce é para todos.

Desde a saída do Porto Amboím, o mar pisca-nos os olhos a todo momento, persegue-nos como um cheiro colado a pele. Às vezes brinca às escondidas com a vegetação e montanhas, mas quem entra para Luanda tem o lado esquerdo, a maior parte do tempo, preenchido com uma paisagem paradisíaca, correndo mesmo o risco de apanhar um torcicolo, de tanto forçar o pescoço no contemplar o tapete espelhado do Atlântico. Mar e sol. Sol e mar. O mar que banha Luanda, esse aberto poema que ressoa no búzio do semba, é uma constância no caminho de quem descobre a alma da cidade.

Mar distante, um brilhante tapete ondulado, faiscando raios que se conectam ao sol que arde em brasa; mar, bastas vezes, retratado como corpo de água tão poderoso quanto sereno ou tão belo quanto perigoso. Ao longo da viagem, persegue-nos o cantar das águas cálidas do Cabo Ledo. De quando em quando, chegam-nos aos ouvidos os rumores da maré e do que ela contém, zangada pelo desleixo e pelo garimpo das areias das praias, arrebentando-se em ondas cada vez mais violentas e vomitando ventos furibundos. O vómito das águas raivosas vai se aproximando perigosamente. As ravinas vão mordiscando os calcanhares das estradas.

As praias vão sucumbindo. Da praia das Palmeirinhas, da Onça, do Morro dos Veados e muitas outras, apenas rastos na memória. Das praias do norte da cidade, nem se fala, que foram quase todas destruídas. Uaué, praia de Santiago!!! A minha cidade é linda É de bem querer A minha cidade é linda Hei-de amá-la até morrer Da ilha até ao Sambila Tem muita coisa para ver E tem baronas bonitas Para o poeta escever Da Samba até ao Boavista Tem a paisagem do mar Passa-se ali muita coisa Eu só falei por falar Minha cidade é linda É de bem querer A minha cidade é linda Hei-de amá-la até morrer O centro é a Mutamba Local para estacionar A marginal de mini-saia e conduta para censurar.

Definitivamente, na mente de kotas como eu, há um texto cantado e falado tanto em si mesmo quanto a partir de percepções e outros tantos processos de usos e apropriações de Luanda, que teima em se conformar, em se deixar vencer. Mudam-se os tempos, alteram-se as perspectivas. Mas a canção acima transcrita vai continuar a ser a trilha sonora da história de vida de Luanda, sempre recordada pelos que valorizam-na como o lugar perfeito para eternamente ser poetizada, cantada e amada.

Comentários

comentários