O preço do petróleo teve uma recaída, principalmente devido à desconfiança quanto ao cumprimento da política de cortes por parte do Iraque. Permanecem factores de desconfiança numa altura em que os acordos assinados pela OPEP e outros produtores têm uma execução entre 60% e 70%.

Por esta altura, em Janeiro de 2016, o preço do petróleo cumpria uma queda vertiginosa, que culminou, a 20 de Janeiro com o preço do barril Brent, tipo de petróleo de referência para as ramas angolanas, no mercado de futuros de Londres, abaixo de USD 28, um mínimo em 12 anos. Janeiro é um mês fatídico para o preço da matéria-prima. Porquê? Porque as refinarias preparam as chamadas ‘manutenções da Primavera’ no hemisfério Norte e a procura cai em resultado disso.

Há uma excepção a esta ‘síndroma’ dos primeiros meses do ano, aqueles que antecedem a ‘limpeza’ das refinarias. Aconteceu em Fevereiro de 2014, quando o valor do petróleo batia todos os recordes instalado na casa dos três dígitos e atingia USD 110 por barril. Ora, após sofrer o impulso dado pelo acordo entre países produtores, filiados e não filiados na OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, o preço do crude registou o maior revés em cinco semanas, recuando mesmo até aos USD 54 por barril.

A época explica, em parte, o retrocesso. Mas só em parte. Há outros factores que explicam que os cortes já anunciados correspondam a apenas 60% a 70% dos cortes totais fixados, de acordo com a informação passada pelo ministro do Petróleo do Kuwait, Essam Al-Marzouk. Declarações feitas no decurso de uma conferência de imprensa dada em conjunto com o secretário-geral da OPEP Mohammad Barkindo, na cidade do Kuwait Em primeiro lugar, o aumento da produção dos países que, embora comprometendo-se com o acordo celebrado entre os membros da OPEP, já se adivinhava que iriam colocar dificuldades no seu cumprimento.

É o caso do Iraque, o segundo maior produtor da organização, com um nível de produção de referência de 4,561 milhões de barris por dia e que ficou de subtrair, a partir do início de Janeiro, 210 mil barris à sua produção diária. Ora, o Iraque atingiu um máximo de produção em Dezembro o que colocou, de imediato, os mercados em alerta. Vai mesmo efectuar os cortes na produção a que se obrigou, apesar dos países do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Omã e Kuwait) declararem estar a cumprir?

É o que se perguntam os investidores. Agora, o recuo do preço do petróleo, já não se fica a dever a acontecimentos ocasionais, como a subida do dólar, que torna a matéria-prima, denominada na nota verde norte-americana, mais cara para compradores que utilizam outras divisas. Está- se perante o momento da verdade: será que vão mesmo concretizar- se os acordos estabelecidos entre a OPEP e os países que a compõem mais os que não a integram (25 países produtores ao todo) no sentido de reduzir a oferta diária em cerca de 1,8 milhões de barris diários, fazendo descer os stocks e introduzindo maior estabilidade no preço do barril de referência internacional (o Brent), fixando-o, pelo menos numa primeira fase, em torno de USD 60?

Os mercados admitem o possível incumprimento por parte do Iraque e dos 11 países não filiados na OPEP que se comprometeram a retirar do mercado perto de 600 mil barris por dia. Precisamos de assistir ao cumprimento por parte de outros países que não a Arábia Saudita, Kuwait e outros estados do Golfo’, declarou à Bloomberg John Kilduff, sócio da Again Capital LLC, um fundo de risco sediado em Nova Iorque e especializado em energia.

A desconfiança quanto à vontade iraquiana em cumprir a sua parte do acordo tem a sua justificação. Desde o início das conversações que culminaram na decisão de cortar a oferta da matéria- prima, o Iraque mostrou-se relutante em aderir ao regime de quotas. Bateu-se por ser excepcionado, como a Líbia e a Nigéria, que alegaram conflitos internos que reduziram muito as suas produções. Também os países excepcionados nos acordos poderão colocar no mercado volumes da mercadoria energética acima do previsto.

A produção líbia, por exemplo, subiu. E há finalmente a questão do tempo que demorará a reagir a concorrência norte-americana dos produtores de petróleo a partir do fraccionamento do xisto. As explorações norte-americanas deste tipo de petróleo ascendiam a 529 a passada semana, e as empresas no terreno abriram mais 100 explorações desde o final de Setembro. O ano começou com o preço do petróleo a subir, atingindo mesmo mais de USD 57 dia 6, Sexta-feira, para tombar, na abertura da semana seguinte, abaixo de USD 55.

Todavia, ontem, a meio da tarde em Luanda, o ambiente era de nova recuperação, com um avanço superior a 20% face à cotação da véspera e o preço do barril novamente acima de USD 55. Se os cortes forem executados a 100% não será difícil que o preço supere USD 60. Mas ainda há não só petróleo a mais como desconfiança a mais no mercado. (L.F. com Bloomberg)

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