Em cerca de 10 mil consultas feitas no hospital Psiquiátrico de Luanda, de Janeiro a Dezembro do ano em curso, diagnosticou-se mil e 40 casos de violência doméstica, dos quais 355 problemas conjugais, segundo Jaime Sampaio, chefe dos serviços de urgência da instituição

O psiquiatra Jaime Sampaio revelou ontem que há mais mulheres procurando pelos serviços de psiquiatria do que homens e que elas, quando vítimas de agressão, são 12 vezes mais susceptíveis de optarem pelo suicídio. Explicou que agora possui internadas, na sua unidade hospitalar, 69 mulheres dos 17 aos 60 anos de idade, maioritariamente em consequência de problemas conjugais e de violência doméstica.

O especialista que falava à margem de uma palestra sobre a “Saúde mental” realizada no Centro de Imprensa Anibal de Melo (CIAM), esclareceu que a violência doméstica é um fenómeno de impacto muito incisivo na saúde mental do indivíduo, na família e na comunidade.

O seu estudo deve ser conduzido numa perspectiva biológica, pois, segundo Jaime Sampaio, tem verificado que muitas pessoas deixaram de andar, ver e falar. Tiveram lesões graves ao nível do sistema nervoso por causa da violência doméstica que sofreram.

Explicou que há vários tipos de violência, designadamente a urbana, laboral, hospitalar, doméstica (a mais frequente), entre outras. No entanto, lembrou que violência doméstica é toda a infracção que ocorre no seio de uma coabitação e as pessoas que são vítimas deste crime não desenvolvem um comportamento psicológico normal.

“As vítimas de violência têm tendência de permanecer escondidas com a desculpa de que pertence a esfera de âmbito privado. Pois, falta na sociedade um sistema que garanta a detenção do abuso total real”, lamentou Jaime Sampaio.

O chefe dos serviços de urgência do Hospital Psiquiátrico de Luanda alertou que as vítimas de violência doméstica devem ser escutadas, não só pelo especialista em saúde mental, como por qualquer outra pessoa. Deve- se assegurar-lhe que não está só, que não é culpada do crime que sofreu, bem como convencê- la a defender os seus direitos e a viver sem temor à violência.

Caso venha a desabafar com um profissional de saúde, não se lhe deve prescrever sedativos no caso de acusar falta de sono. “Se ela for sedada vai dormir e esquecer o que realmente aconteceu”, frisou.

O médico esclareceu ainda que existe um ciclo entre doença mental, violência doméstica e doença mental. Todas as pessoas que têm sido vítimas de violência doméstica podem ter como consequência transtornos mentais, alguma alteração no seu comportamento psíquico ou viceversa e outros transtornos que podem causar a violência.

Jaime Sampaio reiterou que os indivíduos que desencadeiam a violência doméstica têm características comportamentais que muitas vezes são gerados e influenciados: Muitos adquiriram como herança.

“Como médico psiquiátrico, tenho atendido crianças com transtornos mentais a partir dos zero anos. Acredito que algumas crianças nascem com alguns problemas em relação ao comportamento no seu desenvolvimento psicomotor porque, por vezes, o pai ou a mãe viveram algumas situações impróprias”, frisou o especialista.

O jornalista Paulo Miranda Júnior, que trabalha há 28 anos na Rádio Nacional de Angola (RNA), 24 dos quais na Rádio Luanda, explicou que durante esses anos foram descobertos muitos casos de violência doméstica.

“Por agora, o quadro é diferente. As pessoas é que estão a denunciar”, referiu. O Ministério da família, possui um número destinado à denúncia de casos de violência doméstica ou do género, cuja queixa não se retira por se tratar de crime público. A chamada é gratuita, pelo número 15020.

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