A Companhia de Bioenergia de Angola, Biocom, deu início à moagem de cana relativa à safra 2017/2018, no passado dia 29 de Junho, com a previsão de produção de 62.947 toneladas de açúcar. A informação é do seu director geral-adjunto, Luís Bagorro Júnior, em entrevista recente a Rádio Mais

Na entrevista que se segue, o gestor fala, com detalhe, sobre os constrangimentos decorrentes do elevado custo de produção no desempenho da empresa e do sector agrícola, de modo geral. Mas apesar desse impasse, acredita que vale a pena continuar, por entender que a auto- suficiência exige sacrifícios.

Como vai a saúde da Bicom, Engenheiro Bagorro?

A Biocom está de saúde, razão pela qual iniciamos a nossa safra no dia 29 de Junho, temos como meta a produção de 62 mil e 947 toneladas de açúcar e 15 mil 278 metros cúbicos de etanol e geração de 200 mil megawatts que serão introduzidos no sistema eléctrico. Estes são os resultados que pretendemos atingir com a safra de 2017/2018. Tínhamos como meta atingir, este ano, 73 mil toneladas de açucar, mas já não vamos atingir por causa do período de estiagem que o país viveu, em que houve uma seca muito grande.

Que condições humanas foram mobilizadas para o efeito?

No ano passado tivemos cerca de nove mil hectares de cana plantada para colher, este ano temos de colher mais de 12 mil para esta safra. Isto implicou investimentos em meios, em colhedoras, outros meios mecânicos, meios de transportes… fizemos um investimento superior ao do ano passado. Temos menos mão-de-obra expatriada do que no ano passado, resultado do programa de desenvolvimento individual.

Qual foi a ordem percentual do ano passado?

O ano passado tínhamos nove por cento, este ano temos sete por cento de expatriados. Está a reduzir o número de expatriado no nosso projecto, o que demonstra estarmos no bom caminho.

Qual é o critério de redução da mão-de-obra expatriada?

O critério que usamos para esta redução é o denominado ‘Programa de Desenvolvimento Individual’ que está ser implementado no projecto, que a direcção da Biocom define que cada expatriado deve formar um nacional. Ao lado de cada expatriado tem de estar um angolano a aprender e está a sortir muito bons resultados. Isso faz com que durante as três safras deu para substituir alguns expatriados por nacionais. Pretendemos chegar até à maturidade, em 2021, três por cento de expatriados, sendo 97 por cento mão-de-obra nacional.

Que balanço faz das últimas três safras?

Está a ser um sucesso. O país não produzia açucar desde a independência devido à guerra e a uma série de factores que forçaram a paragem da produção no país. Estamos a falar hoje de um projecto com tecnologia de ponta e inédito, com a produção de três produtos diferentes ao mesmo tempo: açucar, etanol e energia. O grande problema que tínhamos era a mão-de-obra nacional ser adaptada a essa tecnologia.

Qual é o actual nível de produção do açucar?

O nível de produção do açucar está ocorrer conforme previsto, a qualidade do açucar é óptima. Tudo corresponde à produção e qualidade prevista. Qual é a produção actual? Este ano vamos produzir 62 mil e 947 toneladas de açucar.

E energia? Como anda esse processo de produção?

Prevemos produzir 200 mil megawatts de energia, este ano. O ano passado produzimos menos energia do que este ano.

Em que medida a Biocom reduziu o nível de importação do açúcar do país desde o início de produção? Dispõe desse dado?

Começamos por reduzir em nove por cento, hoje já estamos a chegar entre os 20 e 25 por cento das necessidades do país. Segundo dados estatísticos, o país importa entre 300 e 350 mil toneladas de açúcar por ano. Na maturidade da nossa produção, vamos chegar a produzir 256 mil toneladas por ano, o que implica que vamos fornecer cerca de 65 a 70 por cento das necessidades do país. Em que horizonte temporal? Vamos atingir à maturidade em 2021. É nessa altura que atingimos a nossa capacidade instalada, de 256 mil toneladas. É claro que não vamos parar por aí, se haver decisão dos sócios, ampliaremos a fábrica para a sua duplicação. Quem olha para o portfólio da Biocom pode questionar-se por que importa açúcar.

Pode explicar?

Sim. Como em qualquer parte do mundo, os países hoje defendem a sua produção nacional. Dou-lhe o exemplo de Moçambique: tem uma indústria açucareira muito forte. Claro que os custos de produção é maior do que o importado. Moçambique aumentou os direitos alfandegários em 50 por cento. Em Angola, quando projectamos produzir açúcar, contactamos o Governo. E o Governo entendeu que ao invés de aumentar a taxa de importação de açúcar, cede quota de importação de produtores. A Biocom, por estar a produzir e por ter um custo de produção elevado, decidiu-se por definir uma quota de produção até atingir a maturidade.

Qual é quota da Biocom?

Não tem uma quota definida. A princípio chegou-se a pensar numa quota de 60 por cento, mas nunca chegou-se a definir até hoje. Vão-nos dando alguma possibilidade de importar para reduzir o nosso custo de produção. Essa é a forma que o Governo encontrou para prote- g e r a nossa indústria.

O custo de produção…

Eu ia explicar. Porquê que o custo de produção é elevado em relação aos outros países, como o Brasil ou a Índia? Constitui o principal impasse dos investidores do sector produtivo.

Concorda?

Exactamente. mas devo dizerlhe o seguinte: o que é que o país produz de apoio a agricultura, por exemplo? Em Angola, para fazer agricultura importamos todos os insumos agrícola. Não temos fertilizantes, não temos adubos, tudo isso é importado. E para importar isso criamos uma estrutura pesada: temos de criar uma área comercial, envolvemos o despachante e tem um custo elevado. Os outros países não importam isso, está à porta. O outro factor que encarece são os equipamentos. Às vezes temos stock de peças que não necessitamos já, mas para garantir a substituição nalguma eventualidade. E temos de ter sempre mão-de-obra expatriada, porque ainda falta pessoal qualificado. Manter um técnico expatriado no nosso país é caro. Tudo isso conta para o custo final.

Como inverter o quadro?

Quando tivermos fertilizantes, produtos químicos, mão-de- obra qualificada, quando conserguirmos fabricar peças sobressalentes em Angola, é claro que essas dificuldades serão ultrapassadas.

“Somos dos único projecto em angola que produz a matéria-prima”

Que dificuldades a Biocom enfrenta na importação de insumos, tendo em conta o défice cambial que o país vive?

Assim que surgiu a crise e devido à escassez de divisas no país, uma das medidas que tomamos foi: tudo aquilo que podemos encontrar no mercado interno adquirimos, inclusive mão-de-obra interna especializada. Temos estado a tentar absorver tudo aquilo que é possível no país. E o que é possível absorver internamente? Hoje temos muitos serviços que é possível conseguir aqui. Lançamos anúncios nos jornais e tem aparecido algumas empresas que correspondem às nossas necessidades e isso faz com que reduza as necessidades de divisas.

Qual é a média percentual dessas soluções internas das vossas necessidades?

É pouco, por aí 20 por cento. Por exemplo, empresas de soldadores e outros serviços de manutenção já recorremos ao mercado local, quando existe. Agora, quando é mais específico, como mexer numa refinaria, recorremos à mãode- obra expatriada. E aí sim, é que precisamos das divisas. Por outro lado, não importamos matéria-prima. Somos dos único projecto em Angola que produz a matéria-prima e transforma. A nossa necessidade de divisas, comparativamente às outras indústrias do sector agro-industrial, é baixa. Por esta razão, temos sido atendidos pelo Governo, na medida do possível, um pouco também na perspectiva da protecção dessa grande indústria que é a Biocom.

Quantos postos de trabalhos a Biocom tem criado actualmente?

A Biocom emprega, neste momento, um total de três mil e 64 pessoas, contando com os empregos directos e indirectos. E só temos este número porque o nosso processo de produção é totalmente mecanizado.

Fale-nos da acção de responsabilidade social da Biocom. Ganhámos o prémio Sirius de melhor programa social.

A nossa atenção à comunidade circundante é uma das grandes preocupações da Biocom. Desde início começamos por apoiar um programa agricultura familiar, chamado “Kukula kumoxi” (crescer juntos), que está a ser gerido pela Sodepac, com o apoio da Biocom. Compramos toda a sua produção de hortícola para o refeitório da Biocom. Anualmente gastámos oito milhões de kwanzas na compra desses produtos.

Existe ainda o outro projecto da fábrica de sabão denominado “Tualetu kumoxi” (estamos juntos), com 12 senhoras no município de Cacuso, que fabricam o sabão artesanal. Mensalmente cada uma dela tem uma renda de 16 mil kwanzas, para atender as suas necessidades com os custos de produção.

A fábrica produz 15 mil 360 barras de sabão por ano, que dá um resultado financeiro bruto anual de dois milhões 304 mil kwanzas.

Há outras iniciativas sociais?

Sim. Há um outro programa com o qual pretendemos concorrer para o prémio de melhor programa de desenvolvimento humano. Temos um programa de alfabetização de adulto, trabalhamos com metodologia Dom Bosco, para dizer que nós não só ensinamos as pessoas a ler e a escrever, mas também preparamos para o primeiro emprego na vida. Temos 180 alunos. Temos ainda um programa desportivo de judo e ji-jitsu, que absorve 97 crianças e adolescentes, com dois treinadores de judo, um mestre de ji-jitsu e as crianças já participam em campeonatos internacionais. Com esse programa, Cacuso entrou para a história mundial do desporto na modalidade de judo e ji-jitsu, por via da qual ganhamos 75 medalhas de ouro, 33 de prata e 15 de bronze, ao longo dos três do projecto.

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