Morreu hoje, com 92 anos, o ex-Presidente da República portuguesa e o primeiro-ministro dos Negócios Estrangeiros após 25 de Abril de 1974, data em que foi deposta a ditadura em Portugal. Soares teve um papel relevante nas negociações com os movimentos nacionalistas que exigiam a independência das ex-colónias portuguesas em África.

A morte de Mário Soares é o desfecho esperado do seu internamento desde 13 de Dezembro de 2016 no Hospital da Cruz Vermelha em Lisboa, onde se encontrava em estado crítico.

Mário Soares foi, após a vitória do seu partido socialista nas primeiras eleições livres que se realizaram em Portugal após o 25 de Abril de 1974, primeiro-ministro de Portugal, numa altura em que teve de enfrentar a primeira situação de quase insolvência do país na nova era democrática (outras se seguiram depois, a mais recente em 2011) e Presidente da República por duas vezes.

‘Laico, republicano e socialista’, como um dia se auto definiu, bateu-se tenazmente pela integração de Portugal na União Europeia, apesar de alertado por especialistas para os impactos negativos da integração. Mas a Mário Soares interessava a dimensão política e sabia que, dentro da então Comunidade Europeia os comunistas, seus grandes adversários logo a seguir ao golpe militar de 25 de Abril, não teriam hipóteses de progredir, a Europa não deixaria. Curiosamente, das primeiras eleições pós 25 de Abril, ganhas por Soares e os socialistas, o Partido Comunista nem conseguira saír como a segunda força parlamentar, posição que foi conquistada pelos sociais-democratas de Sá Carneiro (então baptizado PPD, Partido Popular Democrata), que reuniam a antiga ‘ala liberal’ da ditadura. Soares via na integração europeia o contraponto ‘absolutamente essencial para a descolonização que se revelava inevitável e grandemente traumática’.

Portugal apresentou a sua candidatura à adesão à Comunidade Económica Europeia (CEE), depois transformada em União, em Março de 1977 e assinou o acordo de pré-adesão a 3 de Dezembro de 1980, tornando-se membro a 1 de Janeiro de 1986. Foi posteriormente, em Janeiro de 2002, com Durão Barroso à frente do governo português e Cavaco Silva na presidência da República, que Portugal passou a ser membro do clube do euro.

A intervenção de Mário Soares na descolonização foi polémica. Quando chegou ao primeiro encontro de Lusaka para negociar com a Frelimo, que combatia o exército português em Moçambique e já controlava uma parte do país do Índico, Soares deu um abraço fotogénico a Samora Machel, o célebre ‘abraço de Lusaka’, mas quando as duas delegações se sentaram à mesa e a Frelimo se dispôs a analisar a posição das forças militares no terreno com vista à eventual negociação de um cessar-fogo, Soares confessou que não sabia onde se encontravam exactamente as tropas portuguesas e que não vinha mandatado para esse tipo de negociação.

Embora sempre tenha opinado sobre África, o continente era território que mal conhecia, estava mais voltado para a Europa. Foi o líder do primeiro governo constitucional da nova república saída de 25 de Abril, mas terminou a sua primeira experiência governativa com a popularidade muito em baixo. Tivera que pedir auxílio ao Fundo Monetário Internacional (FMI) face ao estado calamitoso da economia portuguesa e foi obrigado a dar rédea solta ao homem que conduziu o programa de recuperação das finanças públicas, o primeiro programa de austeridade experimentado pela nova república democrática, o seu ministro das Finanças, Hernâni Lopes, um economista rigoroso que não transigia com facilitismos.

Mário Soares nasceu a 7 de Dezembro de 1924 em Lisboa, licenciou-se em Ciências Económicas e Filosóficas e, depois, também em Direito. Filho de um republicano opositor de Salazar, o fundador do Colégio Moderno, João Soares, Mário Soares desde cedo se embrenhou na política, combatendo a ditadura de Salazar. Participou na candidatura do General Humberto Delgado à presidência da república portuguesa, uma eleição viciada pelo regime a favor do seu candidato, acabando Humberto Delgado por ser assassinado pela polícia política do regime, a PIDE. Esta deteve Mário Soares por 12 vezes. Em 1968 foi preso e deportado sem julgamento para S. Tomé.

Havia já fundado o Partido Socialista português na Alemanha quando o 25 de Abril de 1974 o apanha em França. Pouco tempo depois desembarcava na gare lisboeta de Santa Apolónia, onde recebeu um acolhimento eufórico e, dois dias mais tarde, voltou à gare da zona oriental de Lisboa para receber outro anti-fascista: o secretário-geral do Partido Comunista português, Álvaro Cunhal. Na altura saudou Cunhal como ‘um grande resistente’, mas as relações entre os dois não levaram muito tempo a azedar, entrando Portugal num período conturbado de cujo desfecho Mário Soares é o grande vencedor.

Procurou que Portugal se tornasse verdadeiramente europeu, deixando o seu papel historicamente periférico, e marcou o Séc. XX português. Três vezes primeiro-ministro e duas vezes Presidente da República, para além de ministro dos Negócios Estrangeiros, o seu primeiro cargo governativo, Mário Soares é visto, politicamente, como a maior referência da segunda metade do século XX português mas, curiosamente, não foi o político que mais tempo ocupou os cargos mais elevados. Foi Cavaco Silva.

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